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    Teologia: Virgem Maria

    Série: Que todos sejam um: uma conversa sobre o Ecumenismo – Teologia parte 3

    Artigos

    03.04.2024 08:00:00 | 12 minutos de leitura

    Teologia: Virgem Maria

    Padre Rafael Pedro Susrina, psdp

    A Anunciação a Maria introduz: “no tempo previsto, Deus envia o seu Filho, nascido de uma mulher” (Gl 4,4). A jovem Maria é convidada a conceber aquele em quem habitará “corporalmente toda a plenitude da divindade” (Cl 2,9). Tudo isso acontecerá pelo poder do Espírito: “O Espírito Santo descerá sobre ti” (Lc 1,35). Os evangelhos de Mateus, Marcos e Lucas narram que a mãe de Jesus é Maria, que estava casada com um carpinteiro de nome José (Mt 13,55; Jo 6,42). Marcos (6,3) menciona quatro irmãos de Jesus que são os seus primos. Os evangelistas narram que a proclamação de Jesus, inicialmente, causava alguma dificuldade para a sua mãe (Mc 3,31-35; Mt 12,46-50; Lc 8,19-21). 

    Nas narrativas do nascimento de Jesus, Mateus e Lucas destacam a concepção através do Espírito Santo, e a este anúncio, Maria submete-se em obediência de fé. Maria estará também ao pé da cruz. “Vendo assim a sua mãe, e perto dela o discípulo que ele amava, Jesus disse à sua mãe: ‘Mulher, eis aí o teu filho’. A seguir, disse ao discípulo: ‘Eis aí tua mãe’. E desde aquela hora o discípulo a recebeu em sua casa” (Jo 19,26-27). E no livro do Apocalipse de São João, cap. 12, temos um grande sinal, apareceu no céu, uma mulher vestida de sol, atormentada para dar à luz.

    As Igrejas da Reforma, como bem sabemos, evidenciam a centralidade da Sagrada Escritura. Por isso, as passagens que narram a presença de Maria também não podem, e não são descartadas por elas. O Pastor Ervino Schmidt da Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil, em seu texto A Bem-Aventurada Virgem Maria e a Busca da Unidade, afirma que as Igrejas da Reforma “assumem todo esse rico testemunho a respeito de Maria. Temos que reafirmar a partir daí: Maria não é só católica, ela é também evangélica”. Essa afirmação, no primeiro momento, pode nos ser de espanto, e é bom que o seja, para de fato nos darmos conta que o caminho do diálogo e do verdadeiro entendimento, não só sobre Maria, é aberto a todos, entretanto para aqueles que não desejam trilhar esse caminho a novidade desta possibilidade até pode assustar. 

    A fé entre as Igrejas Cristãs tem uma grande base comum. Foi a fé no único Senhor que possibilitou a formulação de Credos, que uniram os cristãos não obstante as diferenças de cultura, classe e raça. O Credo Niceno-Constantinopolitano goza de ampla aceitação entre as Igrejas. Ele expressa de forma apropriada os fundamentos da fé apostólica. Sua acolhida foi mais universal do que a de qualquer outra confissão formulada, por isso é considerado uma herança comum. 

    Os cristãos evangélicos confessam, a encarnação e virgindade de Maria, através do Credo Niceno-Constantinopolitano: Cremos em um só Senhor Jesus Cristo, o Filho Unigênito de Deus, gerado do Pai antes de todos os séculos, (Deus de Deus), Luz de Luz, Verdadeiro Deus de Verdadeiro Deus, gerado e não feito, da mesma substância que o Pai, por meio do qual todas as coisas vieram a ser; o qual, por nós, os homens, e pela nossa salvação, desceu dos céus e se encarnou do Espírito Santo e da Virgem Maria e se fez homem e foi por nós crucificado sob Pôncio Pilatos e padeceu e foi sepultado e ressuscitou ao terceiro dia, segundo as Escrituras, e subiu aos céus e está sentado à direita do Pai e virá de novo, com glória a julgar vivos e mortos; e o seu reino não haverá fim.

    Assim, eles destacam a humanidade de Jesus, e afirmam como verdadeiro homem e verdadeiro Deus. Entretanto não se destaca, porém, qualquer mérito próprio de Maria. Walter Altmam explica que “A referência à virgindade de Maria, muito longe de estatuir um valor próprio à Maria, justamente o desfaz. Maria não tem mérito algum, não pode fazer nada, mas foi simplesmente agraciada. Ela é simplesmente recebedora. Como tal é condizente relembrá-la, mas sempre apenas como aquela que foi escolhida por Deus para dar à luz seu filho. A referência à virgindade de Maria, antes de ser a descrição de um fato biológico, é expressão da confissão de que aquele Jesus, tão humano, nascido de Maria, é o enviado de Deus, sim: é o próprio Deus”.

    O III Concílio Ecumênico realizado em Éfeso no ano de 431 afirma: Quem não confessa que Emanuel é verdadeiramente Deus e a Santa Virgem, por isso, Mãe de Deus (...) seja excomungado. É uma formulação cristológica, sem dúvida, muito forte. Ela é retomada, em 451, no IV Concílio Ecumênico, em Calcedônia. O título Theotokos, Mãe de Deus, praticamente não é contestado. As Igrejas que reconhecem os Concílios Ecumênicos, reconhecem com isso também o título Mãe de Deus e o respeitam. 

    A fé comum entre as Igrejas Cristãs até esse momento histórico parece ser bem clara e fácil de ser seguida, entretanto a questão da unidade tem como ponto problemático a veneração de Maria, e no contexto mais amplo a invocação dos santos. Assim começaram as divergências e as confusões em todas as vezes que se fala de Maria entre cristãos.

    Na piedade medieval era prática corrente depositar grande esperança no poder de intercessão dos santos. Havia os patronos da região, e os santos especialistas em livrar de perigos específicos. Entendia-se que estes santos, como intermediários, estariam bem mais próximos dos seres humanos. Pedia-se, por isso, a sua intervenção junto a Deus.

    Lutero esteva preocupado em deixar Deus ser Deus. Todo seu trabalho era, por assim dizer, uma interpretação do primeiro mandamento, ou seja, do Senhorio incondicional de Deus. No Catecismo Maior, Lutero volta-se contra a prática de buscar socorro junto aos santos. Via nisso uma usurpação do lugar que cabe exclusivamente a Deus. Diz ele: “a idolatria (...) não consiste unicamente em erigir uma figura qualquer e se prostrar diante dela, mas sim, antes de mais nada, consiste em distrair-se, olhando para o lado, ao invés de olhar para Deus”. Na confissão de Augsburgo (1530) encontra-se: “A Escritura, porém, não ensina que invoquemos os santos ou peçamos auxílio deles, porque nos propõe um só, Cristo, como mediador, propiciador, sumo sacerdote e intercessor. É a ele que se deve invocar e ele prometeu que haveria de ouvir as nossas preces. E esse culto aprova-o muitíssimo, a saber, que seja invocado em todas as aflições. (1Jo 2,1): 'Se alguém pecar, temos Advogado junto a Deus’ etc.”.

    Igualmente Calvino foi bastante explicito quanto ao assunto da invocação dos santos. Para ele importa, manter-se nos limites do que nos foi revelado. Volta-se contra todo tipo de especulação. Tudo isso fica bem explicito na Confissão Helvética, cap. V: “Ensinamos que somente o verdadeiro Deus deve ser adorado e cultuado. Esta honra não concedemos a nenhum outro, segundo o mandamento do Senhor: 'Ao Senhor teu Deus adorarás, e só a ele darás culto' (Mt 4,10). Somente Deus deve ser invocado e isso pela exclusiva mediação de Cristo. Em todas as crises e provações de nossa vida invocamos somente a ele e isso pela mediação de Jesus Cristo, nosso único mediador e intercessor. Eis o que nos é claramente ordenado: 'Invoca-me no dia da angústia: eu te livrarei, e tu me glorificarás' (Sl 50,15). Temos uma promessa generosíssima do Senhor, que disse: 'Se pedirdes alguma coisa ao Pai, Ele vo-la concederá em meu nome' (Jo 16,23), e: 'Vinde a mim todos os que estais cansados e sobrecarregados, e eu vos aliviarei' (Mt 11,28)”. E mais adiante se reafirma com todo vigor que os santos não devem ser adorados, cultuados ou invocados. Por essa razão não adoramos, nem cultuamos nem invocamos os santos dos céus, nem outros deuses, nem os reconhecemos como nossos intercessores ou mediadores perante o Pai que está no céu. Deus e Cristo, o Mediador, são-nos suficientes”.

    A posição luterana conforme o artigo 21 da Confissão de Ausburgo é de grande respeito aos santos: “Do culto aos santos ensinam que se pode lembrar a memória dos santos, a fim de lhes imitarmos a fé e as boas obras” - E ainda mais: o artigo que fala dos santos, encontra-se na primeira parte da Confissão de Ausburgo, entre os artigos principais da fé, e não na segunda parte que fala das divergências. E expressamente se diz: “Esta é, mais ou menos, a suma da doutrina entre nós. Pode-se ver que nela nada existe que divirja das Escrituras, ou da Igreja Romana, até onde nos é conhecida dos escritores”. São esses os pontos que são de treva e luz no caminho do diálogo ecumênico.

    Tendo presente essas realidades próprias, a proclamação de dois novos dogmas marianos: Imaculada Conceição e Assunção ao céu trouxe novidade aos problemas de compreensão acerca de Maria. O nascimento virginal já havia sido ampliado no sentido de Maria semper virgo. Um passo além foi o da afirmação da imaculata conceptio. Em 1854 o Papa Pio IX proclama: por singular privilégio da graça de Deus Todo-Poderoso, com vistas aos méritos de Jesus Cristo, salvador do gênero humano, desde o primeiro instante da sua conceição, foi preservada imune do pecado original: Maria é totalmente sem pecado. Ela está livre de qualquer mancha do pecado original. 

    Cem anos mais tarde, em 1950 o Papa Pio XII proclama a Assunção de Maria: no fim de sua vida terrena, a imaculada Mãe de Deus e sempre Virgem Maria foi levada com corpo e alma para a celeste glória. Para as Igrejas da Reforma essa doutrina é estranha ao Evangelho. Ela espelha uma indevida glorificação da natureza humana. Maria é destacada da comunhão dos santos, é elevada para a celeste glória e colocada junto ao Filho. Desta forma ela é co-redentora e mediadora de todas as graças. Na concepção evangélica Maria ilumina a existência cristã, mas não a fundamenta. Ela é ilustração, mas jamais norma da fé.

    A presença de Maria na espiritualidade das Igrejas da Reforma não possui unanimidade. A Igreja Luterana tem canções natalinas nas quais se destaca o nascimento virginal de Jesus, mas não tem hinos mariológicos. Maria não aparece no calendário litúrgico e no lecionário. Uma posição especial, ocupa a Igreja Anglicana. Luiz Caetano Grecco Teixeira, teólogo anglicano, escreveu um artigo com o título: A Bem-Aventurada Virgem Maria no Anglicanismo, o qual apresenta que: embora o calendário e o lecionário incluam festas marianas, não há culto mariano na Igreja Anglicana; o culto anglicano é exclusivamente cristocêntrico e dirigido a Santíssima Trindade. “Maria não ocupa nenhum lugar de destaque na liturgia anglicana, tampouco é invocada ou honrada nos altares. Maria é reverenciada e reconhecida como Mãe de Deus e, como os demais Santos do calendário, como testemunha do Cristo e referência para a vida dos cristãos. Os próprios para as festas marianas estão centrados no Cristo, único Senhor, único Mediador e único Intercessor diante do Pai. Não se dirigem orações nem louvores à Virgem, como não se dirigem orações aos demais Santos”. O Livro de Oração Comum da Igreja Episcopal Anglicana do Brasil, aprovado pelo Sínodo Geral em 1984, registra as seguintes festas marianas: Anunciação (25 de março); Visitação (31 de maio); Bem-Aventurada Virgem Maria, Mãe de nosso Senhor Jesus Cristo (15 de agosto) e Natividade da Bem-Aventurada Virgem Maria (8 de setembro). 

    Vale ressaltar que os dogmas marianos de 1854, Imaculada Conceição, e o de 1950, Assunção de Maria, não foram aceitos por nenhuma outra Igreja Cristã. As Igrejas Ortodoxas possuem diferença na compreensão da Imaculada Conceição, creem que Maria foi concebida com pecado original, como qualquer outro ser humano, e então purificada por Deus. E celebram há séculos a festa da “Dormição de Maria”, mas não professam que Maria já está glorificada junto de Deus. Mesmo tendo presente essa realidade concluo com as palavras do Papa João Paulo II, na Encíclica Redemptoris Mater, n. 31, exortando a unidade na virgem Maria: “Desejo realçar, por outro lado, quanto a Igreja católica, a Igreja ortodoxa e as antigas Igrejas orientais se sentem profundamente unidas no amor e louvor à Theotókos. Não só ‘os dogmas fundamentais da fé cristã acerca da Trindade e do Verbo de Deus, que assumiu a carne da Virgem Maria, foram definidos nos Concílios ecumênicos celebrados no Oriente’, mas também no seu culto litúrgico ‘os Orientais exaltam com hinos esplêndidos Maria sempre Virgem... e Santíssima Mãe de Deus’ (...). Os Padres gregos e a tradição bizantina, contemplando a Virgem Santíssima à luz do Verbo feito homem, procuraram penetrar na profundidade daquele vínculo que une Maria, enquanto Mãe de Deus, a Cristo e à Igreja: ela é uma presença permanente em toda a amplidão do mistério salvífico”. E assim todos nós, cristãos, podemos recorrer a sempre Virgem Maria pedindo a graça da unidade. 


    Para estudar mais:

    * Constituição Dogmática Lumen Gentium: sobre a Igreja, no capítulo VIII: A Bem-Aventurada Virgem Maria Mãe de Deus no mistério de Cristo e da Igreja.

    * Carta Encíclica Redemptoris Mater do Sumo Pontífice João Paulo II: sobre A Bem-Aventurada Virgem Maria na vida da Igreja que está a caminho.


    Acompanhe a série de artigos:
    Que todos sejam um: uma conversa sobre o Ecumenismo.
    Que todos sejam um: uma conversa sobre o Ecumenismo - HISTÓRIA.
    História: precedentes do Concílio Ecumênico Vaticano II.
    História: Decreto Unitatis Redintegratio do Concílio Ecumênico Vaticano II.
    História: período Pós-Conciliar: Carta Encíclica Ut Unum Sint.
    Que todos sejam um: uma conversa sobre o Ecumenismo – TEOLOGIA.
    Teologia: Ministério Ordenado.
    Teologia: Eucaristia.

    Referências bibliográficas
    ALTMAM, Walter. O segundo artigo. In: Proclamar Libertação (Catecismo). São Leopoldo, Sinodal, 1982, p. 99-106.
    JOÃO PAULO II, Papa. Carta Encíclica Redemptoris Mater: sobre a Bem-Aventurada Virgem Maria na vida da Igreja que está a caminho, 1987.
    SCHMIDT, Ervino. A Bem-Aventurada Virgem Maria e a Busca da Unidade.
    TEIXEIRA, Luiz Caetano Grecco. A Bem-Aventurada Virgem Maria no Anglicanismo,

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