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    História: precedentes do Concílio Ecumênico Vaticano II

    Série: Que todos sejam um: uma conversa sobre o Ecumenismo

    Artigos

    30.01.2024 18:04:56 | 12 minutos de leitura

    História: precedentes do Concílio Ecumênico Vaticano II

    Padre Rafael Pedro Susrina, PSDP


    A história da Igreja, na verdade, não registra apenas cismas, divisões, mas também esforços em cada um dos momentos para reencontrar a unidade da fé e a união dos corações. Entretanto, somente a partir do século XIX é que se pode falar de um verdadeiro movimento à unidade. O movimento ecumênico surgiu no Protestantismo com o intuito de reunir as Igrejas que tem a mesma origem e teologia, antes das que possuem doutrinas opostas.

    A porcentagem de católicos que se debruçavam sobre o problema da unidade cristã era pequena. Já que as preocupações do período eram os graves problemas sociais, as transformações políticas e a expansão do ateísmo. O bispo irlandês Mons. James Warren Doyle (1786-1834) abriu a era ecumênica moderna no Catolicismo, por meio de uma carta que buscava unir a Igreja Católica e a Anglicana, apresentando três pontos que na época não foram valorizados: a maior parte das oposições entre as Igrejas não são de fé; o diálogo é o remédio para curar esse mal; e é necessário enfrentar um problema espiritual – o orgulho (TAVARD, 1962, p. 70). E posteriormente Fernand Portal (1855-1926) foi responsável por possibilitar o encontro entre Católicos e Anglicanos através do conhecer o outro, antes de se reunir, pois conhecer é o primeiro passo. A prova de que o impulso levou na direção certa é que ele foi considerado o pai do Ecumenismo católico. 

    A Conferência Mundial das Missões, em Edimburgo no ano de 1910, inaugura o Ecumenismo no século XX; a primeira Conferência de nível “universal de fato e ecumênica de espírito, embora o seu universalismo não fosse ainda absoluto” (TAVARD, 1962, p. 113), pois a Igreja Católica não foi convidada, e as Ortodoxas estavam ausentes, além de que a representação protestante era desigual. De forma concreta, após Edimburgo nasceram dois movimentos especificamente ecumênicos: Vida e ação 1 (Cristianismo prático) e Fé e Constituição 2, a qual teve sua primeira Assembleia Geral3 em 1927, em Lausana. 

    O período desses dois movimentos trouxe muitas reflexões ao seio católico, principalmente sobre o Ecumenismo católico, que já tinha sido lançado no pontificado do Papa Leão XIII (1878-1903), “os nossos olhos podem não ver nunca a união das Igrejas pela qual trabalhamos, mas não sejamos tão temerários que olhemos para este esforço constante como para uma vã utopia: seria um sentimento indigno dum cristão” (TAVARD, 1962, p. 135). Nessa orientação se percebe a dificuldade da vivência ecumênica dentro da Igreja. 

    No fim do pontificado de Pio X (1903-1914) iniciou-se uma troca de correspondência com um dos organizadores da Fé e Constituição. O Papa Bento XV (1914-1922) compreendeu o problema da Fé e Constituição, e consagrou grande tempo a causa da unidade cristã. Entretanto, quando a Igreja Católica foi convidada a participar das assembleias de preparação precisou responder negativamente, fazendo-o outras vezes. Pois a participação de um membro da Igreja Católica nessas reuniões seria deslocada, pois a proposta destas eram procurar, com os protestantes, qual a unidade que Cristo desejou para a sua Igreja. E não seria possível a Igreja Católica mudar sua doutrina sobre a unidade, já que a própria mudança iria contra a verdade, e não pode haver reconciliação senão na verdade. 

    O Papa Pio XI (1922-1939) teve um apostolado pela união em duas frentes: uma em que se debruçou mais sobre o problema do Oriente ortodoxo do que o protestantismo; e a outra a nível intelectual. O Papa percebia também que os movimentos Cristianismo Prático e Fé e Constituição não conseguiam trabalhar em profundidade; um deixava a doutrina de lado e o outro comparava as doutrinas de forma superficial esquecendo-se de ir as fontes da teologia patrística. Ficando dessa forma evidente um abismo difícil de ser superado, já que o processo não era eficiente Pio XI foi levado a escrever a Carta Encíclica Mortalium Animos, sobre a promoção da verdadeira unidade de religião, criticando o movimento ecumênico da forma que estava concebido; e censurando os “pancristãos” que incentivam o louvável conselho da caridade, mas em detrimento da fé (cf. PIO XI, 1928, n. 13). O Papa conclui: “Não sabemos, pois, como por essa grande divergência de opiniões seja defendida o caminho para a realização da unidade da Igreja: ela não pode resultar senão de um só magistério, de uma só lei de crer, de uma só fé entre os cristãos” (PIO XI, 1928, n. 15). Forma-se assim um caminho seguro para buscar o ecumenismo e não o percorrendo de qualquer forma, indica-se o estudo da doutrina e o seu desenvolvimento no centro de tudo, e lembrava muitas vezes que o caminho da unidade passa primeiro pelo conhecimento e pelo amor. Ocorreram nesses períodos históricos encontros para conversações entre Anglicanos e Católicos, e Luteranos e Católicos.

    Desde 1937, o Movimento Ecumênico que estava dividido em dois grupos Vida e Ação e Fé e Constituição, que pretendiam a unidade por caminhos diferentes, o da ação e o da doutrina, uniram-se em um só movimento, conservando as tradições de suas origens. Possibilitando, assim, a criação e a realização da primeira Assembleia do Conselho Ecumênico das Igrejas de 22 de agosto a 4 de setembro de 1948, em Amsterdã. O pensamento do Conselho Ecumênico das Igrejas encarnou concretamente a unidade na diversidade: “A Igreja, como Deus a vê em Jesus Cristo, é perfeitamente una; as Igrejas, porém, na sua existência histórica, estão divididas. O fim e toda a razão de ser do Conselho Ecumênico é ajudar a Igreja, se possível, a penetrar nas Igrejas e a uni-las” (TAVARD, 1962, p. 210). A unidade procurada, nesse momento, é o ato pelo qual Deus se comunica a sua Igreja através do seu Cristo; não é administrativa, embora possa existir; nem doutrinal mesmo que seja eventualmente exigida. Todos aqueles que creem em Nosso Senhor Jesus Cristo podem pertencer ao Conselho. 

    O pontificado de Pio XII (1939-1958) foi devotado a todos os grandes problemas do mundo moderno, inclusive o Ecumenismo. O Papa Pio XII (1943, n. 100), na Carta Encíclica Mystici Corporis, sobre o corpo místico de Jesus Cristo e nossa união nele com Cristo, fez um apelo aos cristãos para encontrarem a unidade cristã na comunhão católica:

    Convidando a todos e cada um com todo o amor da nossa alma, a que espontaneamente e de boa vontade cedam às íntimas inspirações da graça divina e procurem sair de um estado em que não podem estar seguros de sua eterna salvação, pois, embora por desejo e voto inconsciente, estejam ordenados ao corpo místico do Redentor, carecem de tantas e tão grandes graças e auxílios que só na Igreja católica podem encontrar. Entrem, pois, na unidade católica e unidos conosco no corpo de Jesus Cristo, conosco venham a fazer parte, sob uma só cabeça, da sociedade da gloriosíssima caridade. Nós, jamais cessaremos as nossas súplicas ao Espírito de amor e verdade, e esperamo-los de braços abertos não como a estranhos, mas como a filhos que vêm para a sua casa paterna.

    A perspectiva ecumênica da Igreja nesse momento está voltada em pedir o retorno das demais igrejas cristãs ao seio Católico; e há outros Documentos Pontifícios4 que evidenciam essa orientação. Uma segunda atitude de Pio XII em matéria de união, se deu através das várias mensagens de interesse de todos os cristãos, na defesa do patrimônio espiritual da humanidade. Os convites tinham em vista as obras de justiça social e paz internacional. Valorizando a tolerância mútua e o pluralismo dentro de um Estado. Favorecendo a convivência prática das comunidades católicas com as não católicas. Em 1952, constitui-se a Conferência católica para questões ecumênicas. 

    O Papa João XXIII (1958-1963) antes mesmo de ter convocado o Concílio Ecumênico Vaticano II, demonstrou através de sua vida e mensagens a busca pela unidade da Igreja. No dia 5 de junho de 1960 cria o Secretariado Romano para a Unidade dos Cristãos5 como organismo de preparação para o Concílio. 

    Na sua primeira Carta Encíclica Ad Petri cathedram, sobre o conhecimento da verdade, restauração da unidade e da paz na caridade, descreve que a unidade da Igreja Católica é de fé, governo, prática litúrgica e sacramental. E fala da existência do movimento ecumênico: “Sabemos, além disso, que a maior parte dos cristãos, ainda que separados de nós e entre si, têm realizado congressos e organizado conselhos para se unirem: tudo isto mostra o veemente desejo que os impele a chegarem ao menos a certa unidade” (1959, n. 34). Exorta também em todos os seus pronunciamentos sobre o Concílio Ecumênico, de que a Igreja é una, apostólica e universal; não há divisões, nem subdivisões; e convidando para retornar ao redil universal. 

    O Concílio Ecumênico Vaticano II trouxe verdadeiramente um aggiornamento à Igreja. O Papa João XXIII (1962, n. 8) no discurso de abertura evidenciou o desejo de promover a unidade: 

    A Igreja Católica julga, portanto, dever seu empenhar-se ativamente para que se realize o grande mistério daquela unidade, que Jesus Cristo pediu com oração ardente ao Pai celeste, pouco antes do seu sacrifício. Ela goza de paz suave, bem convicta de estar intimamente unida com aquela oração; e muito se alegra depois, quando vê que essa invocação estende a sua eficácia, com frutos salutares, mesmo àqueles que estão fora do seu seio. Mais ainda, se consideramos bem esta mesma unidade, impetrada por Cristo para a sua Igreja, parece brilhar com tríplice raio de luz sobrenatural e benéfica: a unidade dos católicos entre si, que se deve manter exemplarmente firmíssima; a unidade de orações e desejos ardentes, com os quais os cristãos separados desta Sé Apostólica ambicionam unir-se conosco; por fim, a unidade na estima e no respeito para com a Igreja Católica, por parte daqueles que seguem ainda religiões não-cristãs.

    O Espírito Santo conduziu os Padres conciliares, segundo sua santa vontade, produzindo muitos frutos, os quais foram reunidos em documentos classificados como Constituições, Declarações e Decretos. E dentre todas reflexões e propostas de atualização para a Igreja um dos Decretos produzidos pelo Concílio e assinado pelo Papa Paulo VI refere-se ao Ecumenismo: Decreto Unitatis Redintegratio, que se torna um marco temporal na vida do cristão que deseja a unidade. O significado ecumênico do Decreto conciliar deve ser visto no âmbito de um amplo horizonte. O Vaticano II é ecumênico não apenas porque assim é descrito pelo Código de Direito Canônico (1994, cân. 337-338), mas também porque abre a Igreja Católica ao movimento ecumênico. E não se está referindo a um Ecumenismo católico em contraposição a um Ecumenismo protestante e ortodoxo, mas um único movimento ecumênico, a qual vão aderindo segundo a índole e doutrina de cada Igreja. 


    Referências bibliográficas
    JOÃO XXIII (Papa). Carta encíclica “AD PETRI CATHEDRAM”: sobre o conhecimento da verdade, restauração da unidade e da paz na caridade. Roma: Libreria Editrice Vaticana, 1959. 
    JOÃO XXIII (Papa). Discurso na abertura solene do Ss. Concílio. Roma: Libreria Editrice Vaticana, 1962. 
    NAVARRO, Juan Bosh. Para compreender o ecumenismo. São Paulo: Edições Loyola, 1995. 239 p.
    PIO XI (Papa). Carta encíclica “MORTALIUM ANIMOS”: sobre a promoção da verdadeira unidade de religião. Roma: Libreria Editrice Vaticana, 1928.
    PIO XII (Papa). Carta encíclica “MYSTICI CORPORIS”: o corpo místico de Jesus Cristo e nossa união nele com Cristo. Roma: Libreria Editrice Vaticana, 1943. 
    TAVARD, Georges. Ecumenismo: história e perspectivas atuais. Cucujães: Editorial Missões, 1962. 283 p.


    Acompanhe a série de artigos:
    1 - Que todos sejam um: uma conversa sobre o Ecumenismo
    2 - Que todos sejam um: uma conversa sobre o Ecumenismo - HISTÓRIA 

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    NOTAS

    1 “Nas palavras do Padre Le Guillou, ‘traduz a vontade de unir os cristãos numa ação comum em todos os domínios da vida humana com a finalidade de estabelecer nela o reino de Deus’” (NAVARRO, 1995, p. 130).
     2 “Organismo que prepara estudos doutrinais comparativos. Trata-se ‘de estudar as coisas em que diferimos, na esperança de que uma melhor compreensão de pontos de vista diversos relativamente a fé e a constituição da Igreja provocará um desejo profundo de unidade’” (TAVARD, 1962, p. 117). 
     3 Temas tratados na primeira Assembleia Geral: o apelo a unidade; a mensagem da Igreja ao mundo: o Evangelho; a natureza da Igreja; a confissão de fé da Igreja; o ministério da Igreja; os sacramentos; e a unidade da cristandade e o lugar das diversas Igrejas.
     4 Orientalis Ecclesiae decus – 9 de abril de 1944, ocasião do 15º centenário da morte de São Cirilo de Alexandria; Orientales omnes – 23 de dezembro de 1945, 350º aniversário da união de Roma a Igreja Rutena; Carta Encíclica Sempiternus Rex – 8 de setembro de 1951, 15º centenário do concílio de Calcedónia; Carta Encíclica Sacro vergente anno aos povos da Russia – 7 de julho de 1952; Orientales Ecclesiaes – 15 de dezembro de 1952, sobre a perseguição religiosa na Europa oriental.
     5 “Segundo o citado documento, são várias as atribuições do Secretariado: manter o papa informado dos assuntos de sua competência; promover a relação com os irmãos de outras comunidades; oferecer uma exata interpretação e aplicação dos princípios católicos do ecumenismo; fomentar e coordenar grupos de teólogos católicos, nacionais e internacionais, que promovam a partir de sua área a unidade cristã; estabelecer conversações sobre os problemas e atividades ecumênicas com outras Igrejas; designar observadores católicos para as reuniões dessas Igrejas e convidar seus observadores para as reuniões católicas; pôr em prática os textos conciliares referentes ao ecumenismo” (NAVARRO, 1995, p. 147). Percebe-se a importância desse novo Secretariado dentro do pontificado de João XXIII e o desejo sincero de avançar na unidade das Igrejas cristãs.

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