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    História: período Pós-Conciliar: Carta Encíclica Ut Unum Sint

    Série: Que todos sejam um: uma conversa sobre o Ecumenismo – História parte 3

    Artigos

    26.02.2024 16:46:54 | 10 minutos de leitura

    História: período Pós-Conciliar: Carta Encíclica Ut Unum Sint

    Desde o Decreto Unitatis Redintegratio promulgado pelo Papa Paulo VI passaram-se 31 anos até a Carta Encíclica Ut Unum Sint escrita pelo Papa João Paulo II sobre o empenho Ecumênico. Nesse meio tempo o Secretariado Romano para a Unidade dos Cristãos mudou de nome para Conselho Pontifício para a Promoção da Unidade1. O qual foi responsável, após o Concílio, de promover encontros oficiais com outras Igrejas e famílias de Igrejas a fim de constituir comissões mistas de diálogo; de juntamente com o Conselho Mundial de Igrejas criar uma comissão mista de trabalho que prepara juntos o material para a celebração da Semana de Oração pela Unidade; e de junto com a Aliança Bíblica Mundial, oferecer normas para a tradução ecumênica dos textos bíblicos (NAVARRO, 1995, p. 147). 

    Nesse período também se publicou o Diretório Ecumênico2, com o intuito de levar o espírito ecumênico a todo o Povo de Deus. O caráter do Documento é eminentemente pastoral, no qual o Papa Paulo VI3 advertiu que “O diretório ecumênico não é simplesmente uma coleção de documentos que seria lícito acolher ou ignorar. É uma verdadeira instrução, uma exposição da disciplina a que devem submeter-se aqueles que servem de fato ao ecumenismo” (1968 citado por NAVARRO, 1995, p. 152). Por meio do Diretório se comprova a dificuldade e a lentidão em ‘receber’ os documentos conciliares, mesmo tendo passado muitos anos ainda havia dioceses que não tinham criado delegações ecumênicas; e que não tinha colocado na formação dos seminários e faculdades a disciplina de Ecumenismo. Mesmo tendo esses pontos negativos, percebeu-se a validade e a eficácia do Documento, pois tornou possível a criação de linhas institucionais de cooperação com irmãos de outras Igrejas. Além da proposta de ter um Ecumenismo na base por meio de Comissão ou Delegação Diocesana de Ecumenismo4  e até de Centros Ecumênicos5  trouxeram inúmeros frutos nesse caminhar na busca pela unidade. 

    A Carta Encíclica Ut Unum Sint trouxe mais uma vez ao seio da Igreja um impulso pela unidade dos cristãos. E mais do que simplesmente relembrar, veio afirmar que “todo o elemento de divisão pode ser vencido e superado com o dom total de si próprio a causa do Evangelho” (JOÃO PAULO II, 1995, n. 1), pois Cristo chama todos os seus discípulos à unidade. Não é um mero Documento, mas um revigorar da necessidade da unidade entre todos os cristãos para que seja possível chegar a plena comunhão. E que todos os fiéis da Igreja Católica e todos os cristãos rezem por esta conversão.

    O empenho ecumênico da Igreja Católica é de reunir todos os discípulos de Cristo na plena unidade. Só que esse desejo já está em déficit, pois a vontade de Deus é a unidade de toda a humanidade dispersa. Percebe-se assim um panorama em negativo diante da proposta de Deus, mas que no século passado começou a ser revigorado e cada vez mais é convidado a ser realçado, claro que não de qualquer jeito ou confusão, mas dentro de um caminho ecumênico, do caminho da Igreja. 

    O próprio Jesus, na hora da sua Paixão, pediu ‘que todos sejam um’ (Jo 17,21). Esta unidade, que o Senhor deu à sua Igreja e na qual Ele quer abraçar a todos, não é um elemento acessório, mas situa-se no centro mesmo da sua obra. Nem se reduz a um atributo secundário da Comunidade dos seus discípulos. Pelo contrário, pertence à própria essência desta Comunidade. Deus quer a Igreja, porque Ele quer a unidade, e na unidade exprime-se toda a profundidade da sua ágape (JOÃO PAULO II, 1995, n. 9).

    A unidade não é a soma de pessoas, mas constituição de vínculos: pela profissão de fé, dos sacramentos e comunhão hierárquica. 

    Os fiéis são um, porque, no Espírito, eles estão em comunhão com o Filho, e, n'Ele, em comunhão com o Pai: ‘A nossa comunhão é com o Pai e com o seu Filho Jesus Cristo’ (1Jo 1,3). Para a Igreja Católica, portanto, a comunhão dos cristãos não é senão a manifestação neles daquela graça, pela qual Deus os torna participantes da sua própria comunhão, que é a vida eterna (JOÃO PAULO II, 1995, n. 9).

    A expressão de Cristo “que todos sejam um” (Jo 17,21), é mais do que palavras: 

    são a oração dirigida ao Pai para que se cumpra plenamente o seu desígnio, de tal modo que a todos fique claro ‘qual seja a economia do mistério escondido desde tempos antigos em Deus, que tudo criou’ (Ef 3,9). Acreditar em Cristo significa querer a unidade; querer a unidade significa querer a Igreja; querer a Igreja significa querer a comunhão de graça que corresponde ao desígnio do Pai desde toda a eternidade. Este é o significado da oração de Cristo: ‘Ut unum sint’ (JOÃO PAULO II, 1995, n. 9).

    A base da comunhão são os elementos de santificação e de verdade presentes nas outras comunidades cristãs, de forma imperfeita, que existe entre elas e a Igreja Católica. Entretanto, o apelo a unidade não busca somar as riquezas dispersas, pois Deus já manifestou a Igreja Católica sua realidade escatológica, nela está incorporada em plenitude, nas outras comunidades sem tal plenitude. Por isso, “O ecumenismo busca precisamente fazer crescer a comunhão parcial existente entre os cristãos até a plena comunhão na verdade e na caridade” (JOÃO PAULO II, 1995, n. 14). Para que seja possível essa comunhão é necessária a conversão interior e renovação da mente, partindo da vontade de se converter radicalmente ao Evangelho. O Evangelho como um claro elemento para a unidade e, também, ponto de partida para a conversão, pois Deus fala com seu povo. Mas antes mesmo da conversão, a primeira ação nesse impulso é a oração.

    A oração é a alma do movimento ecumênico. O Ecumenismo espiritual é reflexo do amor presente no cristão. O desejo de unidade nasce do amor. “O amor é a corrente mais profunda que dá vida e infunde vigor ao processo que leva a unidade” (JOÃO PAULO II, 1995, n. 21). O amor encontra sua expressão na oração em comum, essa é uma primazia:

    No caminho ecumênico para a unidade, a primazia pertence, sem dúvida, à oração comum, à união orante daqueles que se congregam à volta do próprio Cristo. Se os cristãos, apesar das suas divisões, souberem unir-se cada vez mais em oração comum ao redor de Cristo, crescerá a sua consciência de como é reduzido o que os divide em comparação com aquilo que os une. Se se encontrarem sempre mais assiduamente diante de Cristo na oração, os cristãos poderão ganhar coragem para enfrentar toda a dolorosa realidade humana das divisões, e reencontrar-se-ão juntos naquela comunidade da Igreja, que Cristo forma incessantemente no Espírito Santo, apesar de todas as debilidades e limitações humanas (JOÃO PAULO II, 1995, n. 22).

    A comunhão na oração leva a ver com novos olhos a Igreja e o Cristianismo, deixando as provocações e interessando-se pelo irmão. A oração está a serviço da missão cristã e da sua credibilidade. Participar e propor momentos de oração ecumênica também são ações concretas, assim como a Semana de Oração pela unidade dos cristãos, e o diálogo ecumênico tem papel nesse processo, e de grande relevância, que serão aprofundados posteriormente. Por fim, dentro do empenho ecumênico, a colaboração prática entre as Igrejas cristãs, na forma de unidade de ação, conduz a unidade de fé. Sendo um belo testemunho cristão, tornando-se instrumento de evangelização a proveito de todos. 

    A Encíclica, na segunda parte, apresenta os frutos do diálogo alcançado desde o início do movimento ecumênico, na verdade, posteriormente ao Concílio, pois mesmo já havendo antes era limitado e pontual: o reencontro da fraternidade; a solidariedade no serviço a humanidade; as aproximações na compreensão da Palavra de Deus e vivência do culto divino; a possibilidade de apreciar os bens presentes nos outros cristãos; o crescimento da comunhão; o diálogo concreto com as Igrejas do Oriente e as Igrejas e Comunidades do Ocidente, restabelecendo contatos e relações eclesiais, até mesmo colaborações socias na defesa de valores e busca da paz (cf. JOÃO PAULO II, 1995, n. 41-76).

    Prosseguir cada dia, para alcançar a meta da unidade: continuando e intensificando o diálogo; conhecendo e recebendo os avanços conseguidos, fazendo-os tornar realidade concreta; continuando o Ecumenismo espiritual e testemunhando a santidade; favorecendo o conhecimento da Igreja Católica, dogmas, ministérios, unidade com o Bispo de Roma; e, também, a plena unidade da evangelização (cf. JOÃO PAULO II, 1995, n. 77-99). Por fim, o Papa exorta aos bispos e todos os fiéis cristãos a darem toda a atenção ao empenho ecumênico e a buscarem a unidade entre todos, através da oração, da ação de graças e da esperança (JOÃO PAULO II, 1995, n. 101-102).

    Posteriormente a Carta Encíclica Ut unum sint o empenho ecumênico recebeu um novo vigor. Nos Pontificados de Bento XVI e Francisco aconteceram diversos encontros e orações ecumênicas com os irmãos Ortodoxos, Luteranos e Anglicanos; além de declarações conjuntas sobre temas dogmáticos e pastorais; e proximidade com todos os irmãos separados, por meio de entrevistas, discursos, prefácios de livros e homilias. O Ecumenismo torna-se vivência diária dos Papas.
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    NOTAS

    1 A mudança de nome se deu na Constituição Apostólica Pastor Bonus do Papa João Paulo II, que reformou a Cúria Romana em 1º de março de 1989.
    2 O Diretório Ecumênico, solicitado durante o Concilio e publicado em duas partes, uma em 1967 e outra em 1970, prestou valiosos serviços para orientar, coordenar e desenvolver o esforço ecumênico. O Papa João Paulo II aprovou o novo Diretório revisado em 25 de março de 1993.
    3 In L’Osservatore Romano, 14 de novembro de 1968.
    4 A Comissão ou Delegação Diocesana possui membros escolhidos a partir das diversas categorias da vida da Igreja: clero diocesano, congregações religiosas, mundo dos seculares. Suas funções consistem em fomentar o ecumenismo espiritual e as relações de amizade mútua, estabelecer algum tipo de diálogo em que isso seja possível, promover um testemunho comum e manter contato com o secretariado (NAVARRO, 1995, p. 156).
    5 O Centro Ecumênico é o lugar em que os cristãos eclesialmente divididos alimentam a nostalgia da irmandade, comprometem-se a manifestar a unidade que tem em Cristo e decidem buscar a plenitude que os tornará testemunhas fidedignas da fé cristã. Os Centros Ecumênicos distinguem-se entre si por seu caráter doutrinal, pela ênfase na prece unionista ou pertença a pastoral ecumênica; podendo ser confessionais ou interconfessionais (NAVARRO, 1995, p. 156).


    Acompanhe a série de artigos:
    Que todos sejam um: uma conversa sobre o Ecumenismo 
    Que todos sejam um: uma conversa sobre o Ecumenismo - HISTÓRIA 
    História: precedentes do Concílio Ecumênico Vaticano II 
    História: Decreto Unitatis Redintegratio do Concílio Ecumênico Vaticano II 


    No próximo artigo iniciaremos a parte Teológica do Ecumenismo:
    1. Teologia
    2. Ministério Ordenado
    3. Eucaristia

    Referências bibliográficas
    JOÃO PAULO II (Papa). Carta encíclica “UT UNUM SINT”: sobre o empenho ecuménico. Roma: Libreria Editrice Vaticana, 1995. 
    NAVARRO, Juan Bosh. Para compreender o ecumenismo. São Paulo: Edições Loyola, 1995. 239 p.

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