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    História: Decreto Unitatis Redintegratio do Concílio Ecumênico Vaticano II

    Série: Que todos sejam um: uma conversa sobre o Ecumenismo – História parte 2

    Artigos

    12.02.2024 08:00:00 | 10 minutos de leitura

    História: Decreto Unitatis Redintegratio do Concílio Ecumênico Vaticano II

    Padre Rafael Pedro Susrina, psdp

    O Decreto Unitatis Redintegratio exalta uma das realidades que necessitava de um verdadeiro impulso no seio da Igreja: o Ecumenismo. A própria natureza do movimento ecumênico, como se viu, era um assunto complexo e ainda pouco universal em intenção e ação concreta (na verdade, essa questão, acontece de novo atualmente quando se fala ao mesmo tempo de Ecumenismo e Diálogo Interreligioso). Por isso, o primeiro número do Decreto o coloca não como um assunto isolado do restante dos Documentos Conciliares, mas pelo contrário, enfatiza-o e chega a dar uma primazia: “Promover a restauração da unidade entre todos os cristãos é um dos principais propósitos do sagrado Concílio Ecumênico Vaticano II. Pois Cristo Senhor fundou uma só e única Igreja” (DECRETO..., 1964, n. 1). Todos os trabalhos do Concílio e seus documentos são plenificados em conformidade com o desejo de Cristo: “Ut unum sint” (Jo 17,21), mas não havendo a verdadeira unidade ficamos em negativo.

    Há também o reconhecimento do impulso dos irmãos separados “em ordem a restauração da unidade de todos os cristãos. Este movimento de unidade é chamado ecumênico. Participam dele os que invocam a Deus Trino e confessam a Cristo como Senhor e Salvador” (DECRETO..., 1964, n. 1). Torna-se necessário frisar que o Decreto é dirigido aos católicos, ou seja, a proposta é de um trabalho interno, a qual serão apresentados meios, caminhos e formas para corresponder a essa vocação e graça: a unidade. 

    Os princípios católicos do Ecumenismo partem da unidade da Igreja, e é no sacramento da Eucaristia que ela é significada e realizada, por ser o ápice da vida de todo cristão. Jesus é a centralidade da unidade e Ele mesmo a possibilita por meio do Seu corpo e sangue. Toda vez que se recebe Jesus, o Cristo, o princípio da unidade da Igreja, vive-se a plenitude. O Espírito Santo que habita no cristão opera a maravilhosa comunhão dos fiéis e os une a Cristo. Já a pessoa de Pedro, escolhido entre os doze no ofício de ensinar, governar e santificar, foi confiada a chave do Reino dos céus e a tarefa de confirmar todas as ovelhas, apascentando-as em perfeita unidade: na confissão de uma só fé; na comum celebração do culto divino; e na fraterna concórdia da família de Deus (DECRETO..., 1964, n. 2).

    Aqueles que receberam o Batismo, de forma válida, estão em certa comunhão, embora não perfeita, com a Igreja Católica e são considerados como irmãos no Senhor. As discrepâncias envolvendo questões disciplinais e doutrinais visam ser superadas pelo movimento ecumênico. Quem nasce em outra Igreja cristã não pode ser acusado do pecado da separação. Há também outros elementos de unidade dos cristãos além do Batismo, a Palavra de Deus escrita, a vida da graça, a fé, a esperança e a caridade. O próprio mistério da salvação não está ausente nas comunidades separadas, se crê que há defeitos, mas não exclui da graça de Deus. Todavia os irmãos separados não desfrutam da unidade que Jesus concedeu a todos, pois só pela Igreja Católica pode-se atingir a plenitude dos meios salutares. Além de que Jesus confiou todos os bens da Nova Aliança ao único Colégio apostólico, cuja cabeça é Pedro, com o objetivo de estabelecer na terra um só corpo de Cristo (DECRETO, 1964, n. 3). Tendo presente a base, o ponto de partida da fé cristã, torna-se possível iniciar um autêntico movimento ecumênico, sem correr o risco de perder-se no caminho diante da diversidade e do relativismo.

    Os fies cristãos são exortados a participarem do movimento ecumênico por meio da oração, da palavra e da ação, visando a plenitude de unidade que Jesus Cristo quis. Por isso, o Decreto (1964, n. 4) explica o que se deve entender por movimento ecumênico:

    Por ‘movimento ecuménico’ entendem-se as atividades e iniciativas, que são suscitadas e ordenadas, segundo as várias necessidades da Igreja e oportunidades dos tempos, no sentido de favorecer a unidade dos cristãos. Tais são: primeiro, todos os esforços para eliminar palavras, juízos e ações que, segundo a equidade e a verdade, não correspondem à condição dos irmãos separados e, por isso, tornam mais difíceis as relações com eles; depois, o ‘diálogo’ estabelecido entre peritos competentes, em reuniões de cristãos das diversas Igrejas em Comunidades, organizadas em espírito religioso, em que cada qual explica mais profundamente a doutrina da sua Comunhão e apresenta com clareza as suas características. Com este diálogo, todos adquirem um conhecimento mais verdadeiro e um apreço mais justo da doutrina e da vida de cada Comunhão. Então estas Comunhões conseguem também uma mais ampla colaboração em certas obrigações que a consciência cristã exige em vista do bem comum. E onde for possível, reúnem-se em oração unânime. Enfim, todos examinam a sua fidelidade à vontade de Cristo acerca da Igreja e, na medida da necessidade, levam vigorosamente por diante o trabalho de renovação e de reforma.

    As iniciativas que visam eliminar dúvidas e juízos negativos com os irmãos no Senhor; o diálogo que fortalece o conhecimento e possibilita a fraternidade (comunhão); e a oração que invoca a graça de Deus nessa intenção salutar refletem o caminhar do movimento ecumênico. Nenhuma dessas orientações conduz a vivência relativa do ser cristão católico, nem convida a perder a identidade e muito menos agir de qualquer forma imaginando estar contribuindo com o Ecumenismo. Superar os obstáculos da unidade a nível de disciplina e doutrina são graça de Deus, e por isso não podem ser negligenciados por um falso Ecumenismo. A própria participação nas celebrações e cultos das igrejas separadas como algo inclusivo não favorece o Ecumenismo, pelo contrário, confunde a fé.

    Um outro ponto a ser evidenciado se refere ao patrimônio comum que se encontram nos irmãos separados. Reconhecer a graça de Cristo e Sua ação naqueles que dão testemunho de fé é uma mudança de mentalidade na prática ecumênica. É significativo e profundo saber que “Tudo o que é verdadeiramente cristão jamais se opõe aos bens genuínos da fé, antes sempre pode fazer com que mais perfeitamente se compreenda o próprio mistério de Cristo e da Igreja” (DECRETO..., 1964, n. 4). Isso não significa perder a nossa clareza de fé e princípio de vida, mas compreender que a ação de Deus não é propriedade de nenhum cristão católico. 

    A prática do Ecumenismo é um trabalho de toda Igreja, dos fiéis e pastores. A razão do movimento para a unidade está no objetivo de corresponder da melhor forma a própria vocação (DECRETO..., 1964, n. 5-6). E para chegar à unidade perfeita é necessária uma verdadeira conversão interior, já que as palavras e os gestos exaltam o que está no coração, e é no nível profundo que se deseja a conversão; nesse espaço “os anseios de unidade nascem e amadurecem a partir da renovação da mente, da abnegação de si mesmo e da libérrima efusão da caridade” (DECRETO..., 1964, n. 7). O esvaziamento de si, o aniquilamento do orgulho e o desabrochar da humildade permitem o verdadeiro nascimento da unidade – caridade. E a vivência da busca pela unidade causou desentendimentos e culpas, por isso pede-se perdão a Deus e aos irmãos separados, assim como perdoamos os que nos ofenderam.

    A oração pela unidade transforma-se na “alma de todo movimento ecumênico” (DECRETO..., 1964, n. 8). Momentos de oração entre os católicos e os irmãos separados são práticas eficazes e louváveis na busca da unidade. “Pois onde dois ou três estiverem reunidos em meu nome, ali estou eu no meio deles” (Mt 18,20). Entretanto, a vivência sacramental do católico não deve ser tolhida diante de uma má interpretação do senso ‘oração comum’, celebração comum, evidenciando dessa forma uma deturpação da Verdade, e em busca do aparente, da exterioridade, coloca-se a própria fé de lado.

    A busca pelo conhecimento e aprofundamento da mente dos irmãos separados só há de favorecer o diálogo e abertura recíproca. Conhecendo a doutrina e a história, a vida espiritual e litúrgica, a psicologia religiosa e a cultura dos irmãos evidenciam um verdadeiro interesse pela unidade e não uma preocupação de juízo no trato ecumênico (DECRETO..., 1964, n. 9-10). Por isso a exposição clara e fiel da fé exige um modo e um método de formular a doutrina que não a transforme em obstáculo ao diálogo, mas que a deixe presente e não a coloque de lado, em detrimento, obscurecendo o seu sentido genuíno e certo. “Ao mesmo tempo, a fé católica deve ser explicada mais profunda e corretamente, de tal modo e com tais termos que possa ser de fato compreendida também pelos irmãos separados” (DECRETO..., 1964, n. 11). Na doutrina católica há uma ordem (hierarquia) das verdades e esta precisa ser observada no diálogo. A colaboração com os irmãos separados no campo social é também uma expressão concreta da unidade, dessa forma abre-se um caminho que leva a unidade dos cristãos e ajuda a entender-se e estimar-se cada vez mais uns aos outros.

    A Igreja Católica herdou muitos elementos em liturgia, tradição espiritual e ordenação jurídica das Igrejas do Oriente, deve-se levar em conta esses pontos convergentes e ter presente que os dogmas fundamentais foram definidos em Concílios Ecumênicos celebrados no Oriente; além de algumas heranças deixadas pelos apóstolos serem explicadas diferentes em cada parte. Com as Igreja Orientais, embora separadas, há verdadeiros sacramentos, e por graça da sucessão apostólica, o Sacerdócio e a Eucaristia, se unem conosco. A nível de tradição espiritual, evidencia-se o monaquismo que também se torna um meio para a reconciliação dos cristãos orientais e ocidentais. O próprio patrimônio espiritual e litúrgico, disciplinar e teológico com focos diferentes se complementam; e a própria disciplina não é motivo de desunião. Por fim, determina-se que “para restaurar ou conservar a comunhão e a unidade, é preciso ‘não impor nenhum outro encargo além do necessário’ (Act. 15,28). [...] se envidem todos os esforços para uma gradual concretização desta unidade, principalmente pela oração e pelo diálogo fraterno” (DECRETO..., 1964, n. 18). Tendo a esperança de demolir o murro que separa a Igreja Ocidental da Oriental, havendo uma única morada, firmada em Jesus Cristo.

    Na relação das Igrejas e comunidades eclesiais separadas no Ocidente o Decreto ressalta que são muitas as discrepâncias, principalmente de interpretação da verdade revelada, mas também de índole histórica, psicológica, sociológica e cultural (1964, n. 19). Para estabelecer o diálogo ecumênico com essas Igrejas torna-se necessário primeiramente confessar Jesus Cristo; estudar a Sagrada Escritura; ter vida sacramental, Batismo e Ceia do Senhor; e pôr fim a vida centrada em Cristo de forma litúrgica e moral (DECRETO..., 1964, n. 20-23). 

    O Decreto conclui exortando a viver o Ecumenismo de forma prudente e católica, sem perder a Verdade e a fé, renunciando aos princípios católicos em busca de uma falsa unidade/comunhão. Mantendo fidelidade na verdade recebida dos Apóstolos e Padres, conforme a fé sempre professada pela Igreja Católica. Que as iniciativas ecumênicas não “ponham obstáculos aos caminhos da Providência; e que não se prejudiquem os futuros impulsos do Espírito Santo” (DECRETO..., 1964, n. 24). Declarando “estar consciente de que o santo propósito de reconciliar todos os cristãos na unidade de uma só e única Igreja de Cristo excede as forças e a capacidade humana” (DECRETO..., 1964, n. 24). Confia-se abundantemente em Deus para esse fim.

    Referência bibliográfica
    DECRETO: Unitatis Redintegratio: sobre o ecumenismo. Roma: [A Santa Sé], 1964.

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    Acompanhe a série de artigos:
    1- Que todos sejam um: uma conversa sobre o Ecumenismo
    2- Que todos sejam um: uma conversa sobre o Ecumenismo - HISTÓRIA
    3 - História: precedentes Do Concílio Ecumênico Vaticano II

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