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Capítulo III — Fundador e Servo: a grande entrega de Calábria (1930–1954)

O tempo da colheita. O tempo da cruz. O tempo em que a fé madura floresce na sombra da Providência.

Storytelling Vocacional

23.07.2025 08:40:43 | 6 minutos de leitura

Capítulo III — Fundador e Servo: a grande entrega de Calábria (1930–1954)

Enquanto a Itália atravessava décadas de instabilidade e o mundo se aproximava do abismo de uma nova guerra, em Verona, um homem de batina surrada e olhar sereno ensinava, com a própria vida, que a esperança é sempre possível quando se crê no amor de Deus Pai Providente.

Na década de 1930, o Pe. João Calábria já era, para muitos, uma referência espiritual. Sua pequena obra, nascida entre os pobres, ganhava reconhecimento, e ao mesmo tempo exigia estrutura, organização, coragem para novos voos. Não era mais apenas uma casa com meninos resgatados da rua — era uma família espiritual, uma rede de caridade viva, um sopro do Espírito Santo que, como o vento, ninguém podia conter.

E João, o fundador, crescia também por dentro. Seu carisma amadurecia. Ele, que começara apenas com fé, agora somava sabedoria, discernimento, visão profética. Não buscava poder nem prestígio, mas se tornava um conselheiro procurado por bispos, religiosos, intelectuais. Era, antes de tudo, um homem de Deus.

A Congregação toma forma: Pobres Servos da Divina Providência

Em 1932, com a bênção do bispo de Verona, a Congregação foi oficialmente reconhecida. Os Pobres Servos da Divina Providência nasciam com um rosto e uma missão clara:

“Avivar no mundo a fé e a confiança em Deus Pai, mediante o abandono total à Sua Providência.”

Calábria propôs algo ousado e inédito para a época: que sacerdotes e irmãos religiosos vivessem em igualdade de direitos e deveres, como verdadeiros irmãos. Nada de hierarquias clericais entre eles. Era o Evangelho vivido de forma radical, profética, atual.

Pouco depois, em 1949, viria a aprovação pontifícia. Mas antes disso, já se via: a vida do Fundador era o maior argumento a favor da Obra.

Além das fronteiras: o Evangelho segue em missão

O fogo missionário do Pe. Calábria não conhecia barreiras. Ainda nos anos 1930, tentou enviar missionários à Índia. Mais tarde, mesmo diante de dificuldades, surgiram as primeiras missões na América Latina: Uruguai (1959) e Brasil (1961), sementes lançadas por sua visão.

Ele mesmo dizia: “Queremos mostrar ao mundo que Deus existe, vê, cuida e provê. Que Ele não está ausente. Ele é Pai.”

Homem do Evangelho: a noite em que tudo se iluminou

Certa vez, não conseguindo dormir após um dia cansativo, o Pe. Calábria pegou o Evangelho e o leu inteiro, de uma só vez, durante a noite. Ao amanhecer, não era mais o mesmo.

“Eu o havia pregado tantas vezes… Mas agora o li com o coração. Foi como se o próprio Jesus estivesse ali comigo.”

A partir daquela noite, o Evangelho se tornaria ainda mais o “livro da vida” de Calábria. Suas ações se tornaram ainda mais incisivas, sua confiança ainda mais absoluta, seu abandono ainda mais sereno. A Providência passou a ser vivida até nos pequenos gestos.

Uma fé concreta: da capela ao pão da mesa

Para ele, confiar em Deus não significava cruzar os braços. Ao contrário: significava agir com prudência e ardor, mas sem jamais deixar de crer no socorro divino.

“A primeira Providência é a cabeça no lugar”, dizia ele sorrindo. “Até os passarinhos têm bico.”

E ele recorria a sinais visíveis para educar seus religiosos. Mandava bater no sacrário quando havia necessidade, como quem diz: “Jesus, é contigo!” Ou então, mandava bater latas no terraço para “acordar a Providência” — e ela vinha. Sempre vinha.

Guerra, dor, esperança: um profeta no meio da tempestade

Durante a Segunda Guerra Mundial, a Itália foi palco de horrores. Faltava tudo. Homens morriam, cidades eram bombardeadas, o medo era companheiro cotidiano.

E o Pe. Calábria? Tornou-se um consolo nacional. Sua palavra, simples e firme, era acolhida como a de um profeta. Suas cartas circulavam entre os religiosos, os fiéis, os líderes da Igreja. Bispos como o Cardeal Schuster de Milão escreviam-lhe pedindo conselhos, ânimo, luz.

Mesmo doente, mesmo sofrendo, ele permanecia sereno. Um dia, ao ser informado que o Papa Pio XII estava gravemente enfermo, ofereceu espontaneamente sua própria vida: “Ofereço, com todo prazer, minha pobre vida por ele.”

E, em seguida, disse em voz baixa: “Foi aceita.”

O rosto da Providência: cada criança, um tesouro eterno

Entre todos os gestos de sua vida, talvez o mais emblemático tenha sido este: em meio à crise, ao receber o pedido de ajuda de uma casa sem mantimentos, Calábria respondeu:

“Não tenho nada para te mandar. Por isso, envio esta criança, que custa o sangue de um Deus. Recebe-a com amor. A casa ganhará um novo tesouro.”

Ele via o mundo com os olhos de Deus. Para Calábria, cada pessoa era uma história sagrada. Cada menino, uma página viva do Evangelho.

Últimos anos: um coração consumido por amor

Já fragilizado pela saúde, com dificuldades de locomoção e dores recorrentes, o Pe. João Calábria continuava visitando os meninos, celebrando Missa com ardor, animando os irmãos, escrevendo cartas de consolo. Era incansável. E, sobretudo, era profundamente livre: nada o perturbava, porque sabia que a Obra não era sua, era de Deus.

“Se esta Obra for de Deus, nada a destruirá”, dizia.

Sua maturidade espiritual tocava a todos. Ele não apenas falava da fé. Ele era fé. Não apenas ensinava confiança. Ele encarnava a confiança.

Fim do Capítulo III – O carisma encarnado. A vida como oferta. A certeza: Deus é Pai.

Naquele tempo, João Calábria já não era apenas o padre das crianças. Era Pai, irmão, profeta, fundador, servo. Um homem que vivera com os pés na lama do mundo, mas com as raízes fincadas no céu.

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No próximo capítulo: A Páscoa do Fundador – a oferta final, o testamento espiritual e a continuidade do carisma vivido pelos filhos da Providência.

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LEIA MAIS:

Capítulo I — João Calábria antes da ordenação: o esplendor da vocação escondida (1873-1900)

Capítulo II — O Evangelho Encarnado: a missão de João Calábria junto aos últimos (1901–1929).

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