Um Apelo de Amor e Fidelidade à Obra: A Última Carta de São João Calábria
Em uma das últimas cartas escritas antes de sua partida para o Pai, São João Calábria nos deixa um profundo e emocionante testemunho de sua vida de fé e entrega a Deus, repleta de amor e zelo pela missão que a Providência lhe confiou. Datada de 23 de outubro de 1954, essa carta representa o clamor de um Pai espiritual para os seus filhos, exortando-os a permanecerem fiéis ao espírito original de sua Obra, sempre em sintonia com a vontade divina.
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08.11.2024 14:30:00 | 12 minutos de leitura

Sofrimento e Oferta
Já debilitado e em sofrimento, São João Calábria abre sua carta mencionando suas dores, oferecendo-as pela alma de seus amados irmãos e pelas almas que eles tocam em seu apostolado. É o sacrifício de um Pai que, mesmo nos últimos momentos, deseja ser fonte de consolo e fortaleza para aqueles que amou e guiou em sua missão de serviço à Providência. Essa atitude de oferecer as provações diárias representa a essência do Pobre Servo: transformar a dor em um gesto de amor e união com Deus, demonstrando que o sofrimento, quando vivido com sentido, é uma poderosa ferramenta de santificação.
A Chave: O Espírito Puro e Genuíno de Jesus
Ao dirigir-se aos irmãos, São João Calábria pede, com veemência, que guardem e transmitam o espírito puro e genuíno da Obra. Ele insiste que esse espírito não é nada mais do que o próprio espírito de Jesus, que viveu em Nazaré com simplicidade e humildade, dedicando-se aos pobres e marginalizados. São João Calábria lembra que a missão de Jesus, que ele mesmo assume como modelo para sua Congregação, é uma missão de amor e abandono em Deus. Ele nos convida a viver como Jesus, em humildade e pobreza, sem buscar aplausos ou reconhecimentos, mas almejando ser servos fiéis que desaparecem para que a glória de Deus resplandeça.
A Vida Interior: A Base do Apostolado
São João Calábria ensina que toda atividade externa só é frutífera quando enraizada em uma vida interior sólida, em união com Deus. Compara-nos a “reservatórios”, que, ao contrário dos “canais”, não se esvaziam porque mantêm a conexão constante com a fonte de vida, que é a oração. Ele exorta seus irmãos a dedicarem horas à oração, como Jesus, que passava noites em íntima comunhão com o Pai. O apelo é para que cultivem uma vigilância contínua sobre si mesmos, mantendo um espírito de mortificação que os livre das seduções do mundo moderno.
O Povo de Deus: A Verdadeira Pérola da Obra
Para São João Calábria, a verdadeira missão é servir aos pobres, aos doentes, aos marginalizados, porque neles está o próprio Cristo. “Almas, almas, meus queridos! Tudo o mais é nada.” Este grito de seu coração sintetiza a essência da missão calabriana: resgatar almas, dar dignidade aos desvalidos e ser sinal da ternura de Deus Pai para os necessitados. Ele identifica esses irmãos como as verdadeiras pérolas da Obra, enfatizando que o serviço a eles é o que confere sentido à vocação e missão de cada membro da Congregação.
Fidelidade à Virgem Maria
Em plena celebração do Ano Mariano, São João Calábria lembra a devoção à Nossa Senhora, a padroeira da Obra desde o seu início. Ele nos exorta a sermos fiéis a Maria, vivendo como Jesus viveu, em obediência e conformidade com a vontade de Deus. Essa devoção à Mãe de Deus não é apenas sentimental, mas um compromisso de imitar a vida de seu Filho. A perfeita consagração a Maria é vista como um caminho para nos tornarmos outros “pequenos Jesus”, especialmente em humildade, obediência e no espírito de sacrifício.
A Obediência: Caminho de Santificação
São João Calábria destaca a obediência como valor essencial na vida dos religiosos. Ele compreende as dificuldades e o sacrifício exigido, mas lembra que Deus não precisa de pessoas cultas, e sim de corações obedientes, prontos para a missão. A obediência é a chave que confere valor às nossas ações e é um meio de alcançar a santificação. Ele nos lembra que o próprio Deus se faz próximo daqueles que abraçam as dificuldades com confiança e entrega, valorizando a obediência como meio de crescimento espiritual.
A Torre da Esperança: O Sino Rainha da Paz
Em um momento de alegria, São João Calábria anuncia a instalação de um sino na torre de San Zeno in Monte, em Verona. Esse sino, denominado “Rainha da Paz”, representa a invocação de paz sobre o mundo, especialmente em tempos difíceis. A Providência, como ele menciona, sempre responde no tempo certo e por meio de pessoas caridosas que compreendem a missão. Esse sino é um símbolo de fé, que une a Obra à Virgem Maria, proclamada Rainha do Céu e da Terra. É um lembrete de que, mesmo em meio às provações, Deus responde aos nossos anseios e nos concede sinais de sua presença.
A Última Bênção
Por fim, São João Calábria encerra a carta com uma bênção, pedindo aos irmãos que intensifiquem as orações por ele, para que possa cumprir, até o fim, a santa vontade de Deus. Em sua despedida, ele demonstra que seu coração continua cheio de amor e zelo por cada um de seus filhos espirituais. Esta bênção é um gesto de seu coração paternal, que se oferece como exemplo de fé e confiança, até o último suspiro.
Reflexão Final
Essa última carta de São João Calábria é um testamento de fé e fidelidade à Providência Divina. Ela ecoa a essência de sua vida e missão, deixando-nos o desafio de viver com a mesma intensidade, com o mesmo amor pelos pobres e a mesma entrega incondicional à vontade de Deus. O seu apelo à oração, à simplicidade e à obediência é um convite para que, como ele, possamos transformar nossas vidas em um testemunho vivo da paternidade de Deus e do seu amor incondicional por todos. Esta é a herança que ele nos deixa: a missão de sermos testemunhas da Providência, confiando que, através de nossas ações humildes e silenciosas, Deus manifestará seus grandes desígnios para a humanidade.
*******CARTA LXXXVIII - Verona, sábado, 23 de outubro de 1954
Meus queridos e amados irmãos.
A graça e a paz de Jesus bendito estejam sempre com vocês e com todas as almas que pela divina Providência podem encontrar através do seu santo ministério e apostolado de bem.
Em meio aos meus sofrimentos, sempre novos e sempre mais agudos, oh, como eu penso em vocês e como os acompanho, meus queridos e amados irmãos; e não podendo fazer outra coisa, ofereço a Deus por vocês e pelas suas, pelas nossas almas, as minhas pobres orações, as minhas provações e sofrimentos quotidianos. Mas vocês também rezem, rezem muito por este seu velho Pai, já tão próximo do grande chamado, para que eu possa entender o grande dom do sofrimento e aproveitá-lo, primeiro pela minha pobre alma e depois por esta humilde e grande Obra, suscitada precisamente pelo Senhor nestes tempos de tão pouca fé e de tanto egoísmo e materialismo, a fim de manifestar ao mundo a fé na Paternidade de Deus e a confiança na sua divina Providência.
Oh, meus queridos e amados irmãos, como se eu estivesse no leito de morte lhes peço e esconjuro: procurem fazer com que a Obra seja sempre como Jesus a quer, vivendo todos e sempre o espírito puro e genuíno, para depois transmiti-lo também aos que virão depois de vocês! O espírito puro e genuíno, vocês já sabem, porque tantas e tantas vezes eu lhes disse e repeti, é o espírito de Jesus, o seu programa de vida, a sua própria missão. Como viveu Jesus em Nazaré? Como ele se dedicou às obras da sua vida pública? A quem principalmente foi dirigida a missão que ele recebeu do Pai?
Vivamos assim também nós. “covinha e toquinha”, “ama nesciri et pro nihilo reputari”;201 nós precisamos desaparecer, amar o silêncio, mortificar o desejo de fazer grandes coisas, fugir dos aplausos e das aprovações do mundo, buscar para nós mesmos o último lugar. Então sim o Senhor, com certeza, virá Ele mesmo nos procurar e se servirá de nós para cumprir novos e grandes desígnios, todos próprios da grave e grande hora atual.
E no exercício de nosso apostolado, façamos como fez Jesus: antes de tudo e acima de tudo atendamos à oração e à vida de união com Deus. Quantas horas e quantas noites Jesus passava em oração, em íntima comunicação com o seu Pai celeste! A atividade exterior é destinada a ser estéril se não afundar suas raízes no terreno sagrado e fecundo da vida interior. Sejam reservatórios, como tantas vezes lhes disse, e não somente canais, que nada guardam para si e acabam se esvaziando.
À oração, acrescentem uma contínua vigilância sobre vocês mesmos e um contínuo espírito de mortificação, particularmente necessário em nossos dias, nos quais são incontáveis os atrativos e as seduções do mundo.
Enfim, a missão de Jesus é e deve ser a nossa mesma missão: evangelizare pauperibus misit me.202 As criaturas abandonadas, os pobres, os velhos, os doentes: eis as nossas pérolas, as pérolas da Obra. Almas, almas, meus queridos! Tudo o mais é nada.
Nesses pensamentos e sentimentos, nesses propósitos e santas aspirações, estou completamente certo de que vocês foram confirmados nos santos Exercícios, que todos tiveram a graça de fazer também neste ano. Conservem o fruto desse momento, vivam e irradiem ao redor de vocês aquelas verdades que vocês meditaram e aprofundaram sob o materno olhar da nossa Mãe celestial, conduzidos quase que por mão e instruídos por Ela por meio dos zelosos pregadores. Assim vocês devem ter sentido a necessidade de aprofundar os motivos da sua devoção a Maria, vivendo a sua perfeita consagração a Ela.
Oh, como se torna oportuna, nesta última etapa do Ano Mariano, a recomendação de intensificar a sua piedade filial pela nossa querida Mãe Imaculada, que desde os primeiros tempos da Obra foi constituída Padroeira da Casa! E não esqueçam que a verdadeira e perfeita devoção a Maria é a imitação de Jesus. “Façam tudo aquilo que Ele vos disser”, repete-nos continuamente essa terna Mãe.
Reproduzir em nós os traços de Jesus, tornar-nos outros pequenos Jesus na humildade e na pobreza, na perfeita conformidade do nosso querer com o querer de Deus, Pai nosso que está nos céus, na obediência generosa e contínua, até o máximo sacrifício, até à total imolação de si. Oh, que alegria terá a nossa Mãe Maria vendo-nos tão semelhantes ao seu divino Filho! Como nos amará, de que dons e graças enriquecerá a nossa pobre alma!
E recorramos freqüentemente a Ela em todas as circunstâncias, mas especialmente nos momentos de provação e de desânimo, quando virmos ruírem os nossos planos e as nossas iniciativas, inclusive as mais santas, e ainda quando nos for pedido algum sacrifício ou renúncia especial. Digo isso também em consideração às recentes transferências de religiosos, que depois de tanto tempo se tornaram necessárias e oportunas. Dou-me conta, meus queridos e amados irmãos, daquilo que podem custar determinadas ordens da obediência; todavia, não olhem só para o sacrifício presente, mas os sustente e os conforte o pensamento do bem que derivará disso a vocês e às suas almas, que, acreditem, não são salvas sem sacrifício: sine sanguinis effusione non fit redemptio.203
Lembrem-se que o Senhor, para cumprir os seus desígnios, não tem necessidade de pessoas cultas, mas de verdadeiros obedientes, dispostos a tudo, prontos a qualquer sinal da obediência. Sem falar que é propriamente a obediência que dá valor às nossas ações. O seu Pai pensa em todas as coisas e está particularmente próximo de todos aqueles que receberam o dom precioso de uma carta de obediência.
E eis que agora quero dar-lhes uma boa notícia. Há quarenta anos eu desejava que a parte superior vazia da nossa linda torre em S. Zeno in Monte fosse preenchida e alegrada com a presença de um grande sino. A divina Providência, servindo-se como sempre de ministros dignos de entender e de fazer a caridade, finalmente atendeu esse meu grande desejo. O sino chegou e será inaugurado, se Deus quiser, no próximo dia 1º. de novembro, precisamente no dia em que uma nova pérola será colocada pelo Santo Padre na já riquíssima coroa da Virgem Imaculada, que será proclamada Rainha do céu e da terra, dos Anjos e dos homens.
O sino se chamará Rainha da Paz, em homenagem à nossa Rainha celestial e como uma espécie de perene invocação de paz para os homens de todo o mundo: paz entre eles, paz consigo mesmo, paz com Deus.
Aquele dia, como vocês sabem, será também o aniversário do meu Batismo. Com todas as minhas forças recomendo-me à caridade das suas orações; tenho extrema necessidade delas para fazer até o fim a santa vontade de Deus, custe o que custar, e para que eu possa, como já lhes disse, entender na prática o grande dom do sofrimento.
Termino abençoando-os paternalmente, mais com o coração do que com a mão, em nome e pela intercessão de Maria, Imaculada Rainha da Paz.
Com afeto, seu in C. J.
Sac. J. Calabria
P.S.: Logo depois que esta carta havia sido impressa, fomos alegrados pela publicação da comovente encíclica do Santo Padre sobre a Realeza de Maria.
Diante da maré de corrupção que avança sempre mais devastadora e ameaçadora, diante do abismo assustador em direção ao qual se encaminha a pobre humanidade, diante da visão apocalíptica de novos conflitos e desastres, não há, meus queridos e amados irmãos, nenhuma outra esperança a não ser no filial e fervoroso recurso à nossa comum e celestial Mãe e Rainha. Foi isso que sempre aconteceu nos momentos mais graves da história, e é isso que irá acontecer no presente. E gostaria que não passasse despercebido que com a publicação da presente encíclica, que leva a data de 11 de outubro, festa da divina Maternidade de Maria, coincidem os importantes acontecimentos políticos, que geram um senso de distensão geral e de confiança em todos.
Que a nossa querida Mãe Maria olhe de modo propício para a Igreja, para a Itália, para o mundo. Olhe, em particular, para tantos irmãos nossos que sofrem perseguições desumanas por causa da fé, e nos obtenha um sincero retorno à vida cristã, a fim de que surja finalmente uma nova era de paz e de vida verdadeiramente cristã. Assim seja!
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