Testemunho Vocacional do Padre Aldo Raimondo
"A escolha de ser Pobre Servo não foi algo difícil e sim uma consequência natural de tudo o que vivi em Nazareth. O espírito puro e genuíno era sempre presente no exemplo dos religiosos e em particular pelas inflamadas homilias do Padre Luís Pedrollo."
20.10.2021 08:52:50 | 6 minutos de leitura

Nasci em 1939, na cidadezinha de Barbarano Vicentino,
numa família pobre, mas muito católica, como todas naquele tempo no norte da
Itália. Os domingos e dias santos eram de fato 'dia de alegria' pela
participação de todos na Igreja e pela família reunida.
Um dia, na 5ª. série, o vigário paroquial veio fazer uma
palestra na escola e pediu que respondesse uma pergunta: O que pretendo fazer
quando crescer? Eu perguntei para minha mãe, que devo responder? E ela: "É
você que sabe". - "Vou escrever que vou ser padre". -
"Escreva o que quiser". E assim pouco tempo depois o pároco me
procurou, mas não tendo condições de pagar o seminário me mandou esperar e
frequentar novamente a 5ª. série como ouvinte, para não perder o contato com a
escola, enquanto ele procurava uma solução. Naquele tempo a família do
seminarista tinha que pagar o seminário (e não era barato), pois tinha muitas
vocações. Uma estatística interessante: na minha Diocese de Vicenza, no ano
1948 houve 48 ordenações sacerdotais só do clero diocesano, sem contar os
muitos institutos religiosos.
No ano seguinte, sempre esperando uma solução
conveniente, estudava na escola da Paróquia de Sossano, distante 8 Km que
percorria de bicicleta, onde o pároco tinha montado uma escola para
vocacionados. O problema da falta de recursos fez com que o meu pároco, que
conhecia Pe. Calábria me encaminhasse para a casa de Maguzzano. Permaneci lá
por dois anos, depois passei para Nazareth em Verona, onde tinha um grande
interesse pelas missões, junto com tantos seminaristas que se tornaram padres
(até Cardeal) e que são bem conhecidos aqui no Brasil.
A escolha para ser Pobre Servo não foi algo difícil e sim
uma consequência natural de tudo o que vivi em Nazareth. O espírito puro e
genuíno era sempre presente no exemplo dos religiosos e em particular pelas
inflamadas homilias do Padre Luís Pedrollo.
A profissão religiosa foi no dia 8 de setembro de 1962.
Depois do noviciado, trabalhei por dois anos com os meninos internos na casa
mãe de San Zeno in Monte.
A ordenação presbiteral no dia 29 de junho de 1968,
trabalhei um ano na casa de Santa Mônica em Ferrara e no ano seguinte, em
19/09/1969 parti de Gênova, de navio, junto com Pe. Benjamim Zanni e com Pe.
Pedro Cunegatti: feliz da vida por realizar a aventura de ser
missionário.
Passei o primeiro ano de Brasil em porto Alegre,
aprendendo o português e me adaptando com um mundo tão diferente da Itália.
Depois de dois meses era Natal: mas como é possível um Natal com o calor do
verão, quando na Itália sempre tinha neve!? Dois anos passei em Farroupilha, cuidando
da melhor turma do seminário: dela fizeram parte Dom Vital Corbellini, Ir.
Gedovar Nazzari, Pe Jaime Bernardi, Pe Adelmo Cagliari e outros.
No dia 01 de Janeiro de 1973 sai de Farroupilha e no dia
5, na primeira sexta-feira, cheguei em Batayporã/MS, para trabalhar na Paróquia
Santo Antônio. Eu não tinha o mínimo de experiência paroquial, não queria ficar
numa paróquia trabalhando sozinho, mas o Ir. Mário Bonomi, com o qual devia
compor a comunidade religiosa, só chegou bem mais tarde, no dia 7 de dezembro.
A Providência me ajudou com a presença da Ir. Ignês Turchiello, que estava
trabalhando na paróquia há dois anos. Penso que o povo tenha sofrido um pouco
com este padre inexperiente!
Em fevereiro de 1983 fui para a Paróquia Imaculado
Coração de Maria, Nova Andradina/MS e lá foi amadurecendo o trabalho paroquial
e espiritual: uma linda experiência. Era para que eu ficasse por três anos, mas
permaneci até 31/12/89, quando a paróquia foi devolvida para a Diocese de
Dourados. Em Nova Andradina fiz uma experiência muito positiva da Divina
Providência, no sentido material e espiritual.
No início de 1990 fui enviado para Quixadá/CE, com Ir.
Rino Corradini, para compartilhar a vida daquele povo sofrido. Como custei a me
adaptar com a seca e com tanta pobreza! No entanto foi um contato bonito com
aquele povo sofrido, mas cheio de fé e sempre alegre, mesmo passando fome. A
situação econômica da Paróquia era insuficiente: todas as receitas da Paróquia
não chegavam a dois salários, o ecônomo da Diocese completava, e muitas vezes
precisei desta ajuda, e com isto precisava pagar todas as despesas da igreja,
da casa paroquial, gasolina, a cozinheira, a sacristã, etc., e fazer os reparos
indispensáveis na Igreja, nas capelas, na casa paroquial. Era uma vida de
pobres, mas a Providência nunca deixou faltar o necessário. Foi em Quixadá, na
paróquia São Francisco, onde mais trabalhei e vivi pobre e feliz, também pela
grande participação do povo.
No ano de 1999 fui transferido para a Paróquia Nossa
Senhora das Graças, Feira de Santana/BA, outra realidade, outros desafios,
dificuldades e alegrias. Em 2004 morei na Paróquia São João Batista, em
Jacundá/PA. Em 2005 na cidade de Rio Grande/RS e desde fevereiro de 2016 em Ponta
Porã/MS, retornando para o estado onde iniciei o meu trabalho pastoral.
Ser Religioso Pobre
Servo da Divina Providência
Como Pobre Servo tenho que agradecer a Divina Providência
que sempre me acompanhou nas dificuldades e com muitas alegrias. Percebi
claramente a presença da Providência nas necessidades materiais, mas também na
condução da minha vida, abrindo caminhos, colocando ao meu lado pessoas de fé e
de vida cristã autêntica, sentindo o amor do Pai, que nunca nos abandona. Em
muitos lugares percebi que Deus dá sabedoria ao seu povo, e não somos nós
padres que temos tudo para ensinar, mas o Espírito Santo age no coração das
pessoas, mesmo que, às vezes, de forma diferente do que pensamos ou planejamos.
Entre as dificuldades encontradas, sobretudo nos
primeiros tempos, foi um certo isolamento, por falta da comunicação: nem
estradas, nem telefone, nem energia elétrica tinha nos primeiros tempos. Por
isso vivi como que na periferia da Congregação, e como comunidade religiosa, a
dificuldade de viver com pessoas de caráter tão diferente.
Sempre teremos
dificuldades para manifestar o nosso carisma se não se formarem comunidades onde os religiosos se amem verdadeiramente como irmãos e um sincero abandono à Divina Providência.
Deixar o nosso protagonismo e colocar-nos de fato nas mãos da Divina
Providência: é lindo experimentar o seu amor, pois é Deus que faz tudo e nos
conduz, nós somos simplesmente servos.
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