SOLENIDADE DE NOSSO SENHOR JESUS CRISTO, REI DO UNIVERSO
Na cruz, Cristo revela o único reinado que salva: o poder do amor que se entrega e da misericórdia que transforma.
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21.11.2025 08:55:44 | 4 minutos de leitura

Padre Rafael Pedro Susrina, psdp
Celebramos o ápice do Ano Litúrgico: Jesus Cristo, Rei do Universo. Mas a Liturgia deste domingo nos revela que o reinado de Cristo é desconcertante: Ele reina onde nenhum rei gostaria de estar: na cruz. Seu trono não é de ouro, mas de madeira; seu cetro não é de poder, mas de obediência; sua coroa não é de glória humana, mas de espinhos.
Na 1ª Leitura (2Sm 5,1-3) as tribos de Israel dizem a Davi: “Somos teus ossos e tua carne”. Ele é ungido rei não porque se impôs, mas porque Deus o escolheu. Contudo, essa unção é apenas sombra e figura. Como recorda Santo Agostinho: “No Antigo Testamento vemos a promessa; em Cristo, vemos o cumprimento.” Davi antecipa Aquele que reinaria não por conquistar territórios, mas corações.
Na 2ª Leitura (Cl 1,12-20) São Paulo nos conduz ao centro do cosmos: Cristo é a imagem do Deus invisível, o primogênito de toda criatura. Nele, por Ele e para Ele tudo foi criado. Mas o detalhe decisivo: Ele pacificou tudo pelo sangue da cruz. Seu Reino não se estabelece esmagando rivais, mas reconciliando o que estava dividido, curando o que estava ferido, restaurando o que parecia impossível. Não é à toa que o Prefácio desta solenidade proclama que Ele é Sacerdote eterno e Rei do universo, que “se ofereceu no altar da cruz como vítima pura e pacífica”. Todo o reinado cristão está resumido aí: Ele reina oferecendo-se.
No Evangelho (Lc 23,35-43) eis o momento supremo: Cristo reina enquanto é escarnecido. Chefes, soldados e um criminoso zombam d’Ele. E, no entanto, Ele permanece Rei – silencioso, inocente, paciente. É então que o bom ladrão, iluminado pela graça, pronuncia a profissão de fé: “Jesus, lembra-Te de mim quando entrares no teu reinado.” Os Padres da Igreja iluminam esta cena:
São Gregório Magno observa que o bom ladrão nada tinha para oferecer – mãos e pés estavam pregados – mas lhe restavam o coração e a língua. E ele os entrega a Deus. Cumpre-se o ensino de São Paulo (Rm 10,10): “Com o coração se crê… com a boca se confessa para a salvação.” Na cruz, o ladrão manifesta fé, esperança e caridade.
Fé: reconhece Cristo como Rei enquanto todos veem um derrotado. Esperança: pede o Reino. Caridade: corrige o companheiro que blasfema.
Teofilacto com beleza afirma que Cristo, como um rei que volta triunfante, traz consigo o despojo mais precioso conquistado do diabo: um ladrão. E o leva consigo ao Paraíso.
São João Crisóstomo descreve a cena como um julgamento misterioso: Cristo está entre dois ladrões – de um lado, a fé; do outro, a incredulidade. E conclui: “Se o diabo expulsou Adão do Paraíso, Cristo introduz ali, antes dos apóstolos, um ladrão.” Uma única palavra, unida à fé, “abriu-lhe as portas do Paraíso para que ninguém se desespere da salvação”.
A entrada no Reino começa por três atitudes claras. Reconhecer a verdade sobre si: estamos pagando pelo que fizemos; reconhecer a verdade sobre Cristo: “Ele não fez nada de mal.”; entregar-se à misericórdia: “Lembra-te de mim.” Não é outra a lógica do Reino: reconhecer quem sou, reconhecer quem Ele é, entregar-me a Ele.
O mundo não sofre por falta de verdade, santidade, justiça ou paz. Sofre porque não quer que Cristo reine. Mas a pergunta decisiva não é se o mundo aceita Cristo Rei; é se eu O aceito. Quem governa minhas decisões? Minhas escolhas revelam Cristo como Rei ou apenas o mencionam? Sou súdito do Reino da paz ou alimento pequenas guerras domésticas, paroquiais, afetivas? Peço a Cristo o Reino… ou apenas favores?
O bom ladrão recebeu a frase que todos desejamos ouvir: “Hoje estarás comigo no Paraíso.” Se Jesus dissesse hoje: “Estarás comigo”, o que Ele encontraria no meu coração? Cristo é Rei do Universo; mas é Rei da minha vida?
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