São João Paulo II: o Papa que marcou a história da Igreja e deixou em Marituba um testemunho inesquecível de amor e esperança
Celebrado em 22 de outubro, São João Paulo II ocupa um lugar especial na memória da Família Calabriana. Em 8 de julho de 1980, durante sua primeira viagem apostólica ao Brasil, o Pontífice visitou o antigo leprosário de Marituba, no Pará, onde a Congregação Pobres Servos da Divina Providência mantém sua presença missionária. Um encontro histórico que permanece como testemunho da dignidade humana, da proximidade com os que sofrem e da confiança em Deus Pai Providente.
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22.10.2026 05:00:00 | 19 minutos de leitura

Há acontecimentos que ultrapassam os limites de uma época e permanecem vivos na memória de um povo. A visita de São João Paulo II ao leprosário de Marituba, na Região Metropolitana de Belém, em 8 de julho de 1980, é um desses momentos.
Naquele dia, o Papa polonês, que conquistaria o mundo com sua coragem, simplicidade e extraordinária capacidade de aproximar-se das pessoas, fez questão de encontrar homens e mulheres que conviviam com a hanseníase e com as marcas da exclusão social.
Mais do que uma visita protocolar, aquele encontro representou uma manifestação concreta do Evangelho: a Igreja que se aproxima dos que sofrem, reconhece sua dignidade e anuncia que ninguém está esquecido por Deus.
Para a Congregação Pobres Servos da Divina Providência, cuja missão se inspira no testemunho de São João Calábria, a passagem do Pontífice por Marituba possui um significado particularmente profundo. O antigo leprosário, posteriormente denominado Abrigo João Paulo II, integra a história de uma presença missionária marcada pelo cuidado com a vida, pela caridade e pela atenção às pessoas em situação de vulnerabilidade.
Neste 22 de outubro, quando a Igreja celebra a memória litúrgica de São João Paulo II, recordar sua vida e sua passagem por Marituba é também renovar o compromisso de fazer da fé uma expressão concreta de amor, acolhida e serviço.
Karol Wojtyła: uma vida marcada pela fé e pela superação
Antes de se tornar uma das personalidades mais influentes do século XX, João Paulo II foi Karol Józef Wojtyła, um menino nascido em 18 de maio de 1920, na pequena cidade de Wadowice, na Polônia.
Filho de Karol Wojtyła e Emilia Kaczorowska, cresceu em uma família profundamente religiosa. Desde cedo, porém, conheceu a experiência da perda e do sofrimento.
Sua mãe faleceu em 1929, quando ele tinha apenas nove anos. Em 1932, perdeu o irmão mais velho, Edmund, médico que contraiu escarlatina ao cuidar de pacientes. Em 1941, aos 20 anos, perdeu também o pai, a quem reconhecia como uma de suas maiores referências de fé, disciplina e vida espiritual.
Essas experiências não enfraqueceram sua confiança em Deus. Pelo contrário, contribuíram para amadurecer uma espiritualidade profundamente marcada pela oração, pela devoção à Virgem Maria e pela sensibilidade diante do sofrimento humano.
Durante a juventude, Karol demonstrou grande interesse pela literatura, pelo teatro e pela cultura. Entretanto, sua vida seria profundamente transformada pela Segunda Guerra Mundial e pela ocupação nazista da Polônia.
Para sobreviver e evitar a deportação, trabalhou em uma pedreira e posteriormente em uma fábrica química. Ao mesmo tempo, participou de atividades culturais clandestinas que procuravam preservar a identidade e a dignidade do povo polonês.
Foi nesse contexto de violência, perseguição e incerteza que amadureceu sua vocação sacerdotal.
Do seminário clandestino à missão de pastor da Igreja
Em 1942, Karol Wojtyła ingressou clandestinamente no seminário de Cracóvia, então dirigido pelo arcebispo Adam Stefan Sapieha.
A formação sacerdotal acontecia em segredo, em meio aos riscos impostos pela ocupação nazista.
Em 1º de novembro de 1946, foi ordenado sacerdote. Posteriormente, aprofundou seus estudos em Roma e dedicou-se ao ministério pastoral, à formação universitária e à reflexão filosófica e teológica.
Em 1958, foi nomeado bispo auxiliar de Cracóvia. Tornou-se arcebispo daquela cidade em 1964 e cardeal em 1967, por decisão do Papa Paulo VI.
Participou ativamente do Concílio Vaticano II, contribuindo especialmente para as reflexões sobre a Igreja no mundo contemporâneo, a liberdade religiosa e a dignidade da pessoa humana.
Sua trajetória revelava um pastor que compreendia a evangelização não apenas como transmissão de ensinamentos, mas como presença junto às pessoas, diálogo com a sociedade e defesa incondicional do valor da vida humana.
João Paulo II: um pontificado que transformou a história
Em 16 de outubro de 1978, o cardeal Karol Wojtyła foi eleito Papa, assumindo o nome de João Paulo II. Tornou-se o primeiro Pontífice não italiano em mais de quatro séculos.
Seu pontificado, que durou 26 anos, cinco meses e 17 dias, é considerado o terceiro mais longo da história da Igreja Católica, depois dos pontificados tradicionalmente atribuídos a São Pedro e a Pio IX.
Desde o início, apresentou ao mundo uma mensagem de coragem e esperança. Na celebração inaugural de seu ministério petrino, em 22 de outubro de 1978, proclamou um convite que atravessaria gerações:
“Não tenhais medo! Abri, melhor, escancarai as portas a Cristo!”
Essas palavras se tornaram uma das expressões mais conhecidas de seu pontificado.
João Paulo II conduziu a Igreja em um período de profundas transformações políticas, culturais e sociais. Defendeu a liberdade religiosa, a dignidade dos trabalhadores, a família, a vida humana e a paz entre os povos.
Sua atuação teve especial relevância no contexto das transformações que contribuíram para o fim dos regimes comunistas no Leste Europeu. Ao mesmo tempo, promoveu o diálogo ecumênico e inter-religioso, buscando construir pontes entre diferentes povos e tradições.
Publicou 14 encíclicas, incentivou a nova evangelização, promoveu encontros internacionais e estabeleceu as Jornadas Mundiais da Juventude, que se tornaram uma das maiores expressões da participação dos jovens na vida da Igreja.
Seu lema episcopal, Totus Tuus — “Todo teu” — expressava sua profunda devoção à Virgem Maria e sua entrega a Jesus Cristo pelas mãos da Mãe de Deus.
Ao longo de seu pontificado, realizou 104 viagens apostólicas internacionais, visitando 129 países. Por essa intensa atividade missionária, ficou conhecido como o Papa peregrino.
8 de julho de 1980: o dia em que o Papa chegou a Marituba
Durante sua primeira viagem apostólica ao Brasil, realizada entre 30 de junho e 12 de julho de 1980, João Paulo II percorreu diferentes regiões do país, encontrando multidões, celebrando a fé e dirigindo mensagens às diversas realidades da sociedade brasileira.
Entre os acontecimentos mais significativos daquela peregrinação esteve sua visita ao leprosário de Marituba, no Pará.
A escolha daquele lugar possuía um forte significado evangélico. O Papa desejava encontrar pessoas atingidas pela hanseníase, uma enfermidade historicamente associada ao preconceito, à discriminação e ao isolamento.
Ao chegar, dirigiu-se aos presentes com a ternura de um pai e a proximidade de um pastor.
Logo no início de seu discurso, explicou que havia recebido cartas de diversas colônias de hansenianos do Brasil, convidando-o a visitá-las. Não podendo atender pessoalmente a todos os convites, quis que sua presença em Marituba representasse também seu encontro espiritual com todas aquelas comunidades.
Suas palavras revelaram o sentido mais profundo daquela visita: reconhecer em cada pessoa a presença de Cristo e reafirmar que o sofrimento jamais elimina a dignidade humana.
Ao se dirigir aos moradores, o Pontífice afirmou:
“Sois filhos de Deus, por Ele conhecidos e amados. Sois já e sereis de agora em diante para sempre meus amigos, amigos muito caros.”
Era uma mensagem de extraordinária força para pessoas que, durante tanto tempo, haviam convivido com as consequências da exclusão.
João Paulo II não as definiu pela doença. Antes, apresentou-as como pessoas únicas, amadas por Deus, portadoras de direitos, dons e uma dignidade que nenhuma condição física poderia diminuir.
Dom Aristides Pirovano e a missão calabriana em Marituba
A visita também trouxe reconhecimento à dedicação daqueles que consagravam suas vidas ao cuidado dos enfermos.
Em seu discurso, João Paulo II mencionou expressamente Dom Aristides Pirovano, figura profundamente ligada à história da evangelização e da assistência às pessoas com hanseníase em Marituba.
Ao anunciar que continuaria espiritualmente próximo daquela comunidade, o Papa confiou aos profissionais e responsáveis pela assistência a missão de representá-lo junto aos moradores.
Esse gesto traduzia uma verdade essencial da missão cristã: a presença da Igreja não se encerra em um encontro extraordinário, mas continua no serviço cotidiano daqueles que cuidam, acolhem e defendem a vida.
Para a Família Calabriana, a história de Marituba está profundamente associada à espiritualidade de São João Calábria, que ensinou seus filhos espirituais a reconhecerem a Providência de Deus e a responderem às necessidades humanas com fé, disponibilidade e caridade concreta.
A presença dos Pobres Servos da Divina Providência naquela realidade expressa a continuidade desse compromisso: anunciar o amor de Deus não somente com palavras, mas também por meio de gestos de proximidade, atenção e serviço.
Após a histórica visita, o antigo leprosário passou a ser chamado Abrigo João Paulo II, perpetuando na identidade do lugar a memória daquele encontro.
Uma mensagem que continua atual: ninguém deve ser excluído
Um dos aspectos mais expressivos do discurso de João Paulo II foi seu apelo contra o isolamento das pessoas com hanseníase.
O Pontífice convidou a sociedade a conhecer, acolher e integrar os enfermos, reconhecendo que cada pessoa possui algo a oferecer à comunidade.
Sua mensagem não se limitou ao conforto espiritual. Foi também um chamado à responsabilidade coletiva, à superação do preconceito e à construção de relações humanas fundamentadas na solidariedade.
Essa perspectiva permanece atual. Embora a hanseníase tenha tratamento e cura, o enfrentamento da discriminação e a garantia de assistência digna continuam sendo compromissos fundamentais.
O Papa também recordou que a experiência do sofrimento, vivida em comunhão com Cristo, pode tornar-se fonte de esperança e de força espiritual.
Em vez de apresentar os enfermos apenas como destinatários da caridade, reconheceu neles protagonistas da vida da Igreja, capazes de contribuir com sua oração, sua fé e seu testemunho.
É uma compreensão profundamente evangélica, que encontra especial ressonância no carisma calabriano: Deus é Pai de todos, sua Providência não abandona ninguém, e a caridade cristã deve alcançar especialmente aqueles que mais necessitam de cuidado.
Da fragilidade humana ao testemunho de santidade
Nos últimos anos de vida, João Paulo II enfrentou o agravamento de sua saúde, particularmente em consequência da doença de Parkinson.
O homem que havia percorrido o mundo anunciando o Evangelho passou a testemunhar, por meio da própria fragilidade, a dignidade da vida humana também na enfermidade e na velhice.
Faleceu em 2 de abril de 2005, na véspera do Domingo da Divina Misericórdia, aos 84 anos.
Seu funeral reuniu uma multidão de fiéis na Praça de São Pedro, em Roma, e representantes de numerosos países.
Entre os presentes, ecoava um pedido que se tornaria histórico: Santo subito! — “Santo já!”.
Foi beatificado pelo Papa Bento XVI em 1º de maio de 2011 e canonizado pelo Papa Francisco em 27 de abril de 2014, juntamente com São João XXIII.
A Igreja celebra sua memória litúrgica em 22 de outubro, recordando a data de início solene de seu pontificado, em 1978.
Uma memória que se transforma em compromisso
Ao celebrar São João Paulo II, a Delegação Nossa Senhora Aparecida dos Pobres Servos da Divina Providência recorda com gratidão sua passagem por Marituba e o significado espiritual daquele encontro.
Quarenta e seis anos depois, a mensagem pronunciada em 8 de julho de 1980 continua a interpelar a Igreja e a sociedade.
O Papa que abraçou o mundo com sua mensagem de esperança deixou, naquele lugar da Amazônia, uma lição permanente: a dignidade humana não depende das condições de saúde, da posição social ou das limitações de cada pessoa. Ela nasce do amor de Deus, que conhece e acolhe cada um de seus filhos.
A visita de João Paulo II também reforça a atualidade da missão confiada à Família Calabriana: ser sinal da ternura de Deus Pai Providente, especialmente junto às pessoas que experimentam o sofrimento, a pobreza e o abandono.
Celebrar sua santidade é, portanto, muito mais do que recordar um grande personagem da história da Igreja. É renovar a decisão de viver o Evangelho com coragem, construir uma sociedade mais fraterna e reconhecer em cada pessoa um irmão ou uma irmã.
Que São João Paulo II interceda pela missão calabriana em Marituba, por todos os que ali vivem e trabalham, pelas pessoas atingidas pela hanseníase e por todos aqueles que dedicam sua vida ao cuidado dos mais vulneráveis.
A seguir, reproduzimos na íntegra o discurso pronunciado pelo Papa João Paulo II durante sua histórica visita ao leprosário de Marituba, em 8 de julho de 1980.
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VISITA DO PAPA JOÃO PAULO IIAO LEPROSÁRIO DE MARITUBABelém (Pará), 8 de Julho de 1980
Queridos filhos
1. Desde que anunciei minha viagem ao Brasil e durante a preparação desta viagem, recebi de várias Colônias de hansenianos deste País um bom número de cartas convidando-me para uma visita. Deus sabe quanto gostaria de fazê-lo. Vindo aqui a Marituba, encontrando-vos e saudando-vos com afeto de pai, é como se visitasse nesta hora todas as colônias dos hansenianos do Brasil. Chegue a eles minha palavra para dizer-lhes quanto os estimo, quanto penso neles e rezo por eles.
Bendito seja Deus que nos concede a graça deste encontro. De fato uma graça para mim poder, como o Senhor Jesus de Quem sou ministro e representante, ir ao encontro dos pobres e doentes pelos quais Ele teve verdadeira predileção. Não posso, como Ele, curar os males do corpo mas Ele me dará, por sua bondade, a capacidade de dar algum alívio aos espíritos e corações. Neste sentido desejo que este encontro seja uma graça para vós também. em nome de Jesus que estamos aqui reunidos: que Ele esteja no meio de nós como prometeu (cf. Mt 18, 20).
2. Encontrando-se pela primeira vez e desejando fazer amizade as pessoas costumam apresentar-se. Será que preciso fazê-lo? Já sabeis o meu nome e tendes uma porção de informações sobre a minha pessoa. Mas já que pretendo fazer amizade convosco, faço a minha apresentação: venho a vós como missionário mandado pelo Pai e por Jesus para continuar a anunciar o Reino de Deus que começa neste mundo mas só se realiza na eternidade, para consolidar a fé de meus irmãos, para criar uma profunda comunhão entre todos os filhos da mesma Igreja. Venho como ministro e indigno Vigário de Cristo para velar sobre a sua Igreja; como humilde sucessor do Apóstolo Pedro, Bispo de Roma e Pastor da Igreja Universal.
A Simão Pedro, apesar de fraco e pecador como toda criatura humana, o Senhor Jesus havia declarado em um momento solene que sobre ele como sobre uma Rocha firme haveria de construir a Igreja (Mt 16, 18). Prometeu-lhe também as chaves do Reino com a garantia de que seria ligado ou desligado no céu tudo quanto ele ligasse ou desligasse na terra (cf.Mt 16, 19). Já para voltar ao Pai é ainda a Pedro que ele dirá: “Apascenta minhas ovelhas, apascenta meus cordeiros”(cf. Jo 21, 15ss). Venho como sucessor de Pedro: herdeiro da misteriosa e indescritível autoridade espiritual que lhe foi conferida, mas também da tremenda responsabilidade a ele atribuída. Como Pedro aceitei ser Pastor universal da Igreja desejoso de conhecer, amar, servir todos os membros do rebanho a mim confiado. Aqui estou para conhecer-vos. Devo dizer que é grande o meu afeto por todos e cada um. Estou certo de poder servir-vos de alguma maneira.
3. E vós, quem sois? Para mim sois antes de tudo pessoas humanas ricas de uma dignidade imensa que a condição de pessoa vos dá, ricos cada um da fisionomia pessoal, única e irrepetível com que Deus o fez. Sois pessoas resgatadas pelo sangue daquele a Quem gosto de chamar, como fiz em minha carta escrita à Igreja inteira e ao mundo: o “Redentor do homem”.
Sois filhos de Deus, por Ele conhecidos e amados. Sois já e sereis de agora em diante para sempre meus amigos, amigos muito caros. Como a amigos gostaria de deixar-lhes uma mensagem por ocasião deste encontro que a Providência divina me permite ter convosco.
4. Minha primeira palavra só pode ser de conforto e de esperança. Bem sei que, sob o peso da doença, temos todos a tentação do abatimento. Não é raro perguntar-nos com tristeza: por que esta enfermidade? Que mal fiz eu para recebê-la? Um olhar a Jesus Cristo na sua vida terrena e um olhar de fé, à luz de Jesus Cristo sobre a nossa própria situação, muda nossa maneira de pensar. Cristo Filho de Deus inocente conheceu na própria carne o sofrimento. A Paixão, a Cruz, a morte na cruz o provaram duramente: como anunciara o Profeta Isaías, Ele ficou desfigurado, sem aparência humana (Is 53, 2). Ele não velou nem escondeu seu sofrimento, antes, quando esse era mais atroz pediu ao Pai que afastasse o cálice (cf. Mt 26, 39). Mas uma palavra revelava o fundo do seu coração: “Não se faça a minha vontade mas a Tua!”(Lc 22, 42). O Evangelho e todo o Novo Testamento nos dizem que assim acolhida e vivida a Cruz se tornou redentora.
Não é diverso em nossa vida. A doença é na verdade uma cruz, cruz por vezes bem pesada, provação que Deus permite na vida de uma pessoa, dentro do mistério insondável de um desígnio que foge à nossa capacidade de compreensão. Mas não deve ser olhada como uma fatalidade cega. Nem é forçosamente e em si mesma uma punição. Não é algo que aniquila sem deixar nada de positivo. Ao contrário, ainda quando pesa sobre o corpo, a cruz da doença carregada em comunhão com a de Cristo se torna também fonte de salvação, de vida ou de ressurreição para o próprio doente e para os outros, para a humanidade inteira. Como o Apóstolo Paulo, vós também podeis dizer que completais no vosso corpo aquilo que falta à Paixão de Cristo em benefício da Igreja (cf. Col 1, 24).
Estou certo de que, vista sob essa luz, a doença, mesmo dolorosa e humanamente mortificante, traz consigo sementes de esperança e motivo de reconforto.
5. Minha segunda palavra é um pedido mas ainda mais um convite e um estímulo: não vos isoleis por motivo de vossa enfermidade. Todos aqueles que com dedicação, amor e competência se interessam por vós, talvez até consagrando-vos todo o seu talento, tempo e energias, insistem que nada é melhor do que sentir-vos profundamente inseridos na comunidade dos outros irmãos e não cortados dela. A esses irmãos nós dizemos com a força da convicção: procurai conhecer vossos irmãos hansenianos, ficai próximos a eles, acolhei-os, colaborai com eles, acolhei e procurai sua colaboração. Mas a vós devemos dizer: não recuseis por qualquer motivo inserir-vos no ambiente que vos circunda e que se abre a vós. Senti-vos membros em maior plenitude possível da comunidade humana que cada vez mais toma consciência de que precisa de vós como precisa de cada um de seus membros.
A esta comunidade podeis oferecer, no plano humano, a contribuição dos dons que recebestes de Deus. Dentro dos limites naturais é bastante amplo e variado o campo dessa possível colaboração. No plano sobrenatural que é o da graça, quis recordar-vos há pouco que, em comunhão com o mistério da Cruz de Cristo, a cruz de vossa doença se torna manancial de graças, de vida e de salvação. Seria pena desperdiçar por qualquer motivo este manancial de graças de Deus. Que ele sirva para muitos, sobretudo para a Igreja. Estando na Amazônia onde é intenso e frutuoso o trabalho missionário cujos frutos vós mesmos recebeis, me atreveria a pedir: fazei de vossa condição de doentes um gesto missionário de imenso alcance transformando-a em fonte da qual os missionários podem haurir energias espirituais para seu trabalho.
6. Minha terceira palavra é de confiança: o Papa, junto com toda a Igreja vos estima e vos ama. O Papa assume diante de vós e convosco o compromisso de fazer tudo quanto puder por vós e em vosso favor. O Papa, embora partindo para novas tarefas no quadro desta visita e de sua exigente missão, permanece espiritualmente convosco: queira o querido irmão Dom Aristides Pirovano, vosso grande amigo, queiram os médicos, enfermeiros, assistentes que aqui se devotam, ser os representantes do Papa junto de vós fazendo tudo o que ele faria e como ele faria se pudesse aqui permanecer. Por minha vez quero contar convosco: como peço a ajuda das orações dos monges e monjas e de tantas pessoas santas para que o Espírito Santo inspire e dê forças ao meu ministério pontifical, assim peço também a ajuda preciosa que pode vir da oferta de vossos sofrimentos e de vossa doença. Que esta oferta se una às vossas orações, melhor ainda se transformem em oração por mim, por meus diretos colaboradores, por todos os que me confiam suas aflições e penas, suas necessidades e intenções.
Mas porque não começar logo esta oração?
Senhor, com a Fé que nos destes, vos confessamosDeus todo poderoso, nosso Criador e Pai providente,Deus de esperança, em Jesus Cristo, nosso Salvador,Deus de amor, no Espírito Santo, nosso Consolador!
Senhor confiantes nas vossas promessas que não passam,queremos vir sempre a Vós, buscar alívio na dor.Contudo, discípulos de Jesus, não se faca como queremos.Faça-se a vossa vontade, em todo o nosso viver!
Senhor, agradecidos pela predileção de Cristopelos hansenianos que tiveram a dita de O contatar,vendo-nos neles... vos agradecemos também os favoresem tudo o que nos ajuda, alivia e conforta:vos agradecemos pela medicina e pelos médicos,pela assistência e pelos enfermeiros, pelas condições de vida,pelos que nos consolam e por nós são consolados,pelos que nos compreendem e aceitam, e pelos outros.
Senhor, concedei-nos paciência, serenidade e coragem;concedei-nos viver uma caridade alegre, por vosso amor,para com quem sofre mais do que nós e para com outros que,não sofrendo, não têm esclarecido o sentido da vida.
Senhor, queremos que nossa vida possa ser útil, servir:para louvar, agradecer, reparar e impetrar, com Cristo,pelos que vos adoram e pelos que não vos adoram, no mundo,e pela vossa Igreja, espalhada por toda a terra.
Senhor, pelos méritos infinitos de Cristo, na Cruz,“Servo sofredor” e Irmão nosso, ao qual nos unimos,vos pedimos por nossas famílias, amigos e benfeitores,pelo bom resultado da visita do Papa e pelo Brasil. Amém. Fonte: VATICAN.
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