Quem é o meu próximo? A fé que se traduz em compaixão
A verdadeira fé não pergunta para evitar, mas se aproxima para amar.
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11.07.2025 09:19:49 | 4 minutos de leitura

15º Domingo do Tempo Comum
Padre Rafael Pedro Susrina, psdp
“E quem é o meu próximo?” (Lc 10,29) – perguntou o mestre da Lei, querendo justificar-se. No cotidiano da vida, muitas vezes nos deparamos com situações de dúvida. Questionamos tanto as realidades etéreas (divinas) quanto as vulgares (mundanas). E, na maioria das vezes, essas perguntas parecem inofensivas – afinal, vêm de pessoas católicas – batizadas, cristãs, santas. Mas o que há de errado em perguntar: “Quem é o meu próximo?” Seria essa uma pergunta maldosa? Teria algo escondido? Sim. Em muitos casos, nossas perguntas, que parecem simples ou sinceras, nascem de um coração desconfiado, hesitante – de alguém que tenta negociar com o amor de Deus.
A dúvida, em si, não é o problema. Mas o uso que fazemos dela, sim. Quando a pergunta é usada não como busca da verdade, mas como forma de evadir-se de um compromisso real com Deus, ela se torna perigosa. Não se pergunta para conhecer, mas para fugir. Não se pergunta por amor à verdade, mas para manipular a resposta. É o coração que, fingindo interesse, tenta enganar a Deus. Uma pergunta que parece piedosa, mas esconde uma resistência interior à vontade divina.
Cristo, como sempre, não responde teoricamente. Ele narra uma história. Aquele homem caído na estrada de Jerusalém a Jericó é o grito da humanidade ferida – e quantos hoje estão assim! Feridos na fé, machucados por violências, abandonados no coração. E quantos de nós passamos ao largo, como o sacerdote e o levita?
O samaritano, estrangeiro e desprezado, foi quem viu, teve compaixão e se aproximou. O verbo “aproximar-se” aqui é chave. Porque só quem se aproxima ama, e só quem ama faz de sua fé um caminho verdadeiro. Santo Ambrósio comenta esta parábola, dizendo que o homem caído representa Adão, ferido pelo pecado, e o samaritano é o próprio Cristo, que se inclina sobre a miséria humana, unge as feridas com o óleo da graça e as leva à hospedaria da Igreja para serem cuidadas. Nas palavras do santo: “O samaritano é aquele que teve misericórdia de mim. Quem é ele, senão aquele que, mesmo não sendo do meu povo, se fez meu próximo, acolheu-me, carregou-me e me curou?”1
Essa imagem do Cristo-Samaritano também nos ajuda a compreender o que São Paulo diz na 2ª leitura: Cristo é o primogênito da nova criação, reconcilia tudo pelo sangue da cruz (cf. Cl 1,15-20). Ele se faz próximo, Ele se inclina. Não espera ser procurado, mas é o primeiro a se mover por amor. E é esse mesmo Cristo que, no Evangelho, nos convida: “Vai e faze a mesma coisa” (Lc 10,37).
Essa lógica da compaixão concreta também marcou profundamente a vida de São João Calábria, que um dia, voltando do hospital, encontrou na rua um menino cigano, deitado na calçada. Ele poderia ter desviado o olhar, mas não: viu, inclinou-se, sacudiu suavemente, reconheceu a dignidade daquela criança e acolheu-a. Esse gesto, tão simples e evangélico, tornou-se a alma da pedagogia calabriana: ver com os olhos do coração, inclinar-se com humildade, despertar com ternura, reconhecer a dignidade e acolher com amor.
A Palavra não está longe – recorda Moisés na 1ª leitura – ela está em tua boca e em teu coração, para que a ponhas em prática (cf. Dt 30,14). Ela está ao teu alcance. E a fé, se não se traduz em obras de misericórdia, é só um discurso vazio. Nosso tempo sofre de uma indiferença generalizada. Criamos distâncias, classificações, fronteiras. Mas o Evangelho destrói essas barreiras. O próximo não é quem se parece comigo, mas quem Deus coloca à minha frente pedindo ajuda.
A pergunta do doutor da Lei foi uma tentativa de evitar o incômodo do amor. Mas Jesus não permite escapatórias: O amor verdadeiro sempre se compromete. Sempre se aproxima. Sempre desce da montaria para cuidar. E hoje, Jesus te pergunta: “quem é o teu próximo?”
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1 Comentário ao Evangelho de Lucas, Livro VII.
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