Padre Victor Zacarias Luaco
"Por eles eu me consagro, para que eles sejam consagrados na verdade" (Jo 17,19)
Storytelling Vocacional
15.08.2025 07:00:00 | 5 minutos de leitura

Projeto Corações Consagrados: Vozes da Vocação Calabriana
História vocacional e missionária do Padre Victor Zacarias Luaco
"Por eles eu me consagro, para que eles sejam consagrados na verdade" (Jo 17,19)
Sou o Pe. Victor Zacarias Luaco, filho de Luciano Zacarias e Laurinda Bassao, nascido em 10 de julho de 1973, na vila de Caimbambo. Cresci em um lar profundamente eclesial: meu pai, catequista e comerciante; minha mãe, doméstica e mulher de fé firme. Ambos pertenciam ao Apostolado da Oração e lideravam a Capela da comunidade rural onde vivíamos. A Igreja sempre esteve muito perto de nós — inclusive geograficamente. Era como um prolongamento da nossa casa.
Sou o caçula de quatro irmãos. Tinha 16 anos quando comecei a sentir os primeiros sinais do chamado de Deus. Dois anos após o falecimento de meu pai, fui morar em Cubal com um dos meus irmãos, que trabalhava no hospital das Irmãs Teresianas, fundadas por São Henrique de Ossó. Aquelas irmãs, todas estrangeiras, cuidavam com tanto amor dos doentes em meio a uma realidade de pobreza extrema, que me deixaram inquieto. Comecei a me perguntar: "E eu? O que posso oferecer?"
Logo fiquei gravemente doente. Humanamente, havia poucas chances de recuperação. Mas Deus quis me devolver à vida — e minha mãe nunca teve dúvidas de que se tratava de um milagre. Desde então, cresceu em mim o desejo de agradecer a Deus com algo mais do que palavras. Passei a me sentir impelido a consagrar minha vida a Ele.
Foi então que conheci Ir. Josefa Gusman, a quem considero como uma segunda mãe. Ela me incentivou a participar do grupo MTA (Movimento Teresiano Apostólico) e do grupo vocacional da missão-paróquia “Mãe de Deus”, dos Saletinos, em Cubal. Em 1991, aos 18 anos, entrei no Seminário Propedêutico Bom Pastor da Diocese de Benguela, com uma equipe formadora composta por religiosos Pobres Servos da Divina Providência: Pe. Benjamim Zani, Ir. Mario Frigo e Pe. Maurizio Bellantoni. Em 1992, chegou também o Ir. Pedro Picoli.
A simplicidade e fraternidade desses religiosos me tocavam profundamente. Havia neles algo diferente. Um dia, perguntei ao Ir. Pedro sobre sua vida, e ele me deu um livrinho sobre São João Calábria: O Menino que encontrou o seu caminho. Aquele livro mexeu com meu interior — foi o segundo que li sobre um santo; o primeiro tinha sido sobre Santa Teresa d’Ávila.
O desejo de conhecer mais a vida calabriana crescia em mim, mas havia um obstáculo: a Congregação não podia falar abertamente sobre acolher vocacionados no seminário, já que estavam a serviço da Diocese. Mesmo assim, no fim do Propedêutico, eu e mais dois seminaristas decidimos pedir para fazer uma experiência com os Pobres Servos. O bispo, inicialmente irritado, nos disse que não nos aceitaria de volta. Mas, dias depois, nos chamou, nos abençoou e afirmou com carinho: “Esta é vossa diocese. Onde quer que estejam, aqui sempre terão uma casa.”
Em 1993 fui para Luanda, onde iniciei o curso de Filosofia na Casa de Formação Divina Providência. Em 1995/96 fiz o primeiro ano de Postulantado, seguido pelo segundo em 1996/97, com experiências na Escola Divina Providência das Irmãs Pobres Servas. Em 1997/98 fiz o noviciado em Benguela, emitindo minha primeira profissão religiosa em 15 de agosto de 1998.
Minha primeira missão foi no Seminário Maior São Paulo, na Diocese do Uíge, ao lado do Pe. Pedro Picoli e Ir. Silvio da Silva. Eram tempos de guerra e instabilidade, mas a Providência nunca nos abandonou. Vivíamos com o essencial, sustentados por uma fraternidade alegre e fiel.
Em 1999 fui enviado à Casa Mãe, na Itália, para os estudos de Teologia. Ali fiz os votos trienais em 2002, fui ordenado diácono em 2003 e sacerdote em 23 de janeiro de 2005. Desde então, a missão me levou a diversos países: Angola, Itália, Quênia (2007–2009) e, desde 2017, no Brasil.
Nestes 26 anos de caminhada missionária, posso testemunhar com convicção as palavras proféticas de São João Calábria: “Todo o mundo é de Deus.” Sim, todo o mundo é de Deus, e por onde passo, encontro irmãos, pais, mães e lares que revelam a ternura d’Ele. A missão não é um lugar onde se perde — é onde se ganha. Não é um fardo — é um dom. Dei pouco, mas recebi muito. O Senhor multiplica tudo aquilo que entregamos com amor.
Hoje, posso dizer com toda a verdade do meu coração: sou feliz por ser religioso consagrado, padre e missionário. E se posso dizer algo a quem escuta ou lê este testemunho, digo com alegria: não tenha medo de responder ao chamado de Deus. Onde Ele te chama, ali será também tua casa.
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