Pais segundo o Coração do Pai
"Feliz a família cujo pai tem os joelhos gastos pela oração e o coração firme na fé."
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08.08.2025 13:31:18 | 6 minutos de leitura

19º Domingo do Tempo Comum
Padre Rafael Pedro Susrina, psdp
A oração que elevamos a Deus no início desta Santa Missa é, ao mesmo tempo, simples e profunda: “Deus eterno e todo-poderoso, a quem ousamos chamar de Pai, dai-nos cada vez mais um coração de filhos, para alcançarmos um dia a herança que prometestes.” Essas palavras dizem muito sobre nossa vocação: somos chamados a viver como filhos diante de um Deus que é Pai. A partir dessa verdade fundamental, a liturgia deste domingo nos convida a contemplar o valor da fé e a importância da vigilância espiritual. Mas há uma pergunta que nos interpela com força: quem tem nos ensinado a viver como filhos de Deus? Quem tem sido para nós reflexo desse amor paternal? A resposta aponta para uma realidade que, hoje, precisa ser urgentemente redescoberta: a missão do pai na família cristã.
Vivemos tempos em que muitas famílias sofrem com a ausência – ou a fragilidade – da figura paterna. Em alguns lares, o pai está fisicamente presente, mas espiritualmente distante. Em outros, simplesmente desapareceu. O resultado disso é um vácuo afetivo, moral e espiritual que se alastra por gerações. Contudo, a Palavra de Deus revela algo extraordinário: temos um Pai eterno que jamais nos abandona. E os pais terrenos, por vocação, são chamados a tornar visível essa presença divina. Não se trata de um ideal romântico, mas de uma missão concreta, profunda e exigente. Um pai que ama de verdade não se esconde da sua missão, não silencia diante dos desafios, não terceiriza sua autoridade. Ele está presente. Com firmeza, com ternura, com amor que educa e que corrige. Amor que se doa até o fim.
Na primeira leitura, do Livro da Sabedoria (Sb 18,6-9), o povo de Israel espera com fé a salvação prometida. Mesmo nas trevas, eles perseveram, porque confiam em Deus. O pai cristão, à imagem dessa fé vigilante, deve ser o esteio que sustenta a esperança da família. Um lar cresce quando é guiado por alguém que sabe onde está seu coração. Mas hoje, é justo perguntar: Quantos pais ainda conduzem a oração em casa? Quantos ainda tomam a iniciativa de abençoar os filhos antes de dormir? Quantos jejuam pelas lutas espirituais da sua família? Não é falta de tempo. Não é só o cansaço. Muitas vezes, falta consciência da grandeza dessa vocação. Mas ainda é tempo. Sempre é tempo. Tempo de se levantar, de se ajoelhar, de voltar ao essencial. Feliz a família cujo pai tem os joelhos gastos pela oração!
Na segunda leitura (Hb 11,1-2.8-19), contemplamos a fé de Abraão. Ele crê sem ver, parte sem saber para onde vai, entrega seu próprio filho porque confia na promessa de Deus. Não há maior exemplo de paternidade espiritual do que aquele que se arrisca por amor e por fé. A autoridade do pai não nasce do controle, mas da confiança. Não se impõe pelo medo, mas se conquista pela coerência. E quando a fé vacila, há um caminho: a oração silenciosa, perseverante, confiante. É ali que o coração do pai se reeduca – e reeduca seus filhos. A pergunta que nasce é: o que tem guiado as decisões dos pais de hoje? A Palavra de Deus ou os ditames do mundo? A promessa do Reino ou o medo de desagradar os filhos?
O Evangelho (Lc 12,32-48) nos alerta: “Estejam com os rins cingidos e as lâmpadas acesas” – a vigilância não é uma opção, é condição para quem ama. Jesus fala do servo fiel a quem o Senhor confiará os seus bens. Em casa, esse servo fiel é o pai que não se omite, não se cansa de orientar, que não se fecha no celular ou no silêncio, mas que acende a luz da fé e vela pela família com amor, coragem e sacrifício. “A quem muito foi dado, muito será pedido.” E Deus confiou aos pais um bem inestimável: os filhos. Essa missão não é fardo. É graça. Não é prisão. É liberdade no amor.
Ao pedirmos um coração de filhos, reconhecemos nossa identidade diante de Deus. E os pais são chamados a transmitir essa identidade aos filhos, não com imposições, mas com testemunho; não com discursos, mas com gestos concretos. Educar é conduzir à verdade, corrigir é expressão de amor. A verdadeira autoridade se revela quando o pai ama sua esposa com respeito, escuta seus filhos com atenção, sabe dizer ‘sim’ com firmeza e ‘não’ com sabedoria, quando sabe perdoar – e pedir perdão. É nesse espaço, onde o pai é reflexo do Pai do Céu, que a família se torna um verdadeiro santuário, onde o céu toca a terra.
Por isso, neste domingo, rezemos especialmente pelos pais. Que redescubram a beleza e a urgência da sua missão. Que abandonem o medo, o cansaço, o desânimo, e reencontrem a alegria de ser pais à imagem do Pai Eterno. Você, pai, está esperando o quê para mudar? Esperando os filhos crescerem? Esperando que a esposa tome iniciativa? Esperando tempo, dinheiro, disposição? Não espere mais! Quem quer ser reflexo do Pai não espera o momento ideal: começa hoje. Recomeça agora. E a todos nós, o Senhor repete com ternura e autoridade: “Não tenhais medo, pequenino rebanho, porque foi do agrado do Pai dar-vos o Reino” (Lc 12,32). Deus é Pai. Ele nos educa, nos forma, nos levanta. Que cada lar se torne reflexo dessa paternidade divina. Que os pais façam de suas casas altares de fé, esperança e amor. E que todos nós, vivendo como filhos, um dia possamos herdar a vida eterna – a herança que o Pai nos prometeu.
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