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O clamor dos pobres é o clamor de Deus

Na eternidade não conta o luxo que tivemos, mas o amor que partilhamos; diante de Deus, só permanece o coração que soube reconhecer e servir os irmãos.

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25.09.2025 10:14:08 | 5 minutos de leitura

O clamor dos pobres é o clamor de Deus

26º Domingo do Tempo Comum

Padre Rafael Pedro Susrina, psdp

O Evangelho deste domingo (Lc 16,19-31) não é uma parábola qualquer. É uma palavra que atravessa os séculos para nos falar do destino eterno do homem e da gravidade de nossas escolhas. Jesus nos apresenta o contraste entre o rico anônimo e o pobre Lázaro. Um vivia em banquetes e luxo, indiferente à miséria à sua porta. O outro sofria, desprezado, esperando migalhas. Na eternidade, porém, os papéis se invertem: o pobre é consolado no seio de Abraão, e o rico experimenta tormentos.

A Liturgia abre com a voz profética de Amós (Am 6,1.4-7). Ele denuncia aqueles que se deitam em camas de marfim, banqueteiam-se e se perfumam, mas “não se afligem com a ruína de José”. É o retrato exato do rico da parábola: fechado em sua autossuficiência, cego diante da dor alheia. Não é a posse de bens que é condenada, mas o coração endurecido. Perguntemo-nos: não somos também tentados a viver anestesiados, distraídos, enquanto tantos irmãos padecem de fome e abandono?

Santo Ambrósio comenta que não é a riqueza em si que condena, mas o uso que dela se faz (Expositio Evangelii secundum Lucam VIII,16). O problema não era possuir bens, mas fechar o coração. São João Crisóstomo insiste: os bens que temos não são apenas nossos, mas dados por Deus para o bem comum (Homiliae in Lazarum). O rico não matou, não roubou, não cometeu crimes escandalosos: simplesmente ignorou o necessitado. E isso já bastou para sua perdição.

O detalhe é precioso: o pobre tem um nome – Lázaro, que significa “Deus ajuda”. O rico, que parecia ter tudo, permanece anônimo na eternidade. É como se o Evangelho dissesse: para Deus, não importam títulos e aparências, mas a verdade de um coração humilde. Maria já havia cantado no Magnificat: “Derrubou do trono os poderosos e elevou os humildes; encheu de bens os famintos e despediu de mãos vazias os ricos” (Lc 1,52-53).

O salmo responsorial (Sl 145) confirma essa lógica divina: “O Senhor faz justiça aos oprimidos, dá pão aos famintos, liberta os cativos”. É um salmo que revela a preferência de Deus pelos pequenos. Se Deus se inclina para os pobres, como poderíamos nós, cristãos, virar o rosto para eles? Não seria isso resistir ao próprio agir divino?

Na 2ª leitura (1Tm 6,11-16), São Paulo exorta Timóteo a fugir da avareza e a perseguir a justiça, a piedade, a fé e a caridade. A vida cristã é “bom combate”, não indiferença. O apóstolo convida a uma decisão clara: ou vivemos centrados em nós, ou nos abrimos ao amor que salva. O papa Bento XVI lembrava que “o amor ao próximo, enraizado no amor a Deus, é responsabilidade de cada fiel, mas também de toda a comunidade eclesial” (Deus Caritas Est, 20). Ou seja, não basta um gesto ocasional: é preciso fazer da caridade o estilo de vida.

O diálogo final da parábola é decisivo. Abraão diz ao rico: “Eles têm Moisés e os Profetas; que os escutem!”. Ou seja, a Palavra de Deus basta. São Jerônimo advertia: “Ignorar as Escrituras é ignorar o próprio Cristo” (In Isaiam, Prol.). Nós temos mais do que Moisés e os profetas: temos Cristo Ressuscitado, presente na Eucaristia e vivo na Igreja. Mas será que realmente O escutamos? Ou esperamos sinais extraordinários, enquanto fechamos os ouvidos à Palavra proclamada todos os domingos?

São João Paulo II alertava que a indiferença e a falta de solidariedade se tornaram pecados estruturais do nosso tempo (Sollicitudo Rei Socialis, 36). O rico da parábola pode ser também a imagem de sociedades inteiras, de comunidades ou até de paróquias que se fecham no conforto de suas tradições e não se deixam tocar pelo sofrimento humano. Será que nossa comunidade não corre o risco de se parecer com esse rico? Será que nossas famílias não se acomodam em um bem-estar egoísta, esquecendo-se dos “Lázaros” ao redor?

O Evangelho nos ensina que a eternidade depende do amor vivido no presente. Não se trata de medo, mas de responsabilidade: o modo como usamos os bens e tratamos os irmãos já prepara nosso destino eterno. Que não chegue para nós o dia em que ouviremos: “recebeste teus bens durante a vida, e agora és tu quem sofre” (cf. Lc 16,25). Antes, peçamos ao Senhor a graça de abrir os olhos, partilhar o que temos, cultivar a humildade e viver a caridade. Que possamos, como Lázaro, ter um nome diante de Deus, porque já aqui na terra aprendemos a confiar n’Ele e a amar os irmãos.


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