O Chamado de Cristo e os Desafios da Evangelização no Mundo Atual à Luz da Redemptoris Missio
“Ai de mim se não evangelizar!” (1Cor 9,16) — dizia São Paulo. Ai de nós, se não o fizermos hoje.
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09.07.2025 10:06:08 | 5 minutos de leitura

A missão da Igreja não terminou — ela está apenas começando. Essa é a forte convicção que atravessa toda a Carta Encíclica Redemptoris Missio, publicada por São João Paulo II em 1990. O documento, escrito por ocasião dos 25 anos do Decreto Ad Gentes do Concílio Vaticano II, permanece hoje mais atual do que nunca, sobretudo diante dos dramáticos desafios da evangelização em tempos de secularização, relativismo e crescente indiferença religiosa.
Um apelo profético
Jesus ordena: “Ide, antes, às ovelhas perdidas da casa de Israel!” (Mt 10,6). Este versículo ilumina de maneira singular o apelo missionário que a Igreja é chamada a viver com novo ardor. Em nossa época, as “ovelhas perdidas” não estão apenas em terras longínquas. Elas estão dentro de nossas famílias, em nossos bairros, nos bancos esvaziados das igrejas, em jovens batizados que abandonaram a fé ou nunca chegaram a vivê-la verdadeiramente.
São João Paulo II não se esquivou dessa realidade. Com profunda clareza, ele afirmou que, mesmo após dois mil anos da vinda de Cristo, a missão da Igreja “ainda está no início” (Redemptoris Missio, n. 1). O cenário global se modificou, e com ele emergiram novas “fronteiras” missionárias: as grandes cidades, os meios de comunicação, os ambientes culturais secularizados, o mundo do trabalho e da política — todos se tornaram verdadeiros areópagos contemporâneos.
A validade permanente do mandato missionário
Na Redemptoris Missio, o Papa reafirma que a evangelização é dever supremo de todo cristão, de todas as dioceses e paróquias. Ele alerta que o mandato missionário não pode ser diluído num vago diálogo inter-religioso ou em meras ações humanitárias. O primeiro anúncio — o kerigma — é insubstituível: Jesus Cristo, morto e ressuscitado, é o único Salvador da humanidade (cf. At 4,12). A Igreja não pode renunciar a proclamar a verdade com caridade, e a convidar à conversão aqueles que ainda não conhecem ou abandonaram o Evangelho.
“Não podemos calar-nos” — exclama o Papa, ecoando os Apóstolos (cf. At 4,20). O silêncio da fé é uma tragédia pastoral. A missão da Igreja, longe de ser uma opção, é um imperativo. Deixar de anunciar o Evangelho é negar ao mundo a possibilidade de conhecer o sentido último da vida.
Os desafios da nova evangelização: resgatar os batizados afastados
Uma das maiores contribuições da Redemptoris Missio está na compreensão das diferentes situações missionárias. São João Paulo II distingue entre:
1. Missão ad gentes: entre os povos que nunca ouviram falar de Cristo.
2. Ação pastoral ordinária: onde a Igreja está consolidada.
3. Nova evangelização ou reevangelização: para os batizados que se afastaram da fé.
É aqui que o grito de Cristo — “Ide às ovelhas perdidas” — ressoa com especial força. O Papa advertia que muitos povos de tradição cristã tornaram-se verdadeiros “campos de missão”. Vivemos hoje essa realidade: países outrora evangelizados estão marcados pelo abandono da prática religiosa, pelo relativismo moral, pela dissolução das verdades da fé, e pela busca de espiritualidades vazias de Cristo.
A resposta a esse fenômeno não pode ser outra senão a recatequese. E aqui a palavra do Papa se torna urgente: é preciso formar comunidades vivas, paróquias missionárias, famílias evangelizadoras. A Igreja precisa sair de si, deixar a zona de conforto e tornar-se discípula missionária, como exortava também o Papa Francisco. O ardor apostólico não é opcional: ou a Igreja evangeliza, ou ela deixa de ser Igreja.
Uma espiritualidade missionária
A missão é obra do Espírito Santo, protagonista da evangelização. Por isso, a evangelização exige espiritualidade profunda, vida de oração, docilidade ao Espírito, amor ardente à Palavra e aos sacramentos. O missionário, escreve o Papa, é um “contemplativo na ação”, que anuncia o Evangelho com palavras e, sobretudo, com a vida.
A santidade é o solo fecundo da missão. Os santos são os grandes evangelizadores. Em tempos de crise de fé e de vocações, não é a técnica pastoral, mas a radicalidade do Evangelho que atrai os corações. Só uma Igreja transfigurada pelo Espírito poderá reacender nos corações dos batizados a paixão por Cristo e pela salvação das almas.
Maria, estrela da evangelização
A Redemptoris Missio termina como começou: com Maria. Ela é modelo e estrela da missão. É aquela que, tendo acolhido a Palavra no coração, “pôs-se a caminho apressadamente” (cf. Lc 1,39) para servir e evangelizar. Nela, a Igreja encontra seu modelo e sua força: ir ao encontro, com pressa e alegria, das “ovelhas perdidas”, levando a luz do Evangelho.
Uma Igreja em saída, uma fé missionária
Vivemos um tempo em que muitos se afastaram, mas não estão perdidos para sempre. Deus continua a chamar, e a Igreja é o eco desse chamado. A Redemptoris Missio é uma carta de amor à missão, uma convocação para que todos os fiéis assumam sua identidade de evangelizadores. Recatequizar não é um programa secundário, mas uma prioridade urgente.
Não se trata de “impor uma religião”, mas de anunciar o Deus que salva, de dar testemunho da esperança, de chamar os filhos à Casa do Pai.
“Ai de mim se não evangelizar!” (1Cor 9,16) — dizia São Paulo. Ai de nós, se não o fizermos hoje.
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Pe. Hermes José Novakoski, psdp
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