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Liturgia: serviço, comunhão e vida

Celebrar a Liturgia é deixar Deus conduzir o coração do seu povo: é serviço, comunhão e vida que nascem da obediência amorosa ao Mistério.

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17.10.2025 16:00:00 | 6 minutos de leitura

Liturgia: serviço, comunhão e vida

Padre Rafael Pedro Susrina, psdp

Introdução

Falar sobre Liturgia, no Brasil ou em nossa Congregação, ainda é considerado um tema delicado. Apesar disso, é fundamental construir um caminho de reflexão sobre o que realmente é Liturgia – e não apenas aquilo que “eu” penso que seja. Não se trata de ficar preso ao que se estudou em cursos ou faculdades, pois, dependendo da abordagem recebida, a Liturgia pode ter sido apresentada de forma “progressista”, sem referência aos documentos da Igreja e à orientação dos Santos Padres.
Como disse Dom Armando Bucciol, ex-presidente da Comissão Episcopal Pastoral de Liturgia da CNBB, na 56ª Assembleia Geral: “Ninguém na Igreja é dono da liturgia. Eu não sou dono, sou servidor. Também o Papa é servidor da Igreja. Portanto, não podemos manipulá-la ao nosso bel prazer segundo o que chamamos de ‘criatividade selvagem e fantasia’.” Somos convidados a abrir nossa mente e coração para que Deus conduza a Liturgia e nos mostre o caminho da verdadeira celebração.

O que é Liturgia? 

Liturgia significa “serviço da parte do povo e em favor do povo” (Catecismo da Igreja Católica, n. 1069). Liturgia é serviço, missão e ação da comunidade, realizada para o bem de todos. Algumas reflexões importantes:

• Não é uma atividade isolada ou individualista.
• É a expressão da unidade da Igreja.
• É obra do Povo de Deus, e não de um grupo específico ou de uma pessoa.

Pergunta: Estamos conscientes de que a Liturgia é uma ação comunitária, que nos une em torno de Deus, ou ainda a tratamos como algo pessoal?

Para que Liturgia?

A Liturgia celebra a obra da redenção realizada por Cristo, especialmente pelo mistério pascal – paixão, morte, ressurreição e ascensão: “Esta obra da redenção humana e da perfeita glorificação de Deus, da qual foram prelúdio as maravilhas divinas operadas no povo do Antigo Testamento, completou-a Cristo Senhor, principalmente pelo mistério pascal de sua bem-aventurada paixão, ressurreição dos mortos e gloriosa ascensão. Por este mistério, Cristo ‘morrendo, destruiu nossa morte, e ressuscitado, recuperou nossa vida’. Pois do lado de Cristo adormecido na cruz nasceu o admirável sacramento de toda a Igreja.” (Sacrosanctum Concilium, n. 5)

Celebrar a Liturgia é reconhecer que Cristo realizou nossa redenção e nos chama a participar desta ação. Quando esquecemos seu verdadeiro sentido, abrimos espaço para banalizações ou práticas que desvirtuam o sacrifício de Cristo.

Outra citação importante: “Com efeito, a liturgia, pela qual, principalmente no divino sacrifício da Eucaristia, ‘se exerce a obra de nossa redenção’, contribui do modo mais excelente para que os fiéis, em sua vida, exprimam e manifestem aos outros o mistério de Cristo e a genuína natureza da verdadeira Igreja.” (SC, n. 2)

Quem é o sujeito da Liturgia?

Embora a Liturgia seja realizada pelo povo, Deus é o sujeito principal. Bento XVI explica: “é o ato no qual cremos que Deus entra na nossa realidade e nós o podemos encontrar e tocar. É o ato no qual entramos em contato com Deus: Ele vem a nós, e nós somos iluminados por Ele. Por isso, quando nas reflexões sobre a liturgia focalizamos apenas o modo como a tornar atraente, interessante e bonita, corremos o risco de esquecer o essencial: a liturgia celebra-se para Deus, e não para nós mesmos; é obra sua; Ele é o sujeito; e nós devemos abrir-nos a Ele e deixar-nos guiar por Ele e pelo seu Corpo, que é a Igreja.”¹

O Papa Francisco reforça que a Liturgia é um tesouro vivo, que não pode ser reduzido a gostos pessoais, tendências ou ideologias: A liturgia deve “reconhecer a realidade da sagrada liturgia, tesouro vivo que não pode ser reduzido a gostos, receitas nem correntes, mas deve ser ouvido com docilidade e promovido com amor, porque é alimento insubstituível para o crescimento orgânico do Povo de Deus. A liturgia não é ‘autoajuda’ mas epifania da comunhão eclesial. Por conseguinte, nas orações e nos gestos ressoa o “nós” e não o “eu”; a comunidade real, não o sujeito ideal. Quando se desejam nostalgicamente tendências passadas ou se querem impor outras novas, corre-se o risco de antepor a parte ao todo, o eu ao Povo de Deus, o abstrato ao concreto, a ideologia à comunhão e, no fundo, o mundano ao espiritual”.²

Mesmo sendo um serviço realizado pelo povo, a Liturgia não é protagonizada por nossa criatividade ou preferência. Ela é obra de Deus, e nós somos meros instrumentos “da multiforme graça de Deus” (1 Pd 4,10).

Pergunta: Estamos conscientes de que nossa participação deve ser sempre humilde e obediente à ação de Deus, ou ainda buscamos destacar nossas ideias ou gostos pessoais?

Quem celebra a Liturgia?

A Liturgia une céu e terra em uma só celebração. Entre os celebrantes estão:

• Deus Pai, Cristo e o Espírito Santo;
• as potências celestes e toda a criação; 
• os servos da antiga e nova aliança; 
• os mártires e a Santa Mãe de Deus; 
• toda a comunidade dos batizados na terra (cf. CEC, n. 1136-1141; SC, n. 26).

Na Liturgia, Cristo realiza especialmente seu mistério pascal (cf. CEC, n. 1085) e confia aos Apóstolos e seus sucessores o poder de santificação (cf. CEC, n. 1087). Cristo está sempre presente em sua Igreja, sobretudo nas ações litúrgicas (cf. SC, n. 7).

“As ações litúrgicas não são ações privadas, mas celebrações da Igreja, que é ‘sacramento de unidade’, isto é, Povo santo reunido e ordenado sob a direção dos Bispos.” (SC, n. 26)

Liturgia: fonte de oração, vida e força

• Fonte de oração: nos une à oração de Cristo ao Pai no Espírito Santo.
• Fonte de vida: a Eucaristia é “fonte de toda a vida cristã” (Lumen Gentium, n. 11).
• Fonte de força: dela emana toda a vitalidade da Igreja (cf. SC, n. 10).

Viver a Liturgia é reconhecer que: “Somos servos inúteis; fizemos o que devíamos fazer” (Lc 17,10).

Reflexão final

São João Calábria, na Solenidade de Páscoa, reforça a importância da Liturgia: “A isso nos convida a Igreja com as comoventes expressões da sagrada liturgia, exortando-nos a depor o homem velho e a revestir-nos do homem novo. Se realmente ressuscitastes com Cristo, procurem as coisas do alto, nada mais desejando a não ser as coisas do céu: ‘quae sursum sunt, quaerite, quae sursum sunt sapite.’"³

Celebrar a Liturgia é acolher o Deus vivo que nos chama à comunhão, à conversão e à vida nova. É serviço, é vida, é graça.


______

¹ BENTO XVI, Papa. Audiência Geral, 3 out. de 2012. Disponível em: http:// www.vatican.va/content/benedict-xvi/pt/audiences/2012/documents/hf_ben-xvi_aud_20121003.html. Acesso em: 03 dez. 2019

² FRANCISCO, Papa. Discurso aos participantes na Assembleia da Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos, 14 de fev. de 2019. Disponível em: http:// http://www.vatican.va/content/francesco/pt/speeches/2019/february/documents/papa-francesco_20190214_cong-culto-divino.html. Acesso em: 06 dez. 2019.

³ CALÁBRIA, Pe. João. Carta aos Religiosos: Carta LVI – Sábado Santo, 25 de mar. de 1948.

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