JPIC na Obra Calabriana: mentalidade, sensibilidade, prática
Colóqui do Casante, Pe. Massimiliano Parrella
Artigos
25.11.2025 20:36:38 | 5 minutos de leitura

1. Introdução
Queridos irmãos e irmãs,
Agradeço este espaço de diálogo. Hoje falamos da JPIC – Justiça, Paz e Integridade da Criação – não como um setor ou um projeto, mas como uma conversão de mentalidade, de sensibilidade e de prática que toca a identidade mesma da Obra Don Calabria.
São João Calábria talvez não tenha usado este acrônimo, mas viveu plenamente aquilo que hoje chamamos JPIC. Seu desejo de “refazer o mundo no Evangelho” significa exatamente isso: construir relações justas, promover a paz, custodiar a vida e a criação.
Por isso, a JPIC não é algo a mais, mas um modo de pensar, de sentir e de agir que deve atravessar toda a nossa vida carismática.
2. A mentalidade JPIC: um novo modo de olhar o mundo
A mentalidade é o primeiro nível da conversão. Significa assumir uma visão evangélica e calabriana da realidade.
a) Mentalidade de Providência ativa
A Providência não é delegar nem esperar passivamente. É responsabilidade, presença, é a arte de “fazer a nossa parte” com confiança e justiça.A mentalidade JPIC nos pede para ler os acontecimentos não com fatalismo, mas com um olhar que busca a dignidade de cada pessoa e o cuidado do bem comum.
b) Mentalidade do Evangelho dos últimosJustiça e paz nascem de baixo: do ponto de vista dos pobres, dos pequenos, dos feridos.Nosso fundador dizia: “Os pobres são nossos patrões”. Uma Congregação que coloca os pobres no centro adota automaticamente uma mentalidade JPIC.
c) Mentalidade de fraternidade universalNum mundo marcado por muros, polarizações e agressividade, a Obra é chamada a oferecer uma mentalidade de fraternidade concreta.O Evangelho da paz não é utopia: é uma leitura da realidade que privilegia o diálogo, a reconciliação, a mansidão como força.
3. A sensibilidade JPIC: um coração formado pelo Evangelho e pela realidade
A mentalidade gera sensibilidade: é o modo de sentir, de deixar-se tocar, ferir, provocar.
a) Sensibilidade espiritual• Educar o coração à paz interior, porque não existe paz social sem paz interior.• Cultivar uma sensibilidade contemplativa que reconhece a presença de Deus nos pobres, na história e na criação.• Deixar-se formar por Laudato Si’ e Fratelli Tutti, que são textos profundamente calabrianos em seu espírito.
b) Sensibilidade socialÉ a capacidade de sentir na própria pele as feridas dos povos, dos jovens e das famílias que acompanhamos.Significa:• indignar-se diante da injustiça,• escutar o grito dos pequenos,• não se acostumar com a dor do outro,• desenvolver uma consciência crítica e compassiva.
c) Sensibilidade ecológicaNão se trata apenas de reciclar ou economizar água, mas de uma percepção integral: a criação é relação, e ferir a natureza significa ferir o ser humano.A sensibilidade ecológica é uma extensão natural do espírito da Obra, que vê a vida como um dom a ser cuidado.
4. A prática JPIC: escolhas que transformam a vida e as obras da Opera
A mentalidade e a sensibilidade tornam-se credíveis somente quando se traduzem em práticas, em decisões e ações concretas.
4.1. Formação integral dos religiosos, leigos e obras
A JPIC deve entrar de forma estável: • nos programas formativos da vida religiosa, • nos percursos dos leigos, • na formação permanente.Propor módulos sobre paz evangélica, não violência, ecologia integral e leitura cristã da realidade.
4.2. Prática comunitáriaNossas comunidades são chamadas a ser laboratórios de paz e escolas de fraternidade: • estilo manso e não agressivo, • gestão dialogada dos conflitos, • relações que mostram o Evangelho antes das palavras.A comunidade que vive assim já realiza evangelização social.
4.3. Prática pastoral e socialEm nossas paróquias, escolas, centros sociais e casas de acolhida, a JPIC não pode ser um “tema”, mas um estilo: • proteção dos menores, • acolhida dos frágeis, • educação para cidadania responsável, • defesa dos direitos dos mais vulneráveis.A missão da Obra já é, em si, uma prática de JPIC: precisamos apenas torná-la mais consciente e compartilhada.
4.4. Prática ecológica integralCada presença da Obra pode tornar-se um “canteiro Laudato Si’”: • uso ético dos recursos, • cuidado com os ambientes que habitamos, • projetos educativos que unem natureza e relações, • atenção às populações mais vulneráveis às mudanças climáticas.
4.5. Uma rede JPIC da ObraCriar ou fortalecer um pequeno grupo internacional que: • coordene, • recolha experiências, • apoie os responsáveis locais, • favoreça formação comum, • lance iniciativas simbólicas e proféticas nos diversos continentes.
5. Uma visão para o futuro: a força dos mansosO caminho que a JPIC nos abre está profundamente em sintonia com a minha carta deste ano: “A força dos mansos. O poder dos perdedores.”No tempo da dureza e da violência verbal e social, a Obra é chamada a uma presença que não imita a lógica do poder, mas revela a sua fragilidade.
A mansidão é a força que constrói.A fraternidade é a força que cura.A paz é a força que regenera.A justiça é a força que devolve dignidade.E a criação é a casa comum onde tudo isso pode tornar-se realidade.
6. Conclusão
A JPIC não é um projeto: é uma mentalidade a assumir, uma sensibilidade a cultivar, uma prática a viver.
Se como Obra Calabriana soubermos crescer nesses três níveis, continuaremos a ser no mundo aquele sinal que o nosso fundador desejava: uma fraternidade que testemunha Deus com a vida mais do que com as palavras.
“Só Deus!” significa: Deus no centro, e cada irmão e irmã dentro do nosso coração, das nossas escolhas, da nossa responsabilidade.
Pe. Massimiliano ParrellaCasante
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