Irmão Silvio da Silva
“O Espírito do Senhor está sobre mim, porque Ele me ungiu para evangelizar os pobres; enviou-me para proclamar a remissão aos presos e aos cegos a recuperação da vista, para restituir a liberdade aos oprimidos. E para proclamar um ano de graça do Senhor” (Lc 4,18-19).
Storytelling Vocacional
09.08.2025 07:00:00 | 7 minutos de leitura

Projeto Corações Consagrados: Vozes da Vocação Calabriana
O Caminho da Providência: a história e missão do Irmão Silvio da Silva
Meu nome é Irmão Silvio da Silva. Nasci no dia 7 de março de 1959, em Santópolis do Aguapeí, interior de São Paulo. Sou o primeiro de onze irmãos. Mas, ainda bebê, minha família mudou-se para o Mato Grosso — hoje Mato Grosso do Sul. Foi ali que cresci, entre fazendas e plantações, aprendendo desde cedo o valor do trabalho e da simplicidade.
Como muitos vocacionados, vim de uma família muito humilde. Estudei na escola da fazenda até o quarto ano, mas precisei parar por uns quatro anos, porque a cidade era longe e não tinha como continuar. Além disso, eu precisava ajudar em casa. Trabalhava junto com meus pais no serviço rural.
Foi em 1971 que, ainda morando numa fazenda distante chamada Lagoa do Côco, apareceu por lá um padre italiano, o Pe. José Dusi, Pobre Servo da Divina Providência. Alto, muito branco, com um português difícil de entender... Mas foi ele quem me convidou para ir à missa pela primeira vez. Eu tinha doze anos. Não sabia o que era uma missa, mas fomos, e aquilo me marcou. Depois, o padre passou a vir todo mês, trazendo junto o Irmão Mario Bonomi, outro italiano. Comecei a frequentar a catequese, a ajudar nas missas. Ali, tudo era muito novo para mim.
Em 1974, o Pe. Dusi nos chamou para o Seminário Menor em Rio Brilhante. Eu fazia parte do grupo vocacional, mas quando chegou a lista de coisas que precisávamos levar, minha família disse que eu não iria: não tínhamos condições. Fui contar ao Pe. Dusi, e ele me disse apenas: “Confia na Providência”. Na época, eu nem sabia o que isso queria dizer de verdade. Mas entendi logo: um dia, chegando do trabalho, vi uma mala italiana em cima da minha cama. Dentro dela estava tudo o que eu precisava para o seminário. Era a Providência acontecendo diante de mim. As famílias da paróquia tinham se mobilizado, com a ajuda das Irmãs Pobres Servas.
Assim, em 1975, com 16 anos, fui para o Seminário em Rio Brilhante. Fiz lá o sexto ano. No ano seguinte, pensei que iria voltar à rotina de antes, mas o Pe. Dusi já tinha preparado outra coisa: queria que eu viesse para o Seminário Apostólico em Farroupilha, no Rio Grande do Sul. Eu e meus pais ficamos assustados. Era muito longe. A primeira resposta foi que não. Mas novamente a Providência falou: no dia do meu aniversário de 17 anos, 7 de março de 1976, eu cheguei em Farroupilha, já atrasado para o começo das aulas.
Os primeiros dias foram muito difíceis. Já tinha 17 anos, e estudar no meio de meninos pequenos me deixava desconfortável. Mas com o tempo fui me acostumando. Até que veio uma crise: nas primeiras notas, fiquei com insuficiente em matemática. Pensei que talvez fosse um sinal para desistir. Mas conversei com a Irmã Gemma Consolaro, que me disse: “E nas outras matérias, como está?” Eu respondi que estava bem. E ela disse: “Confia na Providência”. De novo essa palavra. Pedi ajuda aos colegas, e no bimestre seguinte tirei 8,0. Foi aí que prometi a mim mesmo: por notas, eu nunca mais iria embora.
Terminei o ensino fundamental e, em 1978, fui para o ensino médio em Porto Alegre. Ali tudo era maior: cidade grande, pessoas grandes. Minha vida começava a entrar no mundo dos adultos. Foram três anos de muito estudo e aprendizado. Minhas convicções se fortaleceram.
Depois veio o postulantado, e fui trabalhar no CPM, hoje CPIJ, na Restinga. Ali eu me encontrei. Entendi que Deus me queria Irmão, não padre. Confirmou-se em mim essa certeza, mesmo que, de vez em quando, surgissem propostas para o sacerdócio. Mas no discernimento, sempre dava Irmão. Fui para o noviciado em 1983 e, em 1984, fiz minha primeira profissão religiosa, com a presença dos meus pais.
Depois disso, voltei para a Restinga e comecei meus estudos de Pedagogia em Viamão. Em 1985, fui para a Escola São João Calábria, na Vila Nova, onde fiquei até 1987 e concluí o curso.
Em janeiro de 1988, começou uma das maiores experiências da minha vida: missão em Angola, no Uíge. Fiquei lá por dois anos. Depois retornei ao Brasil, passando pelo Rio Grande do Sul, Mato Grosso do Sul, Ceará... E em 1997 voltei a Angola pela segunda vez, agora por oito anos: quatro no Uíge e quatro em Luanda. Voltei em 2005.
De 2006 a 2007, vivi outra bela experiência em Marituba, no Pará. E em 2007 fui para Campo Grande, na Paróquia São João Calábria. Confesso: não queria muito, mas acabei ficando quase oito anos. Ali aprendi muito, inclusive sendo presidente regional da CRB, a Conferência dos Religiosos do Brasil. Foi uma escola de Vida Religiosa e de serviço aos mais vulneráveis.
Entre 2012 e 2014, estive em Roma para estudar. Outro momento marcante: experimentar a grandeza de Roma, das Universidades, principalmente São João de Latrão e Sagrado Coração de Milão.
Em 2014, passei rapidamente por Feira de Santana, e depois fui para Batayporã, Mato Grosso do Sul, na Paróquia Santo Antônio, onde fiquei até 2020. Mesmo estando lá, em 2015 fui convidado para colaborar com o Regional Oeste 1 da CNBB, onde permaneci até o fim de 2022. Foram anos muito ricos, de muito contato com a Igreja, os bispos, as pastorais.
Desde 2023, estou em Porto Alegre, na Sede da Delegação Nossa Senhora Aparecida, no Setor da Formação.
Muita gente me pergunta: por que Irmão? Eu digo: não sei explicar. A vocação é uma resposta que a gente dá a Deus. Se querem saber mesmo, têm que perguntar a Ele: “O que foi que o Senhor viu no Silvio?” O certo é que, apesar da minha pequenez, Deus me deu tudo sem nenhum merecimento. Já me livrou de tantas coisas que poderiam ter destruído minha vida.
Onde foi que eu descobri que Deus me queria? Foi lendo e relendo um livrinho que ganhei do Pe. José Dusi: Retornemos ao Evangelho.
O que fundamenta minha vida como Irmão é uma frase do Evangelho que carrego na alma e no coração:
“O Espírito do Senhor está sobre mim, porque Ele me ungiu para evangelizar os pobres; enviou-me para proclamar a remissão aos presos e aos cegos a recuperação da vista, para restituir a liberdade aos oprimidos. E para proclamar um ano de graça do Senhor” (Lc 4,18-19).
Isso está tatuado em mim. Não tem como colocar num relato tudo o que a gente vive e sente. Só posso dizer: mesmo se algo dá errado de vez em quando, eu faria tudo de novo. Talvez de um jeito melhor. Mas faria tudo de novo.
Quem está na Vida Religiosa não está porque não teve opção. A gente está porque só é feliz quem faz a vontade de Deus. E eu creio que ser Irmão é mais do que minha vontade: é a vontade de Deus. Por isso, sou feliz. Não faço o que eu quero: faço o que o Senhor me pede.
Se sou feliz? Muito. Se sou realizado? Demais. Minha vida me levou por caminhos que nem nos meus melhores sonhos teria imaginado.
Da minha parte, só gratidão a Deus que me escolheu e à Congregação dos Pobres Servos, que me acolheu e me deu um caminho chamado Carisma: Buscar em primeiro lugar o Reino de Deus e sua Justiça, abandonado nas mãos da Divina Providência.
E se me perguntarem se eu gostaria de mudar de vida, eu digo com toda clareza: mesmo que eu quisesse, acho que não sei ser outra coisa a não ser Irmão.
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