Irmão Francisco Perez - Cap. II
Na pobreza escolhida, Francisco encontrou a mais alta liberdade: entregar tudo para pertencer somente a Deus.
Storytelling Vocacional
17.09.2025 08:31:24 | 3 minutos de leitura

Capítulo II — O Sim Radical
Francisco sabia que a Providência não erra de endereço. Desde os primeiros encontros com o Pe. João Calábria, percebia que ali havia algo mais do que amizade: havia vocação, sintonia espiritual, um apelo discreto mas insistente que falava diretamente à sua alma. No entanto, o caminho até dar o passo definitivo na vida consagrada não foi imediato. Era preciso romper com muito mais do que as posses materiais.
Durante anos, mesmo sendo um benfeitor e colaborador próximo, Francisco não era admitido na Casa dos Bons Meninos. A razão era clara: ainda havia bens em seu nome. Apesar de sua generosidade, o Pe. Calábria mantinha-se firme. Sabia que a lógica do Evangelho exige total confiança em Deus, e não em seguranças humanas. “Vai, vende tudo o que tens, dá aos pobres e terás um tesouro no céu; depois vem e segue-me” (cf. Lc 18,22). A fidelidade radical ao carisma da Providência pedia essa coerência.
O impasse trouxe sofrimento. Francisco desejava ardentemente pertencer àquela família espiritual. Mas seu ingresso estava condicionado a uma renúncia total — não apenas dos bens, mas também de qualquer projeção ou prestígio social que seu título de conde pudesse ainda representar.
Foi então que a intervenção do Pe. Natal de Jesus, confessor tanto de Francisco quanto de Calábria, desatou o nó. Disse-lhe com firmeza: “Se o senhor, seu Francisco, quer de verdade servir a Deus na Casa Bons Meninos, venda o que tem, entregue-o aos pobres como melhor lhe aprouver, e assim, pobre entre os pobres, poderá ser aceito”.
A resposta foi imediata e definitiva. Francisco vendeu tudo o que possuía em Zévio, Casaleone e outros lugares. Como alguém que experimenta a falência voluntária em nome de algo maior, renunciou aos cargos civis, desligou-se das associações, cortou relações sociais. Em paz, mas com a alma em chamas, despediu-se da família e entrou na Casa com a mochila dos pobres.
Era o dia 20 de agosto de 1909. Ingressava ali como mais um — e menos que todos — entre os Pobres Servos da Divina Providência.
Muito tempo depois, escreveria ao Pe. João uma carta comovente, datada de 07 de dezembro de 1917: “Inteirei já dez anos desde quando tive a força de me dedicar ao serviço destes meninos abandonados. Como foi bom comigo o Senhor, pois a minha vida não merecia esta grande graça”.
O passo fora dado. O que parecia um escândalo aos olhos do mundo — um conde entregando tudo e abraçando a pobreza — era, aos olhos da fé, um ato de altíssima liberdade. A partir dali, não haveria mais volta. Francisco Perez pertencia, corpo e alma, à Providência.
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