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Inteligência com Alma: Ética, Verdade e Esperança na Era da IA

"A verdadeira sabedoria não está na abundância de dados, mas na capacidade de reconhecer o sentido profundo da vida e servir à dignidade de cada pessoa." — Leão XIV

Igreja

20.06.2025 15:27:55 | 5 minutos de leitura

Inteligência com Alma: Ética, Verdade e Esperança na Era da IA

MENSAGEM DO SANTO PADRE LEÃO XIV
AOS PARTICIPANTES DA SEGUNDA CONFERÊNCIA ANUAL
SOBRE INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL, ÉTICA E GOVERNANÇA EMPRESARIAL

[Palácio Piacentini (via Veneto, sede do MIMIT) e Sala Régia do Palácio Apostólico no Vaticano, 19-20 de junho de 2025]

Por ocasião desta Segunda Conferência Anual de Roma sobre Inteligência Artificial, estendo meus votos de bênçãos e preces a todos os participantes. A presença de vocês testemunha a urgência de uma reflexão profunda e de um debate contínuo sobre a dimensão intrinsecamente ética da inteligência artificial, assim como sobre sua gestão responsável. A esse respeito, alegra-me saber que o segundo dia da Conferência será realizado no Palácio Apostólico, sinal claro do desejo da Igreja de participar ativamente desses debates que dizem respeito, de modo direto, ao presente e ao futuro de toda a família humana.

Junto ao extraordinário potencial de benefício para a humanidade, o rápido desenvolvimento da inteligência artificial levanta também questões profundas sobre o uso correto dessa tecnologia para promover uma sociedade global mais justa e mais humana. Nesse sentido, embora seja inegavelmente um produto notável do gênio humano, a inteligência artificial é “antes de tudo um instrumento” (Papa Francisco, Discurso na Sessão do G7 sobre Inteligência Artificial, 14 de junho de 2024). Por definição, os instrumentos remetem à inteligência humana que os criou e extraem muito de sua força ética das intenções de quem os utiliza. Em alguns casos, a inteligência artificial tem sido usada de maneira positiva e até nobre, promovendo maior igualdade, mas também existe o risco de seu uso indevido para ganhos egoístas à custa dos outros ou, pior ainda, para fomentar conflitos e agressões.

Por sua parte, a Igreja deseja contribuir com um debate sereno e bem fundamentado sobre essas questões urgentes, destacando, antes de tudo, a necessidade de avaliar as implicações da inteligência artificial à luz do “desenvolvimento integral da pessoa e da sociedade” (Nota Antiqua et nova, n. 6). Isso significa considerar o bem-estar humano não apenas sob o aspecto material, mas também intelectual e espiritual; significa proteger a dignidade inviolável de cada pessoa humana e respeitar as riquezas culturais e espirituais, bem como a diversidade dos povos do mundo. Em essência, é preciso avaliar os benefícios e riscos da inteligência artificial a partir desse critério ético superior.

Infelizmente — como sublinhou o saudoso Papa Francisco — nossas sociedades hoje vivem certo “desencaminhamento, ou ao menos um eclipse do sentido do humano”, o que nos desafia a todos a refletir com mais profundidade sobre a verdadeira natureza e a singularidade da dignidade humana comum (Discurso na Sessão do G7 sobre Inteligência Artificial, 14 de junho de 2024). A inteligência artificial, especialmente a generativa, abriu novos horizontes em muitos campos, como a pesquisa médica e as descobertas científicas, mas também levanta preocupações quanto ao impacto sobre a abertura do ser humano à verdade e à beleza, sobre nossa capacidade única de compreender e elaborar a realidade. Reconhecer e respeitar aquilo que caracteriza de modo singular a pessoa humana é essencial em qualquer debate sério sobre um marco ético adequado para a gestão da inteligência artificial.

Todos nós — tenho certeza — estamos preocupados com as crianças e os jovens, e com as possíveis consequências do uso da inteligência artificial em seu desenvolvimento intelectual e neurológico. Nossos jovens devem ser ajudados, e não prejudicados, em seu caminho rumo à maturidade e à responsabilidade autêntica. Eles são nossa esperança para o futuro, e o bem-estar da sociedade depende de que possam desenvolver os dons e capacidades que receberam de Deus, respondendo às exigências do tempo e às necessidades dos outros com espírito livre e generoso. Nenhuma geração teve acesso tão rápido à imensidão de informações que hoje estão disponíveis graças à inteligência artificial. Mas, mais uma vez, acesso a dados — por mais vastos que sejam — não deve ser confundido com inteligência, que “implica necessariamente a abertura da pessoa às questões últimas da vida e reflete uma orientação para a Verdade e o Bem” (Antiqua et nova, n. 29). No fim, a verdadeira sabedoria está mais em reconhecer o sentido profundo da vida do que em ter à disposição uma infinidade de dados. À luz disso, queridos amigos, expresso minha esperança de que suas deliberações considerem a inteligência artificial também no contexto do necessário aprendizado intergeracional, que permita aos jovens integrar a verdade em sua vida moral e espiritual, influenciando suas decisões maduras e abrindo o caminho para um mundo com maior solidariedade e unidade (cf. ibid., n. 28). A tarefa diante de vocês não é simples, mas é de vital importância. Agradecendo profundamente o empenho atual e futuro de cada um, invoco de coração sobre vocês e suas famílias as bênçãos divinas da sabedoria, da alegria e da paz.

Do Vaticano, 17 de junho de 2025.

LEÃO PP. XIV

Fonte: Dicastero per la Comunicazione.

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