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VIDA É DOM. VIDA É DOAÇÃO. VALORIZAR A VIDA É DOAR-SE.

Doador de órgãos: por que não sou um?

Artigos

11.09.2025 07:00:00 | 4 minutos de leitura

VIDA É DOM. VIDA É DOAÇÃO. VALORIZAR A VIDA É DOAR-SE.

Padre Rafael Pedro Susrina, psdp

A vida: imagem e semelhança de Deus

Os cristãos católicos afirmam o valor absoluto e inviolável da vida humana. A partir desse princípio, é justo perguntar: estamos defendendo todas as dimensões da vida ou esquecendo algumas realidades?

A dignidade nasce do ato criador de Deus: “Façamos o homem à nossa imagem e semelhança” (Gn 1,26). A vida de cada pessoa está enraizada em Deus, por isso é sagrada. A Igreja Católica, “a favor da vida humana e de sua inviolabilidade”, conclama a humanidade a respeitar, defender, amar e servir a vida (1).

Evangelium vitae: a vida não é instrumento

A encíclica Evangelium vitae (1995) ensina que a vida humana não pode ser instrumentalizada. Cada pessoa é única, irrepetível e deve ser amada como fim em si mesma. A vida é totalidade de corpo e alma, e não pode ser reduzida apenas à biologia.

A vida biológica tem valor fundamental, pois sustenta todos os outros valores da pessoa. Contudo, é preciso reconhecer que sua fonte está em Deus. Por isso, o sentido da vida só se compreende plenamente à luz do amor criador e redentor.

Povo pela vida

A verdadeira vida se torna palpável na forma como o cristão vive no mundo. Somos enviados como “povo pela vida” (Evangelium vitae, n. 83). Cada pessoa recebe não apenas o dom da vida, mas também a missão de cuidar dela e ajudar outros a reconhecê-la.

Viver plenamente é viver no amor: “Não há maior amor do que dar a própria vida pelos seus amigos” (Jo 15,13). Cristo o viveu na Cruz. Nós somos chamados a vivê-lo no cotidiano, em pequenos e grandes gestos de partilha.

Doação de órgãos: valor e dignidade

Entre esses gestos, “merece particular apreço a doação de órgãos feita, segundo formas eticamente aceitáveis, para oferecer uma possibilidade de saúde e até de vida a doentes, por vezes já sem esperança” (Evangelium vitae, n. 86).

O Catecismo ensina: “A doação de órgãos após a morte é um ato nobre e meritório e merece ser encorajado como manifestação de generosa solidariedade” (n. 2296).

O ensinamento dos Papas

São João Paulo II afirmou que doar uma parte do próprio corpo em benefício de outra pessoa, sem nada receber em troca, é “um autêntico ato de amor” (2). Mais do que oferecer algo, é doar-se a si mesmo.

O Papa Francisco recorda que a doação de órgãos é também responsabilidade social: “Doar significa olhar e ir além de nós mesmos, além das necessidades individuais e abrir-se com generosidade para um bem mais vasto.” (3). Para o discípulo de Jesus, é uma oferenda ao Senhor sofredor: “todas as vezes que vós fizestes isto a um destes meus irmãos mais pequeninos, a mim o fizestes” (Mt 25,40).

Francisco ainda exorta: “Da nossa morte e do nosso dom podem nascer a vida e a saúde de outros, contribuindo para fortalecer uma cultura da ajuda, da dádiva, da esperança e da vida” (6).

A missão do cristão

O cristão é chamado a defender a vida de várias formas: lutando contra o aborto, a eutanásia, o suicídio e a pena de morte; praticando as obras de misericórdia (cf. Mt 25,31-46); testemunhando a sacralidade da vida.

Mas também através deste gesto maravilhoso e concreto: a doação de órgãos. Quem doa prolonga o dom recebido de Deus, transformando sua própria vida em sinal de amor e esperança para o próximo.

Conclusão

A vida é dom. A vida é doação. Doar os órgãos é prolongar o dom da vida em outros, um testemunho de fé no Deus que é Amor.


Notas
1 - DUARTE, Dom Antônio Augusto Dias. A Bioética à luz dos documentos da Igreja. São Paulo: Paulus, 2010, p. 12. (Estudos da CNBB, n. 98 – Questões de bioética).
2 - JOÃO PAULO II, Papa. Discurso aos participantes do XVIII Congresso Internacional sobre os Transplantes, 29 de ago. de 2000.
3-6 - FRANCISCO, Papa. Discursos à Associação Italiana de Doadores de Órgãos, 13 de abr. de 2019.

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