Cúpula do Clima em Belém: COP30 inicia com apelo por coragem e conversão ecológica global
Chegou a hora de transformar ambição em ação: cuidar da criação é mais que uma escolha ecológica, é um ato de fé, justiça e amor pela vida.
COP-30
07.11.2025 17:08:43 | 6 minutos de leitura

Belém, 6 de novembro de 2025 – O primeiro dia da Cúpula de Líderes da COP30, realizado em Belém do Pará, foi marcado por um chamado decisivo à ação. Entre discursos de chefes de Estado e líderes internacionais, ecoou com força o apelo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva: “A COP30 será a COP da verdade”. O encontro, que inaugura oficialmente a 30ª Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas, reacende a esperança de que o mundo traduza compromissos em medidas concretas diante da urgência climática.
Lula destacou que esta edição da conferência representa o retorno simbólico da agenda climática global ao Brasil, trinta anos após a histórica Cúpula da Terra, realizada no Rio de Janeiro. “É hora de transformar ambição em ação e de reencontrar o equilíbrio entre o crescimento e a sustentabilidade”, afirmou. Inspirado no conceito de mutirão, o presidente convocou os países a assumirem a responsabilidade compartilhada pela Casa Comum, lembrando que 2025 marca os 80 anos da ONU e uma década do Acordo de Paris — um tempo de prestar contas à humanidade e à criação.
Florestas Tropicais: uma aliança pelo futuro
Entre os principais anúncios do dia, destacou-se o lançamento do Fundo Florestas Tropicais para Sempre (TFFF), mecanismo inédito de financiamento voltado à preservação das florestas tropicais. O fundo, apoiado por 53 países, recebeu promessas de aportes significativos: a Noruega destinou USD 3 bilhões; o Brasil e a Indonésia comprometeram-se com USD 1 bilhão cada; e a França anunciou 500 milhões de euros. Outras contribuições incluem os Países Baixos, com USD 5 milhões, e Portugal, com 1 milhão de euros.
Ao apresentar o TFFF, Lula o definiu como “uma iniciativa sem precedentes, que devolve ao Sul Global o protagonismo na agenda florestal”. O secretário-geral da ONU, António Guterres, também celebrou a proposta, enfatizando que “proteger florestas e oceanos não é um ato de caridade, mas uma responsabilidade moral e econômica”.
Durante o painel temático “Clima e Natureza: Florestas e Oceanos”, Guterres alertou que limitar o aquecimento global a 1,5°C é condição para garantir a estabilidade climática e a sobrevivência dos povos. “Precisamos interromper o desmatamento até 2030 para manter vivo o limite de 1,5 grau”, reforçou.
Lula destacou que o Brasil registrou a menor taxa de desmatamento na Amazônia em 11 anos e que o governo pretende recuperar 40 milhões de hectares de pastagens degradadas em uma década. “A floresta não é apenas fauna e flora; nela vivem cerca de 50 milhões de pessoas”, lembrou, mencionando as populações urbanas, ribeirinhas e indígenas que dependem diretamente do bioma amazônico.
Oceanos e clima: um pacto pela vida
O debate também sublinhou a urgência de proteger os oceanos, cuja elevação de temperatura já ameaça o regime de chuvas na Amazônia. “A savanização da Amazônia traria consequências nefastas para o clima e a agricultura em todo o mundo”, alertou Lula. Ele anunciou que o Brasil ratificará, até o final de 2025, o Tratado de Alto Mar, que visa garantir o uso sustentável da biodiversidade marinha em áreas internacionais a partir de 2026.
A enviada especial da Oceania, Jacinda Ardern, reforçou o apelo por uma abordagem integrada: “É hora de colocar 71% da superfície do planeta – os oceanos – no centro da agenda da COP e financiar adequadamente sua restauração e proteção”.
Chamado à ação e manejo do fogo
Encerrando a sessão, Lula apresentou a Declaração de Chamado à Ação sobre o Manejo Integrado do Fogo e Resiliência a Incêndios Florestais, assinada por 50 países e três organizações internacionais (FAO, PNUMA e OIMT). O documento reconhece os incêndios como uma das manifestações mais destrutivas das mudanças climáticas e propõe estratégias preventivas, de cooperação e financiamento sustentável, em sintonia com o TFFF.
“Os incêndios que consomem nossas florestas não respeitam fronteiras. Nenhum país pode enfrentar sozinho esta crise. O pacto que propomos é pela vida das florestas, dos oceanos e da humanidade”, afirmou o presidente.
A presença da Igreja e o chamado à conversão ecológica
Em sintonia com o apelo mundial, a Igreja Católica, guiada pelos ensinamentos das encíclicas Laudato Si’ e Laudate Deum, reafirma seu compromisso profético diante da COP30. Como destacou o documento “Igreja Rumo à COP30”, promovido pela CNBB, a caminhada eclesial é um processo contínuo de escuta, oração e ação pela Casa Comum. Inspirada pelo lema “Escutar o clamor da Terra e o clamor dos pobres”, a Igreja brasileira atua em comunhão com comunidades, povos originários e movimentos sociais, reforçando que fé, ciência e justiça caminham juntas.
A mensagem das Conferências Episcopais da África, América Latina, Caribe e Ásia, intitulada “Um Chamado por Justiça Climática e a Casa Comum”, também ecoou em Belém: “Sem justiça climática, não há paz; sem conversão ecológica, não há futuro”. O texto, inspirado em Laudato Si’ e nas palavras do Papa Leão XIV, denuncia as “falsas soluções” e convoca as nações a abandonar o extrativismo e o capitalismo verde, promovendo uma transição energética justa e solidária.
Em sua Mensagem para o X Dia Mundial de Oração pelo Cuidado da Criação, o Papa Leão XIV recorda que “chegou verdadeiramente o tempo de dar seguimento às palavras com obras concretas”. Para o Santo Padre, cuidar da criação é um ato de fé e humanidade, e “as sementes de paz e esperança germinam quando a justiça e a caridade se tornam obras concretas”.
Esperança e compromisso
À luz desses sinais, a Cúpula de Belém representa mais que um encontro político — é um chamado à conversão e à corresponsabilidade. Como afirmam os bispos em preparação à COP30, “a Igreja deve ser profética, escutar o grito da Terra e dos pobres, e viver a ecologia integral não apenas como discurso, mas como testemunho”.
A COP30, realizada no coração da Amazônia, reacende a esperança de que o multilateralismo volte a ser caminho de paz, e que o mundo, unido pela fé e pela razão, abrace a missão de restaurar a Casa Comum.
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Com informações do site oficial da COP30, ONU e Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB).
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