Chamados à Amizade, à Coragem e ao Bem: o Jubileu dos Jovens e o Encontro com o Papa Leão XIV
"A amizade com Cristo é a estrela que guia nossas escolhas, ilumina nossas dúvidas e transforma cada jovem em testemunha viva da esperança." – Papa Leão XIV, Jubileu dos Jovens 2025
Igreja
04.08.2025 10:49:41 | 14 minutos de leitura

No coração do Ano Jubilar, o encontro dos jovens com o Papa Leão XIV, durante a Vigília de Oração realizada na Praça de São Pedro, tornou-se um verdadeiro momento de epifania espiritual e eclesial. Em meio a cânticos, silêncios eloquentes e uma atmosfera de profunda escuta, ecoaram as inquietações, os anseios e as esperanças da juventude contemporânea — uma geração muitas vezes rotulada como dispersa, mas que, na realidade, carrega em seu interior um desejo sincero de verdade, amor e sentido.
Nesta noite inesquecível, marcada por um intenso diálogo entre o Sucessor de Pedro e representantes da juventude mundial, ressoaram três grandes perguntas — sobre a amizade autêntica, a coragem para fazer escolhas e o apelo interior ao bem. As respostas do Papa, repletas de sabedoria, sensibilidade pastoral e profunda inspiração patrística, mostraram-se como uma verdadeira catequese da esperança. Com referências luminosas a Santo Agostinho, Pier Giorgio Frassati, São João Paulo II e Bento XVI, o Papa conduziu os jovens à redescoberta da sua vocação mais profunda: viver a vida como dom, como resposta ao Amor que os chamou por primeiro.
Este documento é mais do que um registro pontual de uma vigília jubilar: é uma carta aberta à geração de hoje. Um mapa espiritual para tempos marcados por incertezas e fragmentações, mas também permeados por promessas e potenciais transformadores. O Papa não se limitou a responder; ele convocou. Convidou cada jovem a transformar suas conexões frágeis em laços duradouros, seus medos em escolhas plenas de sentido, sua sede de transcendência em missão vivida com liberdade e alegria.
Ao ler este diálogo, somos todos interpelados. Porque nele, mais do que perguntas de jovens, ouvimos as perguntas fundamentais do coração humano. E nas palavras do Papa, mais do que respostas, encontramos uma convocação: “Fica conosco, Senhor!”. Que esta vigília ressoe não apenas como um eco de Roma, mas como um chamado atual e vibrante para que cada jovem descubra, em Cristo, o verdadeiro amigo, a rocha firme de cada decisão e o bem maior que dá sentido à vida.
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JUBILEU DOS JOVENSFESTA E VIGÍLIA DE ORAÇÃODIÁLOGO DO PAPA LEÃO XIV COM OS JOVENS
Sábado, 2 de agosto de 2025
Pergunta 1 – Amizade
Santo Padre, chamo-me Dulce María, tenho 23 anos e venho do México. Dirijo-me a vós como porta-voz de uma realidade que nós, jovens, vivemos em tantas partes do mundo. Somos filhos deste tempo: vivemos numa cultura que nos pertence e que, sem nos darmos conta, nos molda; ela está marcada pela tecnologia, especialmente no âmbito das redes sociais. Frequentemente, iludimo-nos com a ideia de ter muitos amigos e criar relações próximas, enquanto cada vez mais experimentamos diversas formas de solidão. Estamos próximos e conectados com tantas pessoas e, no entanto, não são relações verdadeiras e duradouras, mas passageiras e muitas vezes ilusórias. Santo Padre, a minha pergunta é: como podemos encontrar uma amizade sincera e um amor genuíno que nos levem à verdadeira esperança? Como pode a fé ajudar-nos a construir o nosso futuro?
Queridos jovens, as relações humanas, nossas relações com outras pessoas, são indispensáveis para cada um de nós, a começar pela razão de que todos os homens e mulheres do mundo nascem filhos de alguém. A nossa vida começa com um vínculo e é através de vínculos que crescemos. Neste processo, a cultura desempenha um papel fundamental: é o código com o qual nos compreendemos a nós mesmos e interpretamos o mundo. Como um dicionário, cada cultura contém tanto palavras nobres quanto palavras vulgares, valores e erros que devemos aprender a reconhecer. Buscando apaixonadamente a verdade, não apenas recebemos uma cultura, mas transformamo-la através das escolhas de vida. A verdade, com efeito, é um vínculo que une as palavras às coisas, os nomes aos rostos. A mentira, pelo contrário, separa estes aspectos, gerando confusão e mal-entendidos.
Atualmente, entre as muitas conexões culturais que caracterizam a nossa vida, a Internet e as redes sociais tornaram-se «uma oportunidade extraordinária de diálogo, encontro e intercâmbio entre as pessoas, bem como de acesso à informação e ao saber» (Papa Francisco, Christus vivit, 87). No entanto, estes instrumentos tornam-se ambíguos quando dominados por lógicas comerciais e interesses que destroem as nossas relações em milhares de fragmentos. A este respeito, o Papa Francisco recordava que, por vezes, «os mecanismos da comunicação, da publicidade e das redes sociais podem ser utilizados para nos tornar sujeitos adormecidos, dependentes do consumo» (Christus vivit, 105). Então, as nossas relações tornam-se confusas, ansiosas ou instáveis. Além disso, hoje em dia, como sabeis, existem algoritmos que nos dizem o que temos de ver e pensar, e quem devem ser os nossos amigos. E então as nossas relações tornam-se confusas, por vezes ansiosas. É que quando o instrumento domina o homem, o homem torna-se um instrumento: sim, um instrumento do mercado e, por sua vez, uma mercadoria. Só relações sinceras e laços estáveis fazem crescer histórias de vida boa.
Queridos jovens, qualquer pessoa deseja naturalmente esta vida boa, como os pulmões buscam o ar, mas como é difícil encontrá-la! Como é difícil encontrar uma amizade autêntica. Há uns séculos, Santo Agostinho, mesmo sem conhecer o desenvolvimento tecnológico de hoje, compreendeu o desejo profundo do nosso coração, que é o desejo de todo coração humano. Também ele passou por uma juventude tempestuosa, porém não se conformou, não silenciou o clamor do seu coração. Agostinho procurava a verdade, a verdade que não decepciona, a beleza que não passa. E como a encontrou? Como encontrou uma amizade sincera, um amor capaz de dar esperança? Encontrando Aquele que já o procurava: Jesus Cristo. Como construiu o seu futuro? Seguindo a Ele, seu amigo desde sempre. Com palavras suas: «Nenhuma amizade é fiel senão em Cristo. E só n’Ele pode ser feliz e eterna» (cf. Contra duas cartas dos pelagianos, I, I, 1). Santo Agostinho diz-nos: “Não há autêntica amizade se não for em Cristo. E a verdadeira amizade encontra-se sempre em Jesus Cristo, com verdade, amor e respeito”. Ele diz-nos ainda: «Ama verdadeiramente o seu amigo aquele que no seu amigo ama a Deus» (cf. Sermão 336, 2). A amizade com Cristo, que está na base da fé, não é apenas uma ajuda entre muitas outras para construir o futuro, é a nossa estrela polar. Como escreveu o beato Pier Giorgio Frassati, «viver sem fé, sem um património a defender, sem lutar pela Verdade, não é viver, é apenas ir vivendo» (Cartas, 27 de fevereiro de 1925). Quando as nossas amizades refletem este intenso vínculo com Jesus, tornam-se certamente sinceras, generosas e verdadeiras.
Queridos jovens, amem-se uns aos outros! Amem-se em Cristo! Saibam ver Jesus nos outros. A amizade pode realmente mudar o mundo. A amizade é um caminho para a paz.
Pergunta 2 – Coragem para escolher
Santo Padre, chamo-me Gaia, tenho 19 anos e sou italiana. Esta noite, todos nós, jovens aqui presentes, gostaríamos de falar-lhe dos nossos sonhos, esperanças e dúvidas. O nosso tempo é marcado por decisões importantes que somos chamados a tomar para orientar a nossa vida futura. No entanto, devido ao clima de incerteza que nos rodeia, somos tentados a adiar, e o medo de um futuro desconhecido paralisa-nos. Sabemos que escolher significa renunciar a algo e isso bloqueia-nos, mas, apesar de tudo, percebemos que a esperança aponta para objetivos alcançáveis, mesmo que marcados pela precariedade do momento presente. Santo Padre, perguntamos-lhe: onde encontrar a coragem para escolher? Como podemos ser corajosos e viver a aventura de uma liberdade viva, fazendo escolhas radicais e cheias de sentido?
Obrigado pela pergunta. A escolha é um ato humano fundamental. Observando-o com atenção, compreendemos que não se trata apenas de escolher algo, mas de escolher alguém. Quando escolhemos, em sentido forte, decidimos quem queremos ser. Na verdade, a escolha por excelência é a decisão sobre a nossa vida: que homem queres ser? Que mulher queres ser? Queridos jovens, aprende-se a escolher através das provações da vida e, antes de tudo, lembrando que nós fomos escolhidos. Tal memória deve ser explorada e educada. Recebemos a vida gratuitamente, sem a escolher! Na origem de nós mesmos não houve uma decisão nossa, mas um amor que nos quis. Ao longo da existência, quem nos ajuda a reconhecer e renovar esta graça nas escolhas que somos chamados a fazer mostra-se verdadeiramente amigo.
Queridos jovens, vós dissestes bem: “escolher significa também renunciar a outras coisas, e isso às vezes bloqueia-nos”. Para sermos livres, é preciso partir de um fundamento estável, da rocha que sustenta os nossos passos. Essa rocha é um amor que nos precede, surpreende e supera infinitamente: é o amor de Deus. Por isso, diante d’Ele, a escolha torna-se um juízo que não tira nenhum bem, mas leva sempre ao melhor.
A coragem para escolher vem do amor que Deus nos manifesta em Cristo. Foi Ele que nos amou com todo o seu ser, salvando o mundo e mostrando-nos assim que o dom da vida é o caminho para realizar a nossa pessoa. Por isso, o encontro com Jesus corresponde às expectativas mais profundas do nosso coração, porque Jesus é o Amor de Deus feito homem.
A este respeito, há vinte e cinco anos, aqui mesmo onde estamos, São João Paulo II disse: «é Jesus quem buscais quando sonhais a felicidade; é Ele quem vos espera, quando nada do que encontrais vos satisfaz; Ele é a beleza que tanto vos atrai; é Ele quem vos provoca com aquela sede de radicalidade que não vos deixa ceder a compromissos; é Ele quem vos impele a depor as máscaras que tornam a vida falsa; é Ele quem vos lê no coração as decisões mais verdadeiras que outros quereriam sufocar» (Vigília de oração na XV Jornada Mundial da Juventude, 19 de agosto de 2000). O medo dá então lugar à esperança, porque temos a certeza de que Deus leva a cabo tudo o que começa. Reconhecemos a sua fidelidade nas palavras de quem ama verdadeiramente, porque foi verdadeiramente amado. “Tu és a minha vida, Senhor”: é o que um sacerdote e uma consagrada pronunciam cheios de alegria e liberdade. Tu és a minha vida, Senhor. “Aceito-te como minha esposa e como meu esposo”: é a frase que transforma o amor do homem e da mulher em sinal eficaz do amor de Deus no matrimónio. Eis escolhas radicais e cheias de significado: o matrimónio, a ordem sagrada, a consagração religiosa expressam a doação de si mesmo, livre e libertadora, que nos torna verdadeiramente felizes. E é aí que encontramos a felicidade, quando aprendemos a doar-nos a nós mesmos. Doar a vida pelos outros.
Estas escolhas dão sentido à nossa vida, transformando-a à imagem do Amor perfeito, que a criou e redimiu de todo o mal, inclusive da morte. Digo isso esta noite pensando em duas jovens, María, de 20 anos, espanhola, e a egípcia Pascale, de 18 anos. Ambas decidiram vir a Roma para o Jubileu dos Jovens e a morte as surpreendeu nestes dias. Rezemos juntos por elas. Rezemos também por seus familiares, seus amigos e suas comunidades. Que Jesus Ressuscitado as acolha na paz e na alegria do seu Reino. Gostaria ainda de pedir as vossas orações para outro amigo, um jovem espanhol, Ignacio Gonzalvez, que foi internado no hospital “Bambino Gesù”. Rezemos por ele e pela sua saúde.
Encontrar a coragem para fazer escolhas difíceis e dizer a Jesus: “Tu és a minha vida, Senhor”. Obrigado.
Pergunta 3 – Apelo ao bem
Santo Padre, o meu nome é Will. Tenho 20 anos e sou dos Estados Unidos. Gostaria de lhe fazer uma pergunta em nome de tantos jovens que, em seus corações, anseiam por algo mais profundo. Nós somos atraídos pela vida interior, mesmo se, à primeira vista, somos julgados como uma geração superficial e irrefletida. No íntimo de nós mesmos, sentimo-nos atraídos pelo belo e pelo bem como fontes de verdade. O valor do silêncio, como nesta Vigília, fascina-nos, ainda que às vezes gere medo por causa de uma sensação de vazio. Santo Padre, gostaria de lhe perguntar: como podemos encontrar verdadeiramente o Senhor Ressuscitado nas nossas vidas e ter a certeza da sua presença mesmo no meio de provações e incertezas?
Para convocar este Ano Jubilar, o Papa Francisco publicou o documento intitulado Spes non confundit, que significa “a esperança não engana”. Neste documento, ele escreveu: «No coração de cada pessoa, encerra-se a esperança como desejo e expectativa do bem, apesar de não saber o que trará consigo o amanhã» (Spes non confundit, 1). Na Bíblia, a palavra “coração” geralmente refere-se ao mais íntimo de uma pessoa, o que inclui a nossa consciência. A nossa compreensão do que é bom reflete, então, como a nossa consciência foi moldada pelas pessoas que fazem parte da nossa vida, aquelas que foram bondosas conosco, aquelas que nos ouviram com amor, aquelas que nos ajudaram. Essas pessoas ajudaram-te a crescer na bondade e, portanto, a formar a tua consciência para buscar o bem nas tuas escolhas diárias.
Queridos jovens, Jesus é o amigo que sempre nos acompanha durante a formação da nossa consciência. Se quereis realmente encontrar o Senhor Ressuscitado, escutai a sua palavra, que é o Evangelho da salvação. Refleti sobre o vosso modo de viver e procurai a justiça para construir um mundo mais humano. Servi os pobres e dai assim testemunho do bem que sempre gostamos de receber do nosso próximo. Estejais unidos a Jesus Cristo na Eucaristia. Adorai Cristo no Santíssimo Sacramento, fonte da vida eterna. Estudai, trabalhai e amai segundo o exemplo de Jesus, o bom Mestre que caminha sempre ao nosso lado.
A cada passo, enquanto buscamos o que é bom, peçamos-lhe: fica conosco, Senhor (cf. Lc 24, 29). Fica conosco, porque sem ti não podemos fazer o bem que desejamos. Tu queres o nosso bem; na verdade, Senhor, tu és o nosso bem. Quem te encontra também quer que os outros te encontrem, porque a tua palavra é uma luz mais brilhante do que qualquer estrela, que ilumina até a noite mais escura. O Papa Bento XVI gostava de dizer que quem acredita nunca está sozinho. Dito em outras palavras, encontramos Cristo na Igreja, isto é, na comunhão daqueles que O buscam sinceramente. O próprio Senhor nos reúne para formar comunidade, não uma comunidade qualquer, mas uma comunidade de fiéis que se apoiam mutuamente. Quanto precisa o mundo de missionários do Evangelho, que sejam testemunhas de justiça e paz! Quanto precisa o futuro de homens e mulheres que sejam testemunhas de esperança! Queridos jovens, esta é a tarefa que o Senhor Ressuscitado confia a cada um de nós!
Santo Agostinho escreveu: « Tu o incitas para que sinta prazer em louvar-te; fizeste-nos para ti, e inquieto está o nosso coração, enquanto não repousa em ti. […] Que eu te busque, Senhor, invocando-te; e que eu te invoque, crendo em ti» (Confissões, I, 1). Seguindo estas palavras de Agostinho, e em resposta às vossas perguntas, gostaria de convidar cada um de vós a dizer ao Senhor: “Obrigado, Jesus, por me terdes chamado. O meu desejo é permanecer como um dos vossos amigos, para que, abraçando-vos, eu possa também ser um companheiro de viagem para todos aqueles que encontro. Concedei, Senhor, que aqueles que me encontram possam encontrar-vos, mesmo através das minhas limitações e fraquezas”. Ao rezar estas palavras, o nosso diálogo continuará cada vez que olharmos para o Senhor crucificado, pois os nossos corações estarão unidos n’Ele. Cada vez que adoramos Cristo na Eucaristia, os nossos corações estarão unidos n’Ele. Por fim, a minha oração por vós é que possais perseverar na fé, com alegria e coragem! E podemos dizer: “Obrigado, Jesus, por nos amares”. Obrigado, Jesus, por ter-nos amado. Obrigado, Jesus, por ter-nos chamado. Fica conosco, Senhor.
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