Batismo do Senhor
No Jordão, Cristo não desce para ser purificado, mas para santificar as águas e a nossa história.
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09.01.2026 09:44:52 | 5 minutos de leitura

Pe. Rafael Pedro Susrina, psdp
Jesus desce às águas do Jordão não para ser purificado, mas para purificar as águas; não por necessidade, mas por amor. Ele se coloca na fila dos pecadores para assumir, desde o início, o peso da nossa história.
O profeta Isaías nos apresentou o Servo do Senhor, escolhido, sustentado por Deus, sobre quem repousa o Espírito, enviado para instaurar o direito sem violência, sem gritos, sem esmagar a cana rachada (cf. Is 42,1-4.6-7).
No Evangelho de São Mateus (3,13-17), essa profecia se cumpre de forma concreta: Jesus insiste em ser batizado, mesmo diante da resistência de João, porque o caminho do Pai passa pela obediência humilde. Estamos dispostos a aceitar que o agir de Deus nem sempre corresponde às nossas expectativas de grandeza?
Quando Jesus sai das águas, o Evangelho nos diz que o céu se abre. Este detalhe é decisivo: o céu fechado pelo pecado agora se abre definitivamente. O Espírito desce em forma de pomba, e a voz do Pai proclama: “Este é o meu Filho amado, no qual eu pus o meu agrado” (Mt 3,17). Aqui se revela o mistério trinitário e, ao mesmo tempo, o fundamento da nossa fé. Se o Pai declara publicamente quem é Jesus, não o faz apenas para informar, mas para nos introduzir nesse mesmo mistério. Temos consciência de que, pelo Batismo, também nós fomos introduzidos nessa relação filial?
O Salmo canta a voz do Senhor que ressoa sobre as águas, cheia de majestade e poder (cf. Sl 29[28]). Não é uma voz que destrói, mas que comunica vida e paz. É a mesma voz que ecoa no Jordão e que, no Batismo, ressoou sobre cada um de nós. Ainda sabemos escutar essa voz no meio do barulho do mundo e das muitas vozes que disputam nosso coração?
A 2ª leitura, dos Atos dos Apóstolos, nos recorda que Deus não faz acepção de pessoas e que Jesus foi ungido com o Espírito Santo e passou fazendo o bem (cf. At 10,34-38). Eis a consequência do Batismo: quem é ungido pelo Espírito não permanece fechado em si mesmo, mas entra num dinamismo de missão. Vivemos como pessoas marcadas pelo Batismo ou o tratamos como algo que aconteceu um dia e já não interfere mais na nossa vida?
Os Padres da Igreja nos ajudam a contemplar mais profundamente o sinal da pomba. Rábano Mauro descreve nela as virtudes próprias dos batizados. A pomba habita junto às águas para nelas se refugiar do perigo: assim, o cristão vive junto às águas da Sagrada Escritura, onde encontra discernimento e proteção contra o mal. Onde temos buscado abrigo quando somos provados: na Palavra de Deus ou em soluções fáceis e passageiras?
Ela escolhe os melhores grãos: imagem de quem se alimenta da doutrina sã, rejeitando aquilo que confunde e divide. O nosso coração tem sabido discernir o que edifica daquilo que corrói silenciosamente a fé?
A pomba não fere com o bico, não tem veneno: sinal de uma vida purificada da agressividade e da ira irreconciliável. Nosso testemunho cristão tem sido marcado pela mansidão do Espírito ou por palavras que ferem?
Rábano Mauro afirma ainda que a pomba faz seu ninho nas cavidades da pedra. Para nós, essa pedra são as chagas de Cristo, onde o batizado encontra refúgio seguro e esperança. Temos feito das feridas do Senhor o nosso lugar de descanso interior ou preferimos confiar apenas em nossas próprias forças? E quando ele recorda que a pomba geme em vez de cantar, aponta para um coração contrito, capaz de chorar seus pecados e confiar na misericórdia. Ainda somos capazes desse gemido que purifica e renova?
São João Crisóstomo amplia ainda mais nosso horizonte ao recordar a pomba do dilúvio, que trouxe um ramo de oliveira anunciando o fim da destruição. Agora, no Jordão, a pomba reaparece trazendo algo infinitamente maior: a adoção do gênero humano. Pelo Batismo de Cristo, nasce uma humanidade reconciliada, chamada a viver como família de Deus. Temos vivido como filhos adotivos ou ainda como se fôssemos estranhos na casa do Pai?
Ao contemplarmos Cristo que desce às águas para nos elevar aos céus, a liturgia nos convida a renovar interiormente a graça do nosso Batismo. E permanece, então, uma pergunta, que não podemos evitar: se no Batismo o Pai nos chamou de filhos amados, o que em nossa vida ainda precisa ser convertido para que essa filiação se torne visível no modo como vivemos, falamos e amamos?
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