Amar o que Deus ordena
Merecer o que Deus promete é aprender a amar o que Ele ordena — com um coração humilde, confiante e cheio de graça.
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23.10.2025 07:49:22 | 5 minutos de leitura

30º Domingo do Tempo Comum
Pe. Rafael Pedro Susrina, psdp
A Liturgia nos conduz ao coração da vida espiritual: a humildade diante de Deus. E a oração da coleta expressa isso com rara beleza: “Para merecermos alcançar o que prometeis, fazei-nos amar o que ordenais.”
Ao pedirmos isso, a Igreja nos ensina que a salvação não se alcança apenas pelo esforço humano, mas também não se realiza sem a nossa colaboração livre e amorosa. “Merecer” aqui não é vanglória, mas resposta de amor à graça que nos precede. E “ordenais” não se limita aos mandamentos, mas abrange toda a vontade divina – inclusive os caminhos que Ele dispõe em nossa vida, mesmo quando não os compreendemos. Em resumo: Deus promete a glória, mas o caminho para merecê-la é amar o que Ele ordena, isto é, abraçar sua vontade com um coração humilde e confiante.
A 1ª leitura do Eclesiástico (35,15b-17.20-22a) proclama que o Senhor “não faz discriminação de pessoas” e “a oração do humilde penetra as nuvens”. A verdadeira justiça, portanto, não está no status nem nas aparências, mas na atitude interior de quem se reconhece necessitado. O pobre, o órfão e a viúva são imagens daquele que nada tem a oferecer senão a própria fé. E são justamente esses que amam o que Deus ordena – porque confiam em sua justiça e em sua misericórdia.
Na 2ª leitura, da segunda carta a Timóteo (4,6-8.16-18), São Paulo fala de sua vida como oferta: “Combati o bom combate, completei a corrida, guardei a fé.” E logo depois reconhece: “O Senhor esteve ao meu lado e me deu forças.” Aqui está o mistério do mérito cristão: tudo é graça, mas a graça espera nossa resposta. Deus nos torna capazes de merecer, porque sua graça move a vontade e fortalece o amor. São Paulo não se gloria em si mesmo, mas em Cristo. O mérito do apóstolo nasce da fidelidade ao amor recebido. Assim também nós: merecemos o que Deus promete quando permanecemos firmes na fé e deixamos que a graça produza frutos de amor em nossas ações.
O Evangelho (Lc 18,9-14) nos coloca diante de dois homens em oração. Lucas introduz a parábola dizendo que Jesus a contou “a alguns que confiavam na própria justiça e desprezavam os outros” (cf. Lc 18,9). Um fariseu confia em suas obras; o outro, um publicano, confia na misericórdia. O fariseu “rezava consigo mesmo”, diz o texto – uma expressão profunda: ele não fala com Deus, mas consigo. Sua oração é um espelho onde admira o próprio reflexo. Já o publicano nem se atreve a levantar os olhos; golpeia o peito e diz: “Meu Deus, tem piedade de mim, que sou pecador.” E Jesus conclui: “Este voltou para casa justificado; o outro, não.” O fariseu cumpre o que Deus ordena, mas não ama; o publicano ama o que Deus ordena – a verdade, a humildade, a misericórdia – e, por isso, merece alcançar o que Deus promete: a justificação.
Como ensina Santo Agostinho, “a humildade é o fundamento de todos os méritos” (Serm. 117,17). Sem humildade, até a virtude se torna vanglória; com humildade, até o arrependimento se torna graça.
Amar o que Deus ordena é mais do que obedecer a regras: é desejar a vontade de Deus. O cristão não apenas cumpre mandamentos; ele busca amar o que Deus ama e rejeitar o que O ofende. Esse amor purifica o coração e o torna dócil. Quantas vezes resistimos à vontade de Deus porque ela fere nosso orgulho ou inclui cruzes que não queremos abraçar! Mas o amor maduro aprende a dizer com Jesus: “Não se faça a minha vontade, mas a tua” (Lc 22,42). Amar o que Deus ordena é amar até o que Ele permite, porque confiamos que “tudo coopera para o bem dos que amam a Deus” (Rm 8,28).
Deus não nos pede perfeição impossível, mas fidelidade amorosa. Aquele que ama o que Deus ordena torna-se apto para receber o que Ele promete. E o que Deus promete é a vida eterna, a comunhão com Ele, a alegria que não passa. Mas só merece alcançá-la quem se esvazia de si e confia na graça: quem é humilde.
Tenho amado o que Deus ordena — mesmo quando sua vontade contradiz meus planos? Minha oração se parece mais com a do fariseu, que confia em si, ou com a do publicano, que confia na misericórdia? Tenho a coragem de reconhecer diante de Deus: “Senhor, tem piedade de mim, pecador”?
Irmãos, o Evangelho nos convida a amar a vontade de Deus e a viver na humildade da graça. O fariseu buscava méritos humanos; o publicano recebeu o mérito da misericórdia. Quem ama o que Deus ordena transforma a obediência em liberdade e o dever em alegria. Vivamos, pois, esta oração com o coração inteiro e humilde: “Para merecermos alcançar o que prometeis, fazei-nos amar o que ordenais.” Assim, a nossa vida será uma oferenda agradável a Deus, que exalta os humildes e justifica os que confiam em sua graça.
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