Agorá reúne Família Calabriana da Delegação Maria Imaculada
Encontro realizado em Laferrere reuniu 160 participantes de diferentes países e renovou o chamado a viver como filhos de Deus e irmãos, mantendo acesa a chama do carisma calabriano
Agorá
21.09.2026 12:27:53 | 8 minutos de leitura

“Deus é Pai, Abbá, Amor.” Esta certeza, que está no coração da espiritualidade calabriana, reuniu a Família Calabriana da Delegação Maria Imaculada para a celebração da Agorá, realizada de 18 a 20 de setembro de 2026, em Laferrere, na Argentina.
Foram dias de intensa experiência de fé, fraternidade, formação e missão, reunindo cerca de 160 pessoas da Argentina, Paraguai, Uruguai e Chile, além de participantes vindos de outros lugares. Os amigos da República Dominicana, mesmo distantes geograficamente, estiveram unidos espiritualmente e acompanharam a experiência de forma on-line.
Entre os participantes estiveram o Casante dos Pobres Servos da Divina Providência, Pe. Massimiliano Parrella, e a Madre das Pobres Servas da Divina Providência, Ir. Lúcia Bressan.
A acolhida da lâmpada, as reflexões do Casante e da Madre, a saída missionária e a Adoração Eucarística estiveram entre os momentos significativos da programação. Mais do que um encontro, o Agorá proporcionou uma experiência de comunhão entre diferentes vocações, países e expressões da única Família Calabriana.
Deus é Pai: uma certeza que transforma a vida
Em sua reflexão, Madre Lúcia Bressan colocou no centro da Agorá a redescoberta do rosto de Deus como Pai bom, o Abbá. Para ela, reconhecer Deus como Pai não é simplesmente acolher uma ideia ou uma teoria, mas encontrar “a chave que abre a vida”.
Jesus revela o rosto do Pai e introduz seus discípulos em uma relação filial com Deus. Dessa experiência nasce também a fraternidade. Se Deus é Pai, todos são filhos e, consequentemente, irmãos.
A Madre recordou que a experiência da paternidade de Deus está na própria raiz da identidade calabriana. São João Calábria encontrou no Evangelho o rosto vivo de Jesus que revela o Pai e, a partir dessa experiência, assumiu a missão de reavivar no mundo a fé filial, a confiança absoluta e o abandono total nas mãos do Pai Providente.
É justamente daí que brotam dois elementos inseparáveis do carisma: paternidade e fraternidade. “Se Deus é Abbá, a consequência imediata é que somos todos, todos, todos irmãos”, destacou Madre Lúcia em sua reflexão.
Essa experiência precisa tornar-se concreta. Comunidades, paróquias, atividades e famílias são chamadas a ser espaços onde se aprende a viver como filhos e irmãos e onde cada pessoa possa experimentar que Deus é Pai e cuida de todos com sua Providência.
Uma Família que supera fronteiras
A diversidade de países e vocações presentes em Laferrere tornou visível outra característica fundamental do Agorá: a comunhão.
Em sua mensagem, Madre Lúcia definiu o Agorá como uma verdadeira “escola de comunhão”, na qual a Família Calabriana pode experimentar que suas diferentes presenças não são ilhas ou atividades separadas, mas fazem parte de uma única Casa.
Essa consciência também provoca a Família Calabriana a superar separações e a reconhecer a riqueza das diferentes vocações. Religiosos, religiosas, sacerdotes e leigos compartilham um único batismo e participam do mesmo carisma, cada qual segundo sua vocação e responsabilidade.
A imagem utilizada pela Madre é expressiva: as diferentes vocações formam um jardim de flores distintas que, juntas, manifestam a beleza do Pai. Por isso, a responsabilidade pelo carisma pertence a todos.
“A lâmpada de Deus ainda não se apagou”
A imagem da lâmpada marcou de maneira especial a reflexão do Casante, Pe. Massimiliano Parrella.
Partindo do chamado de Samuel — “A lâmpada de Deus ainda não se havia apagado” (1Sm 3,3) —, o Casante recordou que a Família Calabriana recebeu um chamado que não acendeu por si mesma. A lâmpada pertence a Deus, assim como a Obra e o carisma são dons recebidos.
Por isso, diante das transformações do presente e das perguntas sobre o futuro, a questão fundamental não é simplesmente o que conservar, modificar ou projetar, mas aquilo que não pode se apagar.
Para aprofundar essa reflexão, Pe. Massimiliano retomou um episódio da juventude de São João Calábria. Em uma noite de novembro de 1897, o então clérigo João encontrou junto à porta de sua casa um menino de aproximadamente seis anos, abandonado e chorando. Sem possuir uma solução previamente preparada, tomou-o pela mão, levou-o para casa e, junto com sua mãe, Angela dividiu com ele a pobre refeição.
Para oferecer ao menino um lugar onde dormir, João colocou seu próprio colchão sobre três cadeiras. Na manhã seguinte, procurou uma solução para aquela criança.
Um gesto aparentemente pequeno antecipava uma história que ainda estava por nascer.
Antes de abrir uma Casa, Calábria abriu sua casa. Antes de organizar uma obra para os meninos, acolheu um menino concreto. Naquela noite, o futuro tinha o rosto de uma criança.
A narrativa ajuda a compreender que a fidelidade ao carisma não consiste simplesmente em conservar estruturas. Deus nem sempre apresenta antecipadamente um mapa completo do futuro. Às vezes, coloca uma pessoa diante do caminho e pede que ela seja vista.
O carisma precisa continuar tornando-se experiência
No centro dessa forma de olhar está novamente a paternidade de Deus. Se Deus é Pai, recordou o Casante, aquele que está diante da Família Calabriana não pode ser visto somente como problema, usuário ou destinatário de um serviço. É um filho.
Daí nasce também a compreensão calabriana dos pobres como “nossas pérolas”. A dignidade de cada pessoa não depende de sua produtividade, autonomia ou utilidade.
A missão, portanto, vai além de realizar boas obras. Ela deve permitir que cada pessoa que se encontre com a Família Calabriana possa experimentar algo da paternidade de Deus: numa casa onde seja acolhida, em alguém que saiba escutá-la, numa obra onde não seja apenas um número ou numa comunidade onde descubra que sua vida tem valor.
“O carisma vive quando esta certeza se torna experiência”, afirmou o Casante.
Escutar juntos o que Deus pede hoje
O encontro entre gerações, vocações e culturas também ocupou lugar importante na mensagem do Casante. Retomando a relação entre Eli e Samuel, ele mostrou que ninguém possui sozinho a totalidade do carisma.
Os mais velhos podem ajudar as novas gerações a reconhecer a voz de Deus; os jovens, por sua vez, podem escutar chamados que abrem caminhos novos. Religiosos, religiosas e leigos descobrem diferentes dimensões do mesmo dom, enquanto as diversas culturas enriquecem uma história que não pertence exclusivamente a um país.
Por isso, “o carisma não se transmite como uma peça de museu”. Ele é transmitido quando uma geração ajuda a outra a escutar Deus.
A Agorá de Laferrere tornou-se, assim, espaço privilegiado para essa escuta compartilhada.
Uma porta aberta para o futuro
A reflexão sobre o futuro esteve profundamente ligada à missão.
Pe. Massimiliano recordou que a luz de uma lâmpada não existe para si mesma, mas para iluminar alguém que está na escuridão. Da mesma forma, o carisma não existe simplesmente para conservar a Família Calabriana; a Família Calabriana existe para que o carisma chegue às pessoas.
Daí surgem perguntas que permanecem depois do Agorá: Quem precisa hoje encontrar a paternidade de Deus? Quem está diante da nossa porta esperando ser visto? Que realidade está chamando e ainda não sabemos escutar?
São perguntas que remetem diretamente ao gesto de São João Calábria e desafiam a Família a não esperar somente que as pessoas cheguem às suas portas, mas também a sair ao encontro das novas formas de pobreza, solidão e exclusão.
Essa dimensão ganhou expressão concreta durante o Agorá com o envio para a missão. A experiência vivida em comunidade tornou-se anúncio: sair para comunicar, com gestos e presença, que Deus é Pai e que ninguém está fora de seu amor.
Do Agorá para a vida
Os três dias de encontro não se encerram em si mesmos. Madre Lúcia recordou que a experiência do Agorá precisa continuar nas Delegações, comunidades, obras, paróquias e famílias, transformando-se em processo permanente de formação e partilha. Para ela, guardar “o Abbá no coração” exige um caminho cotidiano, capaz de transformar a emoção de um momento em uma escolha estável de vida.
Também o Casante apontou para uma responsabilidade concreta: que, em cada lugar onde vive a Família Calabriana, alguém possa reconhecer a voz de Deus, encontrar uma porta aberta e receber um lugar verdadeiro. Cada comunidade, obra e expressão laical é convidada a perguntar qual voz ainda não está escutando, quem permanece do lado de fora e que espaço precisa ser aberto.
O Agorá da Delegação Maria Imaculada termina, portanto, deixando uma missão.
A noite de Samuel ensina a escutar. A noite de João Calábria ensina a abrir a porta. E o presente pede à Família Calabriana que una as duas atitudes: escutar a voz de Deus e abrir espaço para os seus filhos.
Porque a lâmpada de Deus ainda não se apagou. Enquanto houver uma chama, haverá um chamado. E enquanto houver alguém que precise descobrir que possui um Pai, haverá uma missão para a Família Calabriana.
A Delegação Nossa Senhora Aparecida também está percorrendo seu caminho de preparação para o Agorá, que será realizada nos dias 31 de outubro e 1º de novembro de 2027, em Aparecida/SP. Este itinerário de preparação busca envolver toda a Família Calabriana, fortalecendo a comunhão, a vivência do carisma e a consciência de caminhar como uma só família, chamada a testemunhar, com a vida e a missão, a paternidade de Deus e a confiança em sua Providência.
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