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A Melhor Parte: O Silêncio que Alimenta

A presença de Deus é o repouso da alma; no meio das tarefas, não esqueça de sentar-se aos pés de Jesus.

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18.07.2025 08:24:05 | 5 minutos de leitura

A Melhor Parte: O Silêncio que Alimenta

16º Domingo do Tempo Comum

Padre Rafael Pedro Susrina, psdp

Hoje somos convidados a entrar devagar, quase em silêncio, numa casa que talvez se pareça com a nossa: a casa de Marta e Maria. Uma casa simples, cheia de movimento, afeto, cuidado. Uma casa onde Jesus entra. E, como sempre, ao entrar, Ele transforma tudo.

A cena é bonita: Marta corre de um lado para o outro, preocupada em preparar tudo para servir bem o Mestre. Maria, por sua vez, senta-se aos seus pés. Ela simplesmente escuta. Parece pouco? Mas Jesus dirá que foi justamente ela quem “escolheu a melhor parte” (Lc 10,42). E aqui começa o grande contraste do Evangelho. Marta está errada? Não. Ela faz o que qualquer um de nós faria para acolher alguém importante. Mas Jesus, com carinho, lhe diz: “Marta, Marta, tu te preocupas e andas agitada por muitas coisas” (Lc 10,41). Ele está apenas corrigindo? Ou está revelando algo mais profundo?

Sim, Ele toca em algo muito presente em nossa alma. Quantas vezes, como Marta, vivemos agitados? Cheios de compromissos, tarefas, pressões, notificações, cobranças... Tudo nos chama. Tudo nos exige. E o coração vai se enchendo de ruídos – tantos, que já nem conseguimos escutar a voz de Deus. Será que ainda sabemos parar? E quando o corpo para... será que a alma também descansa? Ou continua acelerada? Há um cansaço que não se cura com sono, mas com presença. E é isso que Maria encontra: a presença silenciosa de Deus, que fala ao coração, ao íntimo de quem sabe escutar.

A primeira leitura nos ajuda a compreender ainda mais. Abraão, na entrada da sua tenda, vê três homens se aproximarem. Sem saber que acolhe o próprio Deus, corre ao encontro deles, prepara água, pão, carne, sombra… e no fim da hospitalidade, escuta uma promessa: “Dentro de um ano, tua mulher Sara terá um filho” (Gn 18,10). Abraão serviu, sim, mas também ficou atento à Palavra. Não se perdeu na agitação do gesto. Seu serviço tornou-se uma porta aberta à promessa. Isso nos ensina algo importante: o problema não está em servir, mas em servir sem escutar. Marta se preocupava com o prato; Maria se alimentava do próprio Cristo. 

Santo Agostinho comenta esse Evangelho dizendo que Marta e Maria são como dois modos de viver: o da ação e o da contemplação. Ambos são bons, mas Maria escolheu aquilo que é eterno. Ele escreve: “Ela escolheu a parte melhor, porque essa não lhe será tirada.” Tudo na vida pode ser perdido – mas o tempo com Deus é sempre ganho. Então, o Evangelho condena Marta? Não. Ele apenas revela que o serviço, sem escuta, pode se tornar agitação vazia. 

São Gregório Magno dizia: “A vida ativa é o caminho, mas a contemplativa é a meta.” Em outras palavras: é preciso agir, sim – mas saber por que e para quem se age. Quantos de nós fazemos muito, mas escutamos pouco? Vivemos tão ocupados com o que precisa ser feito… que já não percebemos Aquele que está presente. Será que o ruído da vida tomou o lugar do silêncio da escuta?

Como diz São Paulo: “A fé vem pela escuta, e a escuta pela Palavra de Cristo” (cf. Rm 10,17). Se não escutamos, como teremos fé viva? Maria se sentou. Parou. E mais do que isso: colocou-se aos pés de Jesus. Orígenes via nessa atitude a postura do verdadeiro discípulo – aquele que se deixa formar. Não se trata apenas de ouvir palavras, mas de acolher o próprio Cristo no coração.

A Segunda Leitura, da Carta aos Colossenses, nos oferece uma chave preciosa. São Paulo diz: “Alegro-me nos sofrimentos por vós... completando na minha carne o que falta aos sofrimentos de Cristo” (cf. Cl 1,24). E em seguida afirma que seu ministério é “anunciar o mistério escondido desde todos os séculos”, que é Cristo em nós, esperança da glória (cf. Cl 1,26-27). Maria não apenas escuta – ela se deixa habitar por esse mistério. Enquanto Marta se inquieta com o pão que passa, Maria está diante do Pão da Vida. E nós? Estamos mais próximos de Marta ou de Maria? Acolhemos o Mistério... ou apenas nos ocupamos com ele?

E como não lembrar do Salmo que rezamos hoje? Ele nos pergunta: “Senhor, quem morará em vossa casa?” (Sl 14/15) E responde: “Aquele que caminha sem pecado e pratica a justiça fielmente.” Maria, na sua escuta amorosa, é imagem desse coração puro, justo, inteiro – que habita com Deus.

Esse é o convite da Liturgia: que o nosso serviço brote da escuta; que nossas obras sejam alimentadas pela contemplação; que nossa vida não se perca no muito fazer, mas se enraíze no estar com Aquele que é tudo. Maria escolheu a melhor parte. E essa parte – a presença do Senhor, a escuta da Palavra, o repouso em Deus – não será tirada de quem a busca com sinceridade. E você, hoje… vai escolher o mesmo?

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