A Inteligência Artificial ao Serviço do Bem Comum
Reflexões a partir da Mensagem do Papa Leão XIV à Cimeira AI for Good 2025
Artigos
11.07.2025 09:10:28 | 7 minutos de leitura

Em um momento histórico marcado por profundas transformações tecnológicas, a voz da Igreja ressoa com clareza e responsabilidade. A mensagem de Sua Santidade o Papa Leão XIV, assinada pelo Cardeal Secretário de Estado Pietro Parolin, por ocasião da AI for Good Summit 2025, em Genebra, destaca-se como um chamado lúcido, ético e profundamente humano diante dos desafios e possibilidades oferecidos pela Inteligência Artificial (IA).
A partir de uma leitura atenta, podemos destacar e aprofundar os principais eixos dessa mensagem, que apresenta-se como verdadeira referência para todos aqueles — especialistas, governantes, desenvolvedores, religiosos e cidadãos — que se interrogam sobre o futuro da sociedade digital.
1. A Encruzilhada da Humanidade: Entre o Potencial e a Responsabilidade
A mensagem do Papa recorda que a humanidade vive uma encruzilhada histórica. A IA não é apenas uma ferramenta técnica a mais: ela inaugura uma nova era, capaz de transformar de modo radical esferas essenciais da vida humana, como o trabalho, a saúde, a educação, a comunicação e a própria forma de governar.
Ao mesmo tempo, essa revolução exige um discernimento ético inadiável. A Santa Sé não se limita a advertências genéricas, mas oferece um horizonte claro: a IA deve ser colocada ao serviço do bem comum, da dignidade humana, da fraternidade e da construção de pontes de diálogo. Não se trata de rejeitar a tecnologia, mas de integrá-la de modo consciente e responsável na vida das sociedades humanas.
2. A Centralidade da Pessoa Humana: Para Além da Eficiência
Uma das afirmações mais significativas do texto é a que sublinha os limites intrínsecos da IA: embora ela possa simular o raciocínio humano e realizar tarefas com eficiência inigualável, jamais poderá substituir o discernimento moral nem a capacidade de formar relações autênticas.
Essa constatação revela uma visão antropológica profunda: o ser humano não se reduz a um conjunto de dados ou processos algorítmicos. Há uma dimensão irredutível da pessoa — a consciência, a responsabilidade, o amor — que nenhuma máquina poderá replicar. Assim, qualquer desenvolvimento tecnológico deve ser acompanhado pelo respeito aos valores humanos fundamentais e por quadros éticos e regulamentares adequados.
3. Responsabilidade Compartilhada: Desenvolvedores, Gestores e Usuários
O Papa Leão XIV, por meio do Cardeal Parolin, enfatiza que a responsabilidade ética no uso da IA não recai apenas sobre seus criadores ou administradores. Todos os usuários, em maior ou menor medida, participam desse encargo.
Essa visão amplia o debate, superando uma abordagem técnica restrita e convidando à construção de uma verdadeira cultura da responsabilidade digital, que envolva indivíduos, instituições, empresas e governos. Como afirmou Santo Agostinho, citado na mensagem, é necessário sempre buscar a "tranquillitas ordinis", ou seja, uma ordem social tranquila e justa, que promova a paz e o desenvolvimento humano integral.
4. A Urgência de uma Governação Ética Global
Outro ponto de especial relevância é o apelo claro do Papa por uma governação local e global coordenada da Inteligência Artificial. Não basta confiar na autorregulação de empresas ou na boa vontade individual. É necessário construir consensos internacionais, estabelecer normas jurídicas, definir parâmetros éticos universais baseados na dignidade e nas liberdades fundamentais da pessoa humana.
Nesse sentido, a Igreja se coloca ao lado de organismos como a União Internacional de Telecomunicações (UIT) e outras instâncias da ONU, reconhecendo e encorajando seus esforços para que os benefícios da tecnologia alcancem a todos, especialmente os mais excluídos — como lembrou o Papa, ainda há cerca de 2,6 bilhões de pessoas sem acesso às tecnologias da comunicação.
5. A Tecnologia como Ponte, Não Como Muro
Por fim, há um princípio que atravessa toda a mensagem: a tecnologia deve unir, não separar; deve incluir, não excluir. A imagem de "conectar a família humana" resume bem essa visão. Desde o telégrafo até a inteligência artificial, cada avanço técnico deve ser integrado à missão maior de promover a justiça, a paz e a fraternidade universal.
A mensagem do Papa Leão XIV é um documento de altíssimo valor. Ela não apenas oferece orientações práticas, mas nos convida a repensar o sentido mais profundo de nossa presença no mundo.
Quando as máquinas se tornam mais autônomas, é ainda mais necessário que os seres humanos permaneçam conscientes de sua responsabilidade moral e espiritual. Somente assim, como bem disse o Papa, poderemos garantir que a Inteligência Artificial seja verdadeiramente "for good" — para o bem de todos, sem exceções.
Setor Comunicação
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MENSAGEM DO PAPA LEÃO XIV,ASSINADA PELO CARDEAL SECRETÁRIO DE ESTADO PIETRO PAROLIN,POR OCASIÃO DA CIMEIRA AI FOR GOOD 2025
[Genebra, Suíça, 10 de julho de 2025]
Em nome de Sua Santidade, o Papa Leão XIV, gostaria de expressar as minhas cordiais saudações a todos os participantes da AI for Good Summit 2025, organizada pela União Internacional de Telecomunicações (UIT), em parceria com outras agências da ONU e coorganizada pelo Governo suíço. Como esta cimeira coincide com o 160º aniversário da fundação da UIT, gostaria de felicitar todos os Membros e funcionários pelo seu trabalho e esforços constantes para promover a cooperação global, a fim de levar os benefícios das tecnologias da comunicação a todas as pessoas no mundo inteiro. Conectar a família humana através do telégrafo, da rádio, do telefone, das comunicações digitais e espaciais apresenta desafios, especialmente em áreas rurais e de baixa renda, onde aproximadamente 2,6 mil milhões de pessoas ainda não têm acesso às tecnologias da comunicação.
A humanidade está numa encruzilhada, enfrentando o imenso potencial gerado pela revolução digital impulsionada pela Inteligência Artificial. O impacto desta revolução é de longo alcance, transformando áreas como a educação, o trabalho, a arte, a saúde, a governação, as forças armadas e a comunicação. Esta transformação histórica exige responsabilidade e discernimento para garantir que a IA seja desenvolvida e utilizada para o bem comum, construindo pontes de diálogo e promovendo a fraternidade, e assegurando que ela sirva os interesses da humanidade como um todo.
À medida que a IA se torna capaz de se adaptar autonomamente a muitas situações, fazendo escolhas algorítmicas puramente técnicas, é crucial considerar as suas implicações antropológicas e éticas, os valores em jogo e os deveres e quadros regulamentares necessários para defender esses valores. De facto, embora a IA possa simular aspetos do raciocínio humano e realizar tarefas específicas com incrível velocidade e eficiência, não pode replicar o discernimento moral ou a capacidade de formar relações genuínas. Portanto, o desenvolvimento de tais avanços tecnológicos deve andar de mãos dadas com o respeito pelos valores humanos e sociais, a capacidade de julgar com consciência limpa e o crescimento da responsabilidade humana. Não é por acaso que esta era de profunda inovação levou muitos a refletir sobre o que significa ser humano e sobre o papel da humanidade no mundo.
Embora a responsabilidade pelo uso ético dos sistemas de IA comece com quem os desenvolve, gere e supervisiona, quem os utiliza também partilha essa responsabilidade. A IA requer, portanto, uma gestão ética adequada e quadros regulamentares centrados na pessoa humana, que vão além dos meros critérios de utilidade ou eficiência. Em última análise, nunca devemos perder de vista o objetivo comum de contribuir para essa «tranquillitas ordinis – a tranquilidade da ordem», como lhe chamou Santo Agostinho (De Civitate Dei), e promover uma ordem mais humana das relações sociais e sociedades pacíficas e justas ao serviço do desenvolvimento humano integral e do bem da família humana.
Em nome do Papa Leão XIV, gostaria de aproveitar esta oportunidade para vos encorajar a procurar clareza ética e estabelecer uma governação local e global coordenada da IA, baseada no reconhecimento comum da dignidade inerente e das liberdades fundamentais da pessoa humana. O Santo Padre assegura-vos de bom grado as suas orações pelos vossos esforços em benefício do bem comum.
Card. Pietro ParolinSecretário de Estado de Sua Santidade
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