65 anos de Providência no Brasil: uma missão que criou raízes em Batayporã
Da primeira Missa celebrada em 1954 à presença dos Pobres Servos iniciada nos primeiros anos da evangelização local, a Paróquia Santo Antônio de Pádua acompanha a história de Batayporã e permanece como espaço de fé, comunhão e serviço.
65 anos
26.08.2026 07:00:00 | 8 minutos de leitura

A história da Paróquia Santo Antônio de Pádua, em Batayporã (MS), está profundamente ligada ao nascimento e ao desenvolvimento do próprio município. Antes mesmo da emancipação política da cidade, ocorrida em 1963, a comunidade católica já começava a se organizar em torno da fé, reunindo famílias, construindo vínculos e sonhando com um templo que se tornaria referência para gerações.
Essa trajetória também se entrelaça, desde cedo, com a presença dos Pobres Servos da Divina Providência em Mato Grosso do Sul. Ao longo das décadas, religiosos calabrianos assumiram responsabilidades pastorais, acompanharam comunidades e ajudaram a consolidar uma missão que permanece viva até hoje.
A fé nasce junto com a comunidade
A colonização que deu origem a Batayporã foi implantada em 1953, em terras pertencentes à Companhia Viação São Paulo–Mato Grosso. O município seria oficialmente criado uma década depois, pela Lei nº 1.967, de 12 de novembro de 1963.
A vida religiosa, entretanto, começou a se organizar ainda nos primeiros tempos da colonização. Em 17 de setembro de 1954, Frei Luís Maria Flores, que se deslocava de Bataguassu a cavalo, celebrou a primeira Missa em Batayporã.
Não havia igreja. Em meio à natureza, uma cruz assinalava o lugar onde se desejava construir o futuro templo. Vladimir Kubik, responsável pelo projeto de colonização, deixou registrado o cenário daquele acontecimento:
“Foi assim, nesta clareira rústica de uma natureza exuberante, simulando a futura igreja, cujas paredes tinham como símbolo exótico as densas florestas do Sul de Mato Grosso e como teto o firmamento azul e imperscrutável, que foi realizado, sob expectativa geral, o primeiro ofício religioso de Batayporã.”
Naquela ocasião, São Bom Jesus da Lapa foi escolhido como padroeiro. Posteriormente, a comunidade passou a ter Santo Antônio de Pádua como patrono.
A celebração despertou também o desejo de construir uma igreja. O projeto começou a ganhar contornos mais concretos em 1960, quando foi elaborada a planta do templo, por iniciativa de uma comissão formada por Arlindo Ramos, Ernesto Magni Frugulli e Ana Nunes, juntamente com o Padre Marcos Martinez Royo, então vigário de Nova Andradina, que prestava assistência religiosa à comunidade.
A obra avançou gradualmente e, mesmo antes de sua conclusão, o espaço já acolhia celebrações. Por volta de 1965, foram realizadas as primeiras crismas em Batayporã.
Os Pobres Servos chegam à região
Enquanto a comunidade se consolidava, permanecia uma necessidade fundamental: contar com sacerdotes que pudessem oferecer acompanhamento pastoral mais constante.
É nesse contexto que a história de Batayporã se encontra com a missão calabriana.
Em 6 de outubro de 1968, o Pe. José Torressan, dos Pobres Servos da Divina Providência, foi nomeado vigário ecônomo, atendendo Nova Andradina e Batayporã. Com ele atuava o Ir. Mário Bonomi. Os dois permaneceram nessa missão até 24 de fevereiro de 1970.
Foi um dos primeiros capítulos da presença dos Pobres Servos no então Mato Grosso, poucos anos depois da chegada da Congregação ao Brasil, em 1961.
Naquele período, a região recebeu ainda o auxílio de missionários provenientes do Rio Grande do Sul. Por meio de um acordo entre as dioceses de Dourados e Caxias do Sul, sacerdotes gaúchos passaram a colaborar no atendimento pastoral de Nova Andradina, Batayporã, Ivinhema e Angélica.
Entre eles estava o Pe. Antônio Galiotto, que, em 1970, diante da necessidade da população, passou a residir em Batayporã. As condições eram simples: inicialmente ocupou um pequeno quarto nos fundos da igreja. Mais tarde, a comunidade providenciou uma residência.
A presença permanente de um sacerdote preparava o caminho para um passo decisivo.
Nasce a Paróquia Santo Antônio de Pádua
Em 5 de novembro de 1971, por decreto de Dom Teodardo Leitz, então bispo diocesano de Dourados, foi criada oficialmente a Paróquia Santo Antônio de Pádua, tendo o Pe. Antônio Galiotto como seu primeiro pároco.
Pouco mais de um ano depois começaria uma etapa que atravessaria as décadas seguintes.
Em 25 de fevereiro de 1973, o Pe. Aldo Raimondo tomou posse, e a Paróquia passou aos cuidados dos Pobres Servos da Divina Providência, que permanecem responsáveis pela missão paroquial até os dias atuais.
A chegada definitiva dos religiosos calabrianos não significava apenas a administração de uma estrutura paroquial. A comunidade passou a fazer parte de uma missão marcada pelo anúncio do Evangelho, pela proximidade com as famílias, pela formação cristã e pelo serviço, à luz do carisma legado por São João Calábria.
Outro acontecimento significativo ocorreu em 18 de janeiro de 1976, quando o Ir. Mário Bonomi foi ordenado sacerdote, aos 55 anos, tornando-se o primeiro presbítero ordenado na Paróquia. Nesse período também atuavam Pe. José Torressan e Pe. Ângelo Maschi, com atendimento igualmente à comunidade de Taquarussu.
Uma missão construída por muitas mãos
Ao longo das décadas, numerosos religiosos assumiram diferentes responsabilidades em Batayporã.
Em 1983, o Pe. Ângelo Maschi tornou-se pároco. Naqueles anos, a missão contou também com a colaboração de sacerdotes, postulantes e junioristas da Congregação. A presença religiosa acompanhava não apenas as celebrações, mas a organização comunitária e as necessidades concretas da população.
Um exemplo dessa dimensão social aconteceu em 11 de outubro de 1986, quando 13 famílias receberam casas construídas com a colaboração de benfeitores da Itália, Alemanha e Estados Unidos. A localidade ficou conhecida como “Vila do Padre”, denominação preservada pela memória da população.
Poucos meses antes, em 23 de maio de 1986, havia sido estabelecido o dia 13 de junho, solenidade de Santo Antônio de Pádua, como feriado municipal em homenagem ao padroeiro.
Nas décadas seguintes, sucederam-se no serviço pastoral Pe. Leão Ledri, Pe. Antônio Mosele, Pe. Antonio Nazzari, Pe. Rudimar Borsoi, Pe. Antônio Gasparini, Pe. Odorico Filippo, Pe. Ibanor Zanatta, Pe. Everton dos Santos e Pe. José Haroldo de Oliveira, além de diversos vigários e outros religiosos que colaboraram com a missão.
Cada período trouxe desafios próprios e novas iniciativas. Houve reformas e ampliação da igreja matriz, melhorias no salão paroquial e a construção de uma nova casa paroquial, inaugurada em fevereiro de 2021. Mais recentemente, foram realizadas intervenções no presbitério e na pia batismal da matriz, além de melhorias nas capelas Nossa Senhora Aparecida, na Vila Mustafá, e Santa Luzia.
A igreja que um dia começou como um sonho diante de uma cruz colocada em uma clareira tornou-se, assim, patrimônio espiritual de sucessivas gerações.
Uma comunidade que também gera vocações
A caminhada paroquial ganhou outro capítulo significativo em 2024. A igreja de Batayporã acolheu duas ordenações presbiterais do clero diocesano: Pe. Leonildo Fiumari Neto, em 28 de setembro, e Pe. Matheus Henrique Teixeira da Silva, em 5 de outubro.
Os acontecimentos expressam uma dimensão que acompanhou a presença calabriana ao longo de sua história: o cuidado com as vocações e a formação de pessoas dispostas a colocar a própria vida a serviço da Igreja.
Na etapa mais recente dessa trajetória, após o período conduzido pelo Pe. José Haroldo de Oliveira, chegou à comunidade o Pe. Antonio Dall’O, dando continuidade à presença dos Pobres Servos e ao serviço pastoral confiado à Congregação.
Uma Paróquia presente em todo o território
Hoje, a Paróquia Santo Antônio de Pádua possui uma presença que ultrapassa a igreja matriz. São 10 comunidades rurais, três comunidades urbanas e 40 pequenas comunidades, formando uma extensa rede de evangelização e convivência cristã.
A vitalidade paroquial se expressa ainda nos conselhos, pastorais, movimentos e serviços que envolvem crianças, jovens, adultos e famílias. Catequese, liturgia, comunicação, animação vocacional, pastoral familiar, pastoral do batismo, dízimo, grupos de oração, movimentos e ministérios são algumas das diferentes expressões dessa participação.
Mais do que a quantidade de estruturas, esses grupos revelam uma Igreja construída pela corresponsabilidade. Religiosos e leigos assumem juntos a missão de fazer com que a fé celebrada no templo alcance as famílias, as comunidades rurais e urbanas e as diferentes realidades humanas do município.
De 1973 aos 65 anos de presença no Brasil
Ao celebrar os 65 anos da chegada dos Pobres Servos da Divina Providência ao Brasil, a história de Batayporã ajuda a compreender como aquela primeira semente missionária, lançada em solo brasileiro em 1961, foi criando raízes em diferentes regiões do país.
Em Batayporã, os Pobres Servos estiveram presentes já em 1968, no atendimento pastoral realizado pelo Pe. José Torressan e pelo Ir. Mário Bonomi. A partir de 25 de fevereiro de 1973, assumiram a Paróquia Santo Antônio de Pádua, dando início a uma presença permanente que atravessa mais de cinco décadas.
Muitos nomes fizeram parte desse caminho. Alguns permaneceram por anos; outros ofereceram sua contribuição durante períodos menores. Padres, irmãos, formandos, agentes pastorais, lideranças, benfeitores e inúmeras famílias ajudaram a escrever uma história que não pode ser resumida apenas por datas ou construções.
Da Missa celebrada sob o céu aberto em 1954 à ampla rede de comunidades existente hoje, permanece o mesmo propósito fundamental: anunciar Jesus Cristo e fazer da comunidade cristã um lugar de encontro, fraternidade e serviço.
É assim que a presença calabriana continua em Batayporã: não apenas como memória de uma história construída, mas como missão recebida e renovada a cada geração. Nos 65 anos dos Pobres Servos no Brasil, recordar essa caminhada é também agradecer a Deus por todos aqueles que, confiando na sua Providência, fizeram e continuam fazendo da Paróquia Santo Antônio de Pádua uma comunidade viva de fé.
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