5º Domingo da Quaresma
Quando Cristo chama pelo nome, nenhum túmulo é definitivo: onde tudo parecia perdido, ali começa a ressurreição para quem decide sair e confiar.
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20.03.2026 12:51:56 | 4 minutos de leitura

Pe. Rafael Pedro Susrina, psdp
A Palavra de Deus nos conduz a Betânia, diante de um túmulo fechado. Ali está Lázaro. Ali está também algo muito mais profundo: tudo aquilo em nós que perdeu a vida. E Jesus declara: “Eu sou a ressurreição e a vida. Quem crê em mim, mesmo que morra, viverá” (Jo 11,25).
Mas antes do milagre, há um caminho. E esse caminho revela algo essencial: não é Deus que está distante – muitas vezes somos nós que estamos fechados, endurecidos, aprisionados por dentro.
Lázaro morreu. Mas o Evangelho sugere algo ainda mais sério: há mortes que acontecem antes da morte física. Quantas vezes: a fé esfria, a esperança se apaga, o amor se torna pesado, a oração vira ausência. E então surge uma pergunta necessária – e exigente: o que em mim está morto?
Mas a Igreja, com sabedoria, vai mais fundo. Não basta constatar a morte. É preciso perguntar: quais são as causas? O que me levou até aqui? É aqui que entram as raízes – os chamados pecados capitais.
O Evangelho mostra três atitudes que se conectam diretamente com essas raízes profundas.
A tristeza sem esperança, falta de alegria evangélica. Marta e Maria choram. E o choro é legítimo. Mas há uma tristeza que paralisa, que fecha o coração, que já não espera mais nada. É aquela voz interior que diz: “Já é tarde… já não tem jeito…” Marta mesma diz: “Senhor, já cheira mal. Está morto há quatro dias” (Jo 11,39). Essa é a tristeza que perdeu a esperança – uma alma que já se acostumou com o túmulo.
A virtude contrária? A alegria evangélica, que não nega a dor, mas crê que Deus ainda pode agir.
O medo e a desconfiança, falta de fé viva. Jesus demora. E essa demora prova o coração. Quantas vezes pensamos: “Deus não me escutou”; “Deus não veio”; “Deus não fez o que eu esperava”. Isso revela uma raiz profunda: medo, desconfiança, falta de abandono em Deus. Mas Jesus pergunta: “Não te disse que, se creres, verás a glória de Deus?” (Jo 11,40)
A virtude contrária é a confiança – aquela fé que permanece mesmo quando Deus parece silencioso.
A preguiça espiritual, perda do fervor. Há um detalhe decisivo: Jesus manda tirar a pedra. “Tirai a pedra!” (Jo 11,39) Deus faz o impossível – ressuscitar. Mas o homem precisa fazer o possível – remover a pedra. Quantos obstáculos ainda conservamos: pecados não enfrentados, conversões não iniciadas, respostas a Deus que permanecem suspensas. Isso não é apenas fraqueza. Muitas vezes é indolência espiritual, uma espécie de acomodação na vida morna.
A virtude contrária é o zelo, o fervor, o coração que se levanta e age.
Depois, vem o momento decisivo: “Lázaro, vem para fora!” (Jo 11,43) Cristo não fala apenas com um morto de dois mil anos atrás. Ele chama cada um de nós. Sai da tua tristeza sem esperança. Sai da tua desconfiança. Sai da tua vida morna. Sai do teu pecado escondido. Mas há um detalhe impressionante: “O morto saiu, atado de mãos e pés…” (Jo 11,44) Ele está vivo – mas ainda preso.
Quantos cristãos vivem assim: já tocados por Deus, mas ainda amarrados a vícios, a padrões antigos, a pecados recorrentes. Por isso Jesus diz: “Desatai-o e deixai-o caminhar.” A conversão não termina no encontro com Cristo. Ela continua no processo de libertação.
Diante dessa Palavra, não basta admirar o milagre. É preciso deixar-se atingir.
Qual é a pedra que eu ainda não quis remover? Em que ponto a minha fé se tornou desconfiança? Onde a tristeza venceu a esperança? Que pecado repetido revela uma raiz mais profunda ainda não enfrentada?
Irmãos, esta liturgia não é de condenação – é de ressurreição. Jesus não chega tarde. Jesus chega quando a obra será claramente de Deus. Ele entra no nosso túmulo, chora conosco, e depois ordena a vida. E hoje Ele também diz: “Vem para fora.”
Não importa há quanto tempo. Não importa o estado da alma. Não importa o odor do passado. Se há voz de Cristo, há possibilidade de vida.
E então, diante dessa voz que chama pelo nome: eu realmente quero sair… ou, no fundo, ainda me acostumei com o meu próprio túmulo?
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