4º Domingo do Tempo Comum
Deus escolhe o que o mundo despreza para revelar a força da sua graça; por isso, não nos gloriemos em nós mesmos, mas no Senhor que sustenta os pequenos e faz deles sinal do seu Reino.
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29.01.2026 10:26:17 | 5 minutos de leitura

Pe. Rafael Pedro Susrina, psdp
A Palavra de Deus que hoje ressoa em nossa comunidade nos introduz a uma lógica que não é imediata, nem confortável, nem evidente. É a lógica do próprio Deus, que não coincide com os critérios do mundo, nem com nossas expectativas humanas, nem com a maneira como, muitas vezes, avaliamos sucesso, bênção ou realização.
O profeta Sofonias anuncia que Deus preserva um resto humilde e pobre, um povo que confia no Nome do Senhor (Sf 3,12). O salmo proclama um Deus que faz justiça aos oprimidos, sustenta os fracos e permanece fiel para sempre (Sl 145,7-10). No Evangelho, Jesus proclama bem-aventurados aqueles que o mundo dificilmente chamaria de felizes: os pobres, os mansos, os que choram, os perseguidos (Mt 5,1-12a).
Mas é São Paulo, na 2ª leitura, quem nos oferece a chave de interpretação dessa lógica divina. Três vezes, de modo insistente, ele afirma: “Deus escolheu…”. Não é um detalhe; é uma revelação sobre o coração de Deus e sobre o modo como Ele constrói o seu Reino.
“Deus escolheu o que o mundo considera estúpido, para assim confundir os sábios” (1Cor 1,27a)
O primeiro gesto de Deus nos mostra que Ele não se apoia na sabedoria humana para manifestar Seu Reino, mas naquilo que o mundo considera absurdo ou sem sentido. Este é o caminho da cruz, que aos olhos humanos parece loucura, mas revela a sabedoria verdadeira de Deus.
Aqui ecoa a Bem-aventurança dos pobres em espírito: felizes são aqueles que reconhecem sua dependência de Deus e confiam na graça que os sustenta.
Em que aspectos de nossa vida ainda confiamos mais em nossa própria sabedoria do que na sabedoria de Deus?
“Deus escolheu o que o mundo considera fraco, para confundir os fortes” (1Cor 1,27b)
A segunda escolha revela que a força humana não é critério de eleição divina. A fraqueza, quando confiada a Deus, torna-se espaço de manifestação da graça. Quem se sente pequeno, limitado ou incapaz pode se tornar instrumento de força espiritual, porque Deus opera na fragilidade.
A Bem-aventurança dos mansos ressoa aqui: eles não buscam impor-se, mas entregam-se à vontade do Pai, permitindo que a força verdadeira de Deus se manifeste.
Temos coragem de nos reconhecer fracos, para que Deus seja tudo em nós, ou ainda tentamos vencer sozinhos e controlar nossa vida?
“Deus escolheu o que para o mundo é sem importância e desprezado, o que não tem nenhuma serventia, para mostrar a inutilidade do que é considerado importante, para que ninguém se glorie diante dele” (1Cor 1,28-29)
São Paulo vai ao extremo da lógica divina. Deus escolhe aqueles que, aos olhos do mundo, não contam, não aparecem, não produzem resultados. Estes se tornam pedras vivas do Reino, testemunho de que a verdadeira glória não está na visibilidade humana, mas na fidelidade ao Senhor.
A Bem-aventurança dos perseguidos e rejeitados se ilumina neste ponto: felizes são aqueles que não buscam aplauso nem reconhecimento, mas permanecem firmes na esperança de que Deus vê e recompensa o coração fiel.
Diante dos que o mundo despreza, somos de Deus ou de nós mesmos?
São Paulo encerra esta tríade com uma síntese desafiadora: “Aquele que se gloria, glorie-se no Senhor” (1Cor 1,31)
Cristo é nossa sabedoria, justiça, santificação e libertação (1Cor 1,30). Tudo o que somos e temos só faz sentido quando nos reconhecemos instrumentos da graça. Fora d’Ele, até o que parece virtude é vazio.
O Papa Bento XVI nos lembra que a fé cristã nasce do encontro com Cristo, não do esforço humano. Quando Cristo é o centro, tudo encontra sentido; quando Ele não é, a fé se reduz a moralismo ou ativismo (Deus Caritas Est, n. 1).
Em quem colocamos nossa glória e esperança - em nós mesmos ou no Senhor que nos escolheu, mesmo quando somos loucos, fracos e desprezados?
A liturgia deste domingo não nos diminui; ela nos devolve à verdade. Deus constrói o seu Reino a partir dos pequenos para que a esperança nunca dependa da força humana, mas da fidelidade divina. As Bem-aventuranças são o retrato do próprio Cristo e o caminho concreto da felicidade que não passa.
Que saiamos desta Eucaristia com o coração mais livre: livre da necessidade de parecer fortes, livre da tentação de nos gloriarmos em nós mesmos, livre para confiar. E que esta pergunta permaneça ecoando em nosso coração ao longo da semana, como convite à conversão serena e confiante: em quem, afinal, eu coloco a minha glória e a minha esperança?
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