4º Domingo do Advento
Às portas do Natal, a liturgia nos conduz à justiça silenciosa de São José, um coração justo que confia, obedece e acolhe o mistério de Deus sem exigir explicações.
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18.12.2025 11:13:34 | 5 minutos de leitura

Pe. Rafael Pedro Susrina, psdp
O tempo urge. O Advento chega ao seu ponto mais alto. Já não estamos apenas preparando caminhos: estamos às portas do mistério. Em poucos dias celebraremos o nascimento do Filho de Deus. E a liturgia, como mãe e mestra, nos conduz ao coração desse mistério não por meio de emoções fáceis ou palavras exuberantes, mas por um caminho exigente, silencioso e profundamente evangélico: o caminho da justiça.
É significativo que, neste último domingo do Advento, a Igreja nos proponha a figura de São José, chamado simplesmente de “justo” (Mt 1,19). Nenhum milagre lhe é atribuído. Nenhuma palavra sua é registrada nos Evangelhos. E, no entanto, Deus confia a ele o que tem de mais precioso: Jesus e Maria. Isso nos obriga a perguntar: que tipo de justiça é essa que torna um homem digno de acolher Deus em sua casa?
A 1ª leitura nos apresenta o rei Acaz (Is 7,10-14). Diante do convite de Deus para pedir um sinal, ele se recusa. Sua resposta soa piedosa, mas esconde um coração fechado, incapaz de confiar. Acaz não quer depender de Deus; prefere manter o controle. Quantas vezes também nós, sob aparência de prudência ou religiosidade, recusamos os caminhos de Deus porque eles nos desinstalam?
Deus, porém, não se deixa bloquear. Ele mesmo toma a iniciativa: “O próprio Senhor vos dará um sinal”. A salvação não nasce da audácia humana, mas da fidelidade divina. O Advento nos revela um Deus que vem mesmo quando o homem hesita, um Deus que não espera condições ideais para agir.
É nesse contexto que vemos José, como o verdadeiro contraste. Enquanto Acaz fecha o coração, José o abre. Mateus o chama de justo. Na tradição bíblica, o justo não é o impecável, mas aquele que vive em escuta obediente, em relação reta com Deus. São Tomás de Aquino explica que a justiça bíblica é a virtude que ordena toda a vida segundo a vontade divina. José é justo porque, mesmo ferido pela incompreensão, não se fecha, não endurece, não julga.
Diante do mistério da gravidez de Maria, José poderia reagir com dureza ou se colocar no centro. Não o faz. Decide afastar-se em silêncio. Sua justiça é misericordiosa. São Jerônimo afirma que José não quis denunciar Maria porque era justo, isto é, porque preferiu sofrer em silêncio a ferir quem amava. Aqui já se revela um coração preparado para Deus: um coração que ama mais do que se defende.
O Salmo 23(24) aprofunda esse retrato interior e se torna uma verdadeira pergunta dirigida a cada um de nós: “Quem subirá até o monte do Senhor? Quem ficará em sua santa morada?” A resposta é clara: aquele que tem mãos puras e coração inocente. Não se trata de perfeição moral, mas de integridade interior. José é esse homem. Suas mãos são puras porque não ferem, não se apropriam, não controlam. Seu coração é inocente porque permanece aberto ao mistério de Deus.
No sonho, o anjo lhe diz: “Não tenhas medo” (Mt 1,20). O medo é o grande inimigo da justiça. O medo fecha, endurece, afasta. Deus não oferece a José explicações detalhadas; oferece-lhe uma palavra de confiança. São Bernardo de Claraval observa que José foi escolhido não por compreender o mistério, mas por ser fiel dentro do mistério. A justiça de José é uma justiça que confia quando não entende.
São Paulo, na 2ª leitura (Rm 1,1-7), amplia nosso olhar: o Filho que nasce é o cumprimento das promessas feitas a Davi, verdadeiro homem e verdadeiro Deus.
O Evangelho termina com uma frase que deveria ecoar em nosso coração: “José fez conforme o anjo do Senhor lhe havia mandado” (Mt 1,24). Nenhuma palavra a mais. São João Crisóstomo comenta que José manifesta sua grandeza não por feitos extraordinários, mas pela prontidão da obediência. O mundo é salvo não por discursos, mas por uma obediência silenciosa.
Irmãos, às portas do Natal, a liturgia nos interpela com profundidade: que tipo de coração estamos oferecendo a Deus? Um coração que exige explicações ou um coração que confia? Uma justiça que julga e controla ou uma justiça que acolhe e se abandona?
O Emanuel, Deus-conosco, está próximo. Ele não força a entrada. Procura corações justos, como o de José: simples, retos, disponíveis. Neste último passo do Advento, aprendamos que ser justo é permitir que Deus conduza nossa história. Se Jesus viesse hoje ao nosso coração, encontraria um espaço justo, confiável e obediente, ou ainda precisaria esperar porque o medo e a autossuficiência ocupam o lugar que deveria ser Dele?
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