3º Domingo do Tempo Comum
Quando deixamos que Deus dirija nossas ações segundo a sua vontade, o cotidiano se torna lugar de conversão, a comunidade cresce na unidade e a alegria do Evangelho floresce como sinal do Reino que se aproxima.
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22.01.2026 22:17:14 | 4 minutos de leitura

Pe. Rafael Pedro Susrina, psdp
A liturgia deste domingo nos situa plenamente no Tempo Comum. E isso não é um detalhe secundário. Chamamos de “comum” não porque seja banal ou sem importância, mas porque é o tempo ordinário da vida cristã, o tempo em que aprendemos, dia após dia, a viver como discípulos de Jesus, iluminados por Sua presença constante na Palavra, na Eucaristia e na vida da Igreja.
É justamente neste tempo, aparentemente simples e repetitivo, que o Senhor nos educa na fidelidade, na perseverança e na santidade concreta. O Tempo Comum nos ensina que a fé não se sustenta apenas nos grandes momentos, mas se constrói no cotidiano: nas escolhas, nas relações, no trabalho, na oração fiel, no serviço silencioso.
A oração da coleta expressa com clareza esse caminho espiritual quando suplicamos: “Deus eterno e todo-poderoso, dirigi nossas ações segundo a vossa vontade, para que, em nome do vosso dileto Filho, mereçamos frutificar em boas obras.”
Não pedimos sentimentos extraordinários nem experiências extraordinárias. Pedimos algo muito mais profundo: que nossas ações sejam dirigidas por Deus. Reconhecemos que, sem essa direção, nossas obras podem até parecer boas, mas não serão fecundas segundo o coração de Cristo.
Quem dirige, de fato, as nossas ações no dia a dia? É a vontade de Deus ou nossas conveniências, impulsos e interesses pessoais?
Frutificar em boas obras não é resultado apenas de esforço humano, mas de uma vida ordenada segundo a vontade divina. Como recorda Santo Agostinho, Deus não coroa as nossas obras como se fossem apenas nossas, mas como obras que Ele mesmo realizou em nós pela graça. A verdadeira fecundidade nasce da docilidade.
A 1ª leitura, do profeta Isaías (8,23b-9,3), anuncia: “Fizeste crescer a alegria, e aumentaste a felicidade” (Isaías 9,1). O povo que caminhava nas trevas não recebeu apenas uma promessa futura, mas experimentou a ação concreta do Senhor na história.
A liturgia nos recorda que a alegria cristã cresce quando deixamos Deus agir, quando permitimos que Ele ilumine as zonas escuras da nossa vida. Não se trata de uma alegria superficial, mas de uma felicidade enraizada na certeza de que Deus caminha conosco.
Nossa vida cristã tem sido sinal dessa alegria que cresce? Ou temos permitido que o cansaço, a divisão interior e a rotina apaguem a luz do Evangelho?
Na 2ª leitura, São Paulo (1Cor 1,10-13.17) é firme: “Irmãos, eu vos exorto, pelo nome do Senhor nosso, Jesus Cristo, a que sejais todos concordes uns com os outros e não admitais divisões entre vós” (1Cor 1,10). A divisão é sempre um sinal de que Cristo deixou de ser o centro. Quando o ego ocupa o lugar do Senhor, surgem disputas, rivalidades, grupos fechados, julgamentos e rupturas.
A comunidade cristã só frutifica em boas obras quando vive na unidade. E essa unidade não é uniformidade, mas comunhão em torno de Cristo.
Sou instrumento de comunhão ou, ainda que sem perceber, alimento divisões? Minhas palavras, atitudes e escolhas constroem ou ferem o Corpo de Cristo?
No Evangelho (Mt 4,12-23) Jesus inaugura sua missão com um chamado claro e permanente: “Convertei-vos, porque o Reino dos Céus está próximo” (Mt 4,17). A conversão não é um evento isolado do passado, mas um processo contínuo, especialmente vivido no Tempo Comum. Converter-se é permitir que o Senhor vá, pouco a pouco, ordenando nossas ações, purificando intenções, corrigindo rumos e fortalecendo o bem.
Converter-se é passar das trevas à luz, da divisão à comunhão, da vontade própria à vontade de Deus. É deixar que Cristo caminhe conosco e nos ensine, dia após dia, a viver como verdadeiros discípulos.
Irmãos, o Tempo Comum nos chama a uma santidade possível, concreta e perseverante. Nesta semana, acolhamos de modo especial a súplica da coleta como programa de vida: “Dirigi nossas ações segundo a vossa vontade.” Que cada decisão, cada palavra e cada gesto sejam iluminados por essa oração. Assim, crescerá em nós a alegria anunciada por Isaías, a unidade pedida por São Paulo e a conversão proclamada por Jesus.
Se Deus dirigisse hoje todas as minhas ações segundo a sua vontade, minha vida revelaria mais alegria, mais unidade e uma conversão visível – ou eu precisaria admitir que ainda resisto ao Reino que se aproxima?
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Imagem: IA
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