3º Domingo do Advento – Domingo Gaudete
A verdadeira alegria cristã não nasce da ausência de prisões ou desertos, mas da certeza serena de que o Senhor está próximo e já faz florescer a vida onde tudo parecia estéril.
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13.12.2025 16:33:12 | 5 minutos de leitura

Pe. Rafael Pedro Susrina, psdp
O Advento é o tempo em que a Igreja inteira se coloca em postura de espera e vigilância. No entanto, neste terceiro domingo, chamado Gaudete, a liturgia rompe a sobriedade espiritual das semanas anteriores e nos convida a um movimento interior decisivo: alegrar-se no Senhor, porque Ele está próximo.
A antífona de entrada proclama: “Alegrai-vos sempre no Senhor! Repito, alegrai-vos! O Senhor está próximo.” Não se trata de uma sugestão piedosa, mas de um imperativo que nasce da lógica própria da fé. A alegria aqui não é euforia; é certeza. Certeza da proximidade de Deus.
Porém, o Evangelho nos surpreende ao mostrar João Batista na prisão (Mt 11,2-11). Como pode um domingo dedicado à alegria ter um profeta encarcerado? É ali, na escuridão daquela cela, que João envia discípulos a Jesus com a pergunta: “És tu aquele que há de vir, ou devemos esperar outro?” (Mt 11,3). João está preso, e Jesus não o liberta. Aqui se revela o paradoxo fundamental da alegria cristã: ela não nasce da ausência de sofrimento, mas da presença de Deus.
A resposta de Jesus não é teórica; é construída sobre sinais concretos da chegada do Reino: “os cegos recuperam a vista, os paralíticos andam, os leprosos são purificados, os surdos ouvem, os mortos ressuscitam e aos pobres é anunciada a Boa-Nova” (Mt 11,4-5). Jesus não manda João esperar outro Messias; Ele mostra que já está acontecendo aquilo que transforma o deserto em jardim.
E aqui a 1ª Leitura ilumina os gestos de Cristo (Is 35,1-6a.10). Isaías anuncia: “o deserto e a terra árida exultarão”, “as mãos fracas se fortalecerão”, “os corações abatidos criarão ânimo”. É o anúncio de um tempo em que a criação inteira floresce novamente porque Deus vem ao encontro do seu povo.
O Evangelho mostra esse tempo acontecendo. Isaías é promessa; Jesus é cumprimento. Isso nos ensina que a alegria cristã não é um sentimento superficial ou construído artificialmente, mas o reconhecimento de que Deus já começou a restaurar o que parecia morto. Por isso Santo Agostinho afirma: “Fizeste-nos para Ti, e inquieto está o nosso coração enquanto não repousa em Ti.”
A inquietação de João na prisão, a inquietação de Israel no deserto, e a nossa própria inquietação interior só encontram repouso – e, portanto, alegria – quando reconhecemos a presença do Senhor que vem ao nosso encontro.
O Salmo 145(146) reforça essa visão: “O Senhor abre os olhos aos cegos, o Senhor faz erguer-se o caído, o Senhor protege o estrangeiro.” O salmista não descreve um Deus distante, mas um Deus que age, que cura, que levanta, que restaura. É este Deus que o Advento nos manda esperar. A verdadeira alegria nasce de reconhecer a ação concreta, fiel e misericordiosa de Deus na história humana e na nossa história pessoal.
A 2ª Leitura, da Carta de Tiago (Tg 5,7-10), acrescenta uma atitude essencial: a alegria que vem de Deus exige paciência. Sede pacientes até a vinda do Senhor, exorta o apóstolo. A alegria madura não é imediata; é fruto da perseverança. Tiago utiliza a imagem do agricultor que aguarda a chuva: ele trabalha, cultiva, espera, confia – e seus frutos chegam no tempo certo. Assim também nós: não apressamos Deus, não condicionamos sua graça, não abandonamos o caminho nos tempos de aridez. Não existe alegria cristã sem fidelidade cristã.
Os Santos Padres iluminam este domingo. São Leão Magno afirma que “ninguém está excluído da alegria, porque a causa da alegria é comum a todos”. A causa da alegria é Cristo, o Deus que se fez próximo. Portanto, a alegria cristã não é privilégio de poucos, nem prêmio para os fortes ou perfeitos: é dom universal destinado inclusive àqueles que, como João na prisão, vivem provações e dúvidas. Mas essa constatação exige que deixemos a Palavra nos interrogar: quais são as minhas prisões interiores, aquelas que sufocam a alegria? Tenho buscado alegria nas circunstâncias variáveis ou na presença constante de Deus? Permito que o deserto interior floresça pela graça da fé, paciência e confiança?
E aqui se integra a Oração da Coleta, na qual pedimos ao Senhor a graça de “chegar às alegrias da salvação e celebrá-las sempre com intenso júbilo”. Esta súplica só se realiza quando deixamos Cristo tocar nossas feridas, restaurar nossos desertos e conduzir-nos à esperança firme. A alegria do cristão não é uma emoção que sentimos, mas uma decisão iluminada pela fé e sustentada pela paciência.
Por isso, neste Domingo Gaudete, a Igreja nos chama a três atitudes concretas: reconhecer e agradecer as obras de Deus já presentes em nossa vida; pedir a graça da paciência, para que a alegria amadureça e não se torne superficial; escolher conscientemente a alegria que nasce da fé, e não a alegria instável das circunstâncias.
Cristo vem. E onde Ele vem, tudo floresce. Que esta certeza nos devolva hoje a alegria profunda e madura que só o Evangelho pode gerar. E eu, estou permitindo que Cristo floresça nos desertos da minha vida?”
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