2º Domingo da Quaresma
No caminho da Quaresma, subamos o monte com Cristo: deixemos o orgulho para abraçar a humildade, vençamos o medo com confiança, superemos a tibieza com fervor — e, fixando os olhos somente em Jesus, aprendamos a descer para amar e caminhar com esperança até a glória da Ressurreição.
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27.02.2026 08:16:36 | 4 minutos de leitura

Pe. Rafael Pedro Susrina, psdp
A Liturgia nos conduz ao alto do monte, onde o Senhor se transfigura diante de Pedro, Tiago e João (Mt 17,1-9). Depois do anúncio da Paixão, Jesus revela a sua glória. Antes da cruz, a luz; antes do escândalo do Calvário, a consolação do Tabor. Deus fortalece os seus para que não desanimem no caminho.
A 1ª leitura (Gn 12,1-4a) apresenta o chamado de Abrão: “Sai da tua terra”. A fé começa com um êxodo. Deixar seguranças, abandonar a autossuficiência, romper com o orgulho que nos prende a nós mesmos. Não é por acaso que a Quaresma nos convida à conversão: subir o monte implica descer do pedestal.
No Tabor, ressoa a voz do Pai: “Este é o meu Filho amado… escutai-o!”. O pecado capital da soberba fecha os ouvidos. O orgulhoso escuta apenas a si mesmo; não aceita correção, não acolhe a Palavra, não se deixa conduzir.
Quantas vezes nossas quedas têm raiz na soberba? Quando preferimos nossa vontade à de Deus? Quando queremos um Messias segundo nossas expectativas, mas rejeitamos o Cristo da cruz?
A virtude contrária é a humildade. Humildade não é desprezo de si, mas verdade diante de Deus. Abrão parte porque confia; Pedro só amadurecerá quando aprender a descer do monte e seguir o Senhor até Jerusalém. Perguntemo-nos: escuto verdadeiramente Cristo ou apenas confirmo minhas próprias ideias religiosas?
A Transfiguração acontece após o anúncio da cruz. Jesus sobe o monte para rezar. A preguiça espiritual – aquela indolência interior que esfria o coração – é inimiga da subida. Ela nos faz permanecer na planície da mediocridade. Não é esse um dos males do nosso tempo? A dispersão, o ativismo sem alma, a oração apressada, a vida sacramental negligenciada? Queremos a luz do Tabor, mas sem o esforço da subida.
O fervor – zelo pelas coisas de Deus – reacende a chama. São Paulo exorta na 2ª leitura (2Tm 1,8b-10) a não nos envergonharmos do testemunho do Senhor, mas a sofrermos pelo Evangelho com a força de Deus. O fervor nos tira da tibieza e nos coloca em caminho.
Tenho cultivado minha vida interior com constância? Ou me deixo dominar pela indolência espiritual?
Os discípulos caem com o rosto em terra, tomados de medo. O medo é uma das raízes profundas de muitos pecados: medo de perder, medo de sofrer, medo de confiar. Por medo, negamos; por medo, omitimos; por medo, nos calamos quando deveríamos testemunhar. Mas Jesus se aproxima, toca-os e diz: “Levantai-vos, e não tenhais medo”. A virtude contrária é a confiança em Deus, a coragem que nasce da filiação. Não somos órfãos. O Pai já revelou o destino final do Filho: a glória.
A Transfiguração nos recorda que a cruz não é fracasso, mas passagem. Confio verdadeiramente que Deus conduz minha história, mesmo quando atravesso a noite? Ou cedo ao desânimo e à tristeza espiritual?
Pedro exclama: “Senhor, é bom ficarmos aqui!”. Ele experimenta a alegria da presença de Deus. Contudo, deseja fixar o momento, construir tendas, permanecer na consolação.
Há uma tristeza que não vem de Deus – aquela que nasce do fechamento, da autocompaixão, da falta de esperança. Ela pode tornar-se um vício espiritual. A alegria evangélica, ao contrário, não ignora a cruz, mas sabe que a última palavra é da Ressurreição. A Quaresma não é tempo de tristeza estéril, mas de esperança ativa. O Senhor nos mostra a meta para que não percamos o ânimo.
Ao final, eles “não viram mais ninguém, a não ser somente Jesus”. Eis o essencial. A experiência de Deus nos purifica das ilusões, das dispersões, dos ídolos. Fica Jesus. Mas é preciso descer do monte. A vida cristã não é fuga do mundo, mas missão. Subimos para contemplar; descemos para amar.
Irmãos, neste caminho quaresmal, peçamos a graça de reconhecer as raízes profundas de nossos pecados. Onde há orgulho, que floresça a humildade. Onde há medo, que cresça a confiança. Onde há preguiça espiritual, que arda o fervor. Onde há tristeza, que resplandeça a alegria do Evangelho. Que, ao final desta subida, possamos também ouvir no íntimo do coração a voz do Pai e fixar os olhos somente em Jesus – e, sustentados por Ele, caminhar com esperança até a glória eterna. Assim seja!
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