Utilizamos cookies para melhorar a sua experiência em nosso site. Ao continuar navegando você concorda com a nossa política de privacidade
Aceitar Cookies
Recusar Cookies
 
 

É possível uma economia que evangeliza?

- Reflexões da Pré-Jornada de Formação Calabriana 2026 –

Pastoral Calabriana

03.08.2026 13:38:02 | 7 minutos de leitura

É possível uma economia  que evangeliza?

Equipe Jornada de Formação Calabriana

Alguns temas ficam ‘escondidos’ em nossos inconscientes, individuais e coletivos, por muito tempo. Precisamos libertá-los, tirá-los da escuridão. Só quando somos capazes de olhar de frente para algo, é que temos a capacidade de decidir o que queremos fazer com aquilo. Do contrário, aquilo que não olhamos, nos domina. Aquilo que ignoramos, nos conduz automaticamente em nossa vida cotidiana, sem nos darmos conta.

Uma lucidez incômoda surge quando começamos a analisar nossas relações no mundo da economia. Dizia um sábio sacerdote que se questionava sobre nossas incoerências cristãs: “Aos finais de semana somos adeptos do cristianismo; mas durante a semana somos moralmente capitalistas”. Acredito que, de certo modo, esse sacerdote atualizava o que Jesus já dizia: “Nem todo o que me diz: ‘Senhor, Senhor!’, entrará no reino dos céus, mas aquele que faz a vontade de meu Pai, que está nos céus.” (Mateus 7, 21). Em outras palavras, precisamos viver com coerência cristã todas as dimensões da nossa vida, e a economia é uma delas. Não basta pregar bons valores, anunciar a justiça e a solidariedade; se na prática diária acabamos vivendo outras regras. É diante dessa inquietação que surge a pergunta: ‘Será que em nossas relações econômicas, os valores e os critérios que embasam nossas decisões são realmente cristãos?’ 

Papa Francisco nos deu um presente de lucidez quando convidou milhares de jovens economistas para o encontro “A economia de Francisco”:
“Caros amigos, escrevo para convidá-los para uma iniciativa que tanto desejo. Um evento que me vai me permitir encontrar jovens homens e mulheres que estudam ou interessados em uma economia diferente — uma que gera vida e não mata, que inclui e não exclui, que humaniza e não desumaniza, que cuida do meio ambiente e não o saqueia. Um evento para nos ajudar a nos encontrar, a estar juntos e a fazer um 'pacto' para mudar a economia de hoje e dar alma à economia de amanhã.” (2019) 

Com essas palavras, enviadas do Vaticano em 1° de maio de 2019, o papa Francisco convidava todos os jovens católicos interessados em pensar em uma forma diferente de fazer economia. Esse evento, ocorrido em setembro de 2022, já gerou centenas de frutos pelo mundo afora, com iniciativas formativas, empreendimentos sociais, articulações em níveis nacionais e regionais, entre tantas outras, inclusive envolvendo pessoas e associações de diferentes tradições religiosas. São centenas de iniciativas buscando encontrar soluções éticas para o mundo da economia; caminhos que se entrecruzam no universo da economia solidária, do cooperativismo, da economia circular, economia verde, entre tantas outras.

E a grande luz gerada pelo Papa Francisco talvez tenha sido mesmo este convite: ‘Vamos olhar juntos para o mundo da economia!’. “Assim como está, - dizia ele -, essa economia mata!”. Mata porque gera desigualdade, produzindo abundância para poucos e pobreza para milhões. Mata porque gera competição desenfreada, ao invés de cooperação. Mata porque impõe jornadas exaustivas de trabalho, desprezando direitos mínimos de dignidade humana. Mata porque explora recursos naturais de maneira irresponsável, causando destruição e desequilíbrio ambiental. Se esses são os ‘frutos podres’ dessa ‘árvore’ da economia, precisamos olhar para suas raízes (valores, propósitos, critérios) e para seu tronco (estrutura, modelos). 

Desde cedo aprendemos socialmente, por exemplo, que “tempo é dinheiro”, e que “negócio é negócio”. São pequenas expressões populares que sintetizam uma compreensão da realidade, moldando nossas visões de mundo e normas culturais. Somente essas duas expressões nos revelam o quanto nossa vida é perpassada por um ‘espírito capitalista’, que contabiliza tudo financeiramente; e que ao mesmo tempo coloca as relações econômicas em um âmbito de não julgamento de valor, porquê ‘nos negócios vale tudo’. É isso que precisamos questionar. Esses são lugares-relações que precisamos evangelizar!

Também precisamos questionar até mesmo alguns discursos religiosos, pois o ‘espírito capitalista’ ainda fundamenta algumas teologias que colocam a riqueza como graça divina e a pobreza como castigo. A famosa teologia da prosperidade é um discurso perfeito para justificar a lógica perversa da injustiça presente no mundo, jogando toda responsabilidade para Deus e nos impossibilitando de ver que a riqueza e a pobreza são socialmente construídas.

Sendo assim, quando nos perguntamos “É possível uma economia que evangeliza?”, queremos reconhecer, antes de tudo, que existem alguns sistemas e lógicas econômicas que não evangelizam, porque não geram vida digna, porque não expressam valores de justiça, de fraternidade e de solidariedade, critérios centrais na boa nova deixada por Jesus. E esse é o primeiro passo: reconhecer que estamos vivendo e agindo, como cristãos, dentro de um sistema fundamentalmente não cristão. E que na maioria das vezes somos coniventes. 

Pensando em um exemplo bem concreto, recordamos novamente do Papa Francisco:
“Temos que escolher se devemos comprar produtos que poderiam ter sido feitos através da exploração de outras pessoas. Alguns de nós, por indiferença ou distraídos pelas preocupações do dia a dia ou por razões econômicas fecham um olho, enquanto outros escolhem fazer algo positivo (...) Comprar é sempre um ato moral além do econômico. Se trata de um passo fundamental, porque não podemos simplesmente reclamar sobre como as coisas vão no mundo da economia, se não fizermos escolhas conscientes para com o que nos toca, ou seja, na compra de produtos, serviços e assim por diante.” (Laudato Si, 2015).

Nesse exemplo concreto podemos encontrar uma chave de leitura fundamental para diversos outros âmbitos das relações econômicas. O Papa Francisco orientou a ‘fazermos escolhas conscientes’. Se assumirmos isso como um compromisso individual de coerência cristã, já teremos muitos frutos. Se tivermos a coragem de assumirmos compromissos coletivos em nossas diversas casas, paróquias e instituições, imaginemos quanta mudança positiva podemos gerar.

No Manual de gestão das obras calabrianas, encontramos uma profunda reflexão feita pela Irmã Alessandra Smerilli, no tópico “Quando a economia encontra o Evangelho”. Ela nos convida a compreender que “a economia não é neutra”, que “a lógica do mercado é diferente da lógica do Evangelho”, que “a ‘mão invisível’ do mercado é visível para quem olha com sensibilidade e criticidade”. Essa consciência nos interpela a assumir compromissos concretos, que passam por uma mudança real em nossas vidas, repensando aquilo que compramos, de quem compramos, onde investimos, os modelos de produção e trabalho, entre tantos outros aspectos que contribuem ou não para a garantia da dignidade humana, do desenvolvimento justo e do cuidado do meio ambiente. 

Esta é certamente mais uma das importantes tarefas do nosso tempo. Junto ao convite para uma conversão ecológica, também somos convocados a uma ‘conversão econômica’. São João Calábria já nos apontava que “A Obra é para os tempos atuais”, não no sentido de nos atualizarmos e nos conformarmos com as últimas tendências do momento. Pelo contrário, esse chamado é um convite para compreendermos mais profundamente o nosso tempo, a fim de respondermos com fidelidade e criatividade evangélica. Se nossa resposta for coerente, ela também será profética, e precisará ir na contramão dos sistemas e lógicas econômicas que não correspondem aos valores do Evangelho.

----

Agradecemos por estar aqui! Acompanhe as Notícias da Congregação através do canal no WhatsApp!

Clique aqui e inscreva-se em nosso canal no WhatsApp.

Mais em Pastoral Calabriana
 

Copyright © Pobres Servos da Divina Providência.
Direitos reservados, acesse a política de privacidade.