Senhor, dá-me dessa Água - 3º Domingo Quaresma
Sede de Deus, Fonte de Vida: o Encontro Transformador com Cristo
Artigos
06.03.2026 09:54:46 | 4 minutos de leitura

Diác. Arão Tchitali Cachuco, psdp
O tempo da Quaresma que a Igreja nos propõe é um tempo de nos reencontrarmos com Deus, revermos nossa história e nossa vida à luz do Evangelho.
Jesus está atravessando uma terra carregada de história que remontava às origens de Israel. A fadiga de Jesus é, portanto, resultado da semeadura que está fazendo, é trabalho necessário para que se produza o fruto. Se o grão de trigo morrer, dá muito fruto (12,24). Neste versículo, porém, a fadiga está relacionada com a caminhada/ a viagem de Jesus. Jesus fica sentado no manancial, ocupa o lugar. Jesus ocupará permanentemente o lugar do antigo manancial. De fato, ele oferecerá água que brotará do manancial aberto em seu lado (19,34). Ele próprio é o verdadeiro manancial, que toma o lugar da Lei, da tradição e do templo.
O encontro que o Evangelho se refere é muito mais do que um encontro histórico entre duas pessoas. É muito mais do que uma mulher samaritana e um homem. É Deus indo ao encontro daqueles que se perderam. Deus não desiste; muda o seu roteiro para ir ao encontro dessa pessoa. Segundo o relato bíblico, de onde Jesus estava para onde deveria ir, melhor caminho seria quase uma linha reta. Só que Ele vai até a região de Sicar, ou Siquém. Ele dá uma volta mais longa porque lá havia alguém que Ele precisava encontrar.
A mulher não tem nome próprio; seu único traço é a sua pertença à religião; a mulher samaritana é a representante de Samaria que matará sua sede no manancial de Jacó, ou seja, em sua antiga tradição. Essa mulher simboliza um povo que, em determinado momento da vida, desistiu de seguir o Deus de Israel. Este povo que era hebreu, mas, no percurso da história, começou a adorar outros deuses. Jesus ao pedir agua a mulher, derrubou as barreiras que os separava. Ao fazer um pedido, elimina a superioridade proverbial dos Judeus com referência ao Samaritanos. Jesus responde de maneira indireta, excitando a curiosidade da mulher porque ela não conhece outra água senão a daquele poço e vê que Jesus não tem os utensílios necessários para tirá-la. Pergunta-se onde poderá buscar a água viva que promete. A estranheza da mulher está em paralelo com a de Nicodemos. Nicodemos não podia compreender a afirmação de Jesus: é preciso nascer de novo/ do alto (3,3). Nem Nicodemos nem a mulher, educados na Lei, estão acostumados à ideia da gratuidade, não conhecem o amor de Deus. Não têm mais vinho (2,3).
O poço significava a Lei, sintetizava as figuras dos patriarcas e a de Moisés, o legislador. A mulher conhece o dom de Jacó (nos deu), mas desconhece o de Deus. Com Jesus não haverá água/Lei exterior a acompanhar o povo, mas fonte interna de vida a guiar o indivíduo. “Vai chamar o teu marido e volta aqui” No plano em que se move a narração, o marido (recorde-se a palavra “baal”=marido/senhor), tem conotação religiosa; representa a busca de seguranças opostas ao desígnio de Deus, toda aliança contraria à sua, a pretensão enganosa de encontrar solução fora dele. Samaria atraiçoara a Deus, o esposo do povo, buscando outros apoios. Jesus louva a sinceridade dela, mas lhe revela toda gravidade de sua condição.
A mulher abandona o cântaro, que era sua conexão com o poço; rompe com a Lei. Esta é a sua resposta de fé ao Messias que lhe deu a conhecer. Quando a mulher vai anunciar, todos vão a busca dessa água nova. Como a mulher, também eles estão conscientes de que algo de essencial lhes falta. O seu caminho é o da liberdade e da esperança. Nós precisamos continuar bebendo dessa água viva que é Cristo. Essa água nos é oferecida continuamente na Eucaristia, fonte e ápice da vida cristã, onde o Senhor se dá a nós como alimento e sustento para o caminho. Ao mesmo tem tempo, bebemos dessa água na oração, na escuta da palavra e na comunhão com a Igreja. Assim, permanecendo unido a Cristo, nossa sede mais profunda é saciada e nosso coração encontra a verdadeira vida.
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