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    Rezar com os salmos

    Cadernos sobre a oração – 2

    Jubileu 2025

    23.05.2024 08:00:00 | 8 minutos de leitura

    Rezar com os salmos

    Santo Tomás de Aquino, sobre a importância do Saltério: “Seu escopo é fazer rezar, elevar a alma até Deus através da contemplação de sua majestade infinita, da meditação da beatitude eterna, da comunhão com a santidade de Deus e a imitação operosa de sua perfeição”. Que cada um de nós possa se preparar bem para o Jubileu 2025, e por que não fazer através da oração diária de pelo menos um salmo?

    Padre Rafael Pedro Susrina, psdp

    O Ano Santo é um tempo intenso e denso de espiritualidade, com muita oração e meditação. Por isso o livro bíblico Saltério tem papel importante, pois é destinado a pausa orante e ao silêncio contemplativo. “Um guia para ‘cantar a Deus com arte’ através dos Salmos” (p. 15). Tendo presente que os Salmos nos colocam próximos as realidades cotidianas, vivendo os dias de festa e as provocações próprias da vida, com fé. 

    A oração é um respiro da alma. Os antigos comparavam rezar a respirar. Assim como respiramos para sobreviver, a oração é essencial para a alma. 

    Os Salmos envolvem no louvor de Deus todas as criaturas. O canto de louvor é glorificação, adoração, ação de graças, celebração, contemplação de Deus e suas obras... é alegria. “Eu te louvo, Pai, Senhor do céu e da terra, porque escondeste estas coisas aos sábios e entendidos e as revelastes aos pequeninos” (Mt 11,25). A súplica ou lamentação, marcado pela dor, lágrimas, vazio e silêncio de Deus que parece ausente, e assim se grita são outro âmbito da oração. “Pedi e vos será dado, procurai e encontrareis, batei e a porta vos será aberta” (Mt 7,7). Por isso o “Pai-Nosso” é a oração por excelência. As três primeiras invocações são de louvor a Deus, a sua pessoa (nome), ao reino de amor e de justiça instaurado na história. Os quatros pedidos são uma súplica pedindo o pão cotidiano, o perdão dos pecados, a libertação das tentações e do mal. Assim, a oração que envolve louvor a Deus e súplica evidencia o caráter de totalidade e cotidianidade.

    “Rezar com os Salmos” é um convite aos cristãos do século XXI a redescobrir o saltério como “expressão da fé secular do povo de Deus em várias épocas de sua história” (p. 24), e assim rezar com a história: passado e presente. 

    Os Salmos são poesias cantadas e acompanhadas musicalmente na liturgia, sendo orações corais guiadas por melodias preestabelecidas. Refletem a busca sincera por Deus no interior de cada história, oferecendo itinerários de oração ligados à jornada humana e à descoberta da presença de Deus em todos os momentos. 

    Os gêneros literários mais marcantes do Saltério:

    Crise: nesses Salmos, o sofrimento predomina em relação a alegria, refletindo a vida marcada pela lamentação e pela dor; descrevem doenças, tragédias, inimigos implacáveis e o pecado como adversários que criam um clima de hostilidade ao redor do orante. Esse cenário de adversidade permeia a relação entre o orante, Deus e o inimigo. No entanto, apesar do sofrimento e da angústia vivenciados pelo fiel, as orações salmódicas sempre apresentam a esperança em Deus, que eventualmente intercede e atende as súplicas. A certeza de que Deus irá intervir dá aos salmos um tom de liberdade e esperança, mesmo no meio da dor e do desespero; sempre apontando para um futuro de libertação e redenção.

    Esperança, confiança, ação de graças: têm origem na fé bíblica. A esperança não sustenta apenas durante períodos de provação, mas permeia toda a existência humana até a passagem da morte para a vida eterna com Deus. A confiança possibilita a gratidão comunitária e pessoal. A súplica sempre é concluída com a antecipação do agradecimento, expressando a certeza de que a felicidade está próxima. A última palavra do fiel ao Senhor é sempre de paz e serenidade, pois Ele sabe ouvir e trazer salvação. 

    Adoração e jubilo: são as orações em seu estado puro, é o louvor espontâneo e livre para Deus, conhecido como hino. Diferente dos Salmos de ação de graças, no hino não há uma motivação concreta além da presença de Deus. É uma celebração do amor eterno e perene de Deus, manifestado principalmente na natureza. A existência humana se torna um “sacrifício vivo, agradável a Deus” (Rm 12,1). É um convite a celebrar a grandeza de Deus com alegria e gratidão.

    Oração litúrgica: os Salmos estão presentes na liturgia atual, onde o orante se vê como parte da comunidade do povo eleito, dialogando com o Deus da Aliança. A vida, o relacionamento com Deus e com o próximo, a justiça, o amor e a lealdade são essenciais para que a liturgia não se torne vazia, como enfatizado pelos profetas e pelo Decálogo. O culto não substitui a necessidade de fidelidade interior e social, espiritualidade e solidariedade. A autenticidade das celebrações e ritos é verificada pela conformidade com o direito, o amor à bondade e a humildade em vez de sacrifícios materiais.

    Vida política, cultural e oração: os Salmos apresentam ecos de eventos políticos e catástrofes nacionais, com destaque para a figura do soberano descendente de Davi em composições de entronização e coroação. O interesse dos hebreus em sua história é evidente nos Salmos históricos, superando a simples descrição de questões políticas. O homem busca a Deus através de sua cultura e inteligência, refletindo a sabedoria presente em diversos aspectos da vida.

    Salmos imprecatórios: foram considerados polêmicos na comunidade cristã e retirados do uso litúrgico atual. Refletem a indignação dos profetas diante do mal na história humana e a busca por justiça. Os Salmos imprecatórios refletem a busca por justiça e a confiança em Deus para lidar com o mal na história. Eles devem ser interpretados à luz da cultura e linguagem simbólica semítica, não de forma literal. A mensagem central é a importância de confiar em Deus para fazer justiça e responder ao mal com o bem, seguindo o exemplo de Jesus e dos princípios bíblicos.

    O encontro entre Deus e o orante

    A revelação bíblica nos Salmos é um verdadeiro diálogo entre Deus e o orante, expressando uma relação de amor e fidelidade. Tanto Deus quanto o orante se recordam um do outro, mantendo uma relação de comunhão e intimidade mística. A visão e a contemplação são essenciais na oração, e representam esse encontro. Mesmo em tempos de provação e escuridão, a união entre os dois protagonistas do Saltério é marcada pelo amor, apesar da interferência de um terceiro sujeito.

    A terceira presença

    Trata-se de uma figura negativa que conspira contra a harmonia entre Deus e suas criaturas, sendo presente nas súplicas e invocações contra o mal que faz o fiel. O inimigo pode se manifestar como um adversário pessoal, um poderoso prevaricador ou até mesmo uma personificação concreta do mal, da doença e da infelicidade. A simbologia utilizada nas lamentações sálmicas inclui imagens marciais, símbolos de caça ou zoomórficos e uma simbologia naturalística, como águas destruidoras, fossas profundas e aridez. Além disso, o mal pode se manifestar como doenças, isolamento, abandono e rejeição. O silêncio de Deus e a distância de um soberano impassível também são desafios que o fiel pode enfrentar, assim como o pecado, que viola a moral e a Palavra divina. A reconciliação e o perdão de Deus são possíveis por meio da confissão e do repúdio do pecado, permitindo o restabelecimento do diálogo entre o homem e Deus. O cancelamento do mal é expresso pelo “não recordar” da culpa por parte do Senhor, pelo “retorno” à reta via do homem após o desvio do pecado e pela sincera conversão. 

    Concluindo, os Salmos são uma oração que conecta Deus e a humanidade, abordando temas como a eternidade e as dificuldades do dia a dia. Eles nos convidam a seguir a Palavra divina, buscando ser salvos dos males que nos cercam e mantendo nossos passos longe do mal, para guardarmos os ensinamentos de Deus. A oração dos Salmos nos ajuda a enxergar o futuro luminoso e nos motiva a seguir em frente diariamente, sem nos perder em sonhos fugazes. Seguindo o exemplo de Jesus, que cantou os Salmos durante a Páscoa, a comunidade cristã também se une em oração e louvor a Deus, especialmente durante tempos jubilares, através da Liturgia das Horas e da Palavra. São Paulo nos exorta a deixar a palavra de Cristo habitar em nós, instruindo e aconselhando uns aos outros, e louvando a Deus com salmos, hinos e cânticos inspirados pelo Espírito Santo (cf. Cl 3,16).

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