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    Pastoral: Diálogo Ecumênico

    Série: Que todos sejam um: uma conversa sobre o Ecumenismo – Pastoral parte 1

    Artigos

    10.04.2024 07:00:00 | 12 minutos de leitura

    Pastoral: Diálogo Ecumênico

    Padre Rafael Pedro Susrina, psdp.

    O Decreto Unitatis Redintegratio, sobre o Ecumenismo, foi responsável por suscitar no seio da Igreja Católica o movimento ecumênico. A partir deste momento histórico a busca pela unidade, o trabalho ecumênico, tornou-se realidade concreta, procedendo em uma ação pastoral focada no Diálogo Ecumênico e na Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos, levando a conversão de posturas em diversos pontos, firmado assim Declarações e Convergências em prol do Ecumenismo. 

    A oração é a alma da ação ecumênica e do anseio pela unidade (JOÃO PAULO II, 1995, n. 28), da qual nasce o ímpeto pelo diálogo. O desejo de dialogar expressa a mudança de paradigma das Igrejas cristãs dispostas ao movimento ecumênico. Pois torna-se necessário passar de uma postura antagônica e conflitiva para uma que permita a reciprocidade nas relações. “Quando se começa a dialogar, cada uma das partes deve pressupor uma vontade de reconciliação no seu interlocutor, de unidade na verdade. Para realizar tudo isso, devem desaparecer as manifestações de confrontação recíproca” (JOÃO PAULO II, 1995, n. 29). Desse modo o diálogo possibilitará a superação da divisão e a aproximação da unidade. 

    Para que o diálogo ecumênico aconteça, assim como orientou o Decreto, os Bispos de todo o mundo ficaram responsáveis por promover prudentemente o interesse e a busca pela unidade. O Código de Direito Canônico, desde 1917 e o atual de 1983, afirmam a responsabilidade do bispo em restaurar a unidade entre todos os cristãos (CONSTITUIÇÃO..., 1983, cân. 755). E para ajudar a promover a ação ecumênica, a Igreja Católica criou estruturas próprias, com funções definidas para essa missão, a nível mundial o Pontifício Conselho para a Promoção da Unidade dos Cristãos; e a nível regional e local estruturas de diálogo.

    A nomeação em cada Diocese de uma pessoa competente como Delegado Diocesano para as questões ecumênicas, foi uma solicitação do Diretório para a Aplicação dos Princípios e Normas sobre o Ecumenismo (1993). Já nos lugares em que for necessário a instauração de uma Comissão ou Secretariado de Ecumenismo para agregar um grupo de Dioceses, com a missão de 

    cooperar com as instituições ou obras ecumênicas já existentes ou por constituir, participando nas iniciativas sempre que for oportuno. Ela deve mostrar-se disponível para ajudar o delegado diocesano para o ecumenismo e outras obras diocesanas ou iniciativas privadas, fomentando o intercâmbio de informações e ideias (DIRETÓRIO..., 1993, n. 43).

    Ambas as iniciativas buscam tornar realidade o diálogo ecumênico em todos os locais. Desde o campo técnico entre peritos competentes das diversas Igrejas que conversam sobre os diversos pontos teológicos, dogmáticos que envolve cada uma das Igrejas, aos cristãos de forma natural no dia a dia. 

    Outro ponto importante sobre o diálogo ecumênico diz respeito a sua índole de exame de consciência. Na medida que a oração comum, a oração pela unidade, a oração com os irmãos separados, é realizada, abre-se naturalmente um campo para a reflexão da vida, das condutas e posicionamentos tomados. Sendo este um terreno propício para um exame de consciência que brota da oração comum. A mesma ótica de diálogo abre caminho para a conversão e a salvação, em outras palavras um diálogo horizontal e vertical, que leva a percepção do ser pecador.

    O diálogo não pode atuar-se seguindo uma direção exclusivamente horizontal, limitando-se ao encontro, a troca de pontos de vista, ou mesmo dos dons próprios de cada Comunidade. Mas tende também e sobretudo a uma dimensão vertical, que orienta para Aquele que, como Redentor do mundo e Senhor da história, é a nossa reconciliação. A dimensão vertical do diálogo está no comum e recíproco recolhimento da nossa condição de homens e mulheres que pecaram. É precisamente isto que abrirá nos irmãos, que vivem em Comunidades não plenamente em comunhão entre si, aquele espaço interior, onde Cristo, fonte da unidade da Igreja, pode agir eficazmente, com toda a força do seu Espírito Paráclito (JOÃO PAULO II, 1995, n. 35)

    Confrontar os diversos pontos de vista torna-se uma atitude natural do diálogo ecumênico. Refletir sobre as divergências nascidas ao longo da história e que são obstáculos a plena comunhão dos cristãos entre si é necessário. O Decreto Unitatis Redintegratio (1964), exorta os teólogos católicos que realizam diálogos doutrinais a serem fiéis à doutrina da Igreja e a procederem com amor pela verdade, com caridade e humildade.

    O amor à verdade é a dimensão mais profunda de uma autêntica procura da plena comunhão entre os cristãos. Sem esse amor, seria impossível enfrentar as reais dificuldades teológicas, culturais, psicológicas e sociais que se encontram ao examinar as divergências. A esta dimensão interior e pessoal, está inseparavelmente associado o espírito de caridade e de humildade: caridade para com o interlocutor, humildade para com a verdade que se descobre e que poderia exigir revisão de afirmações e de atitudes (JOÃO PAULO II, 1995, n. 36).

    O modo e o método de proceder na relação ao estudo das divergências não deve ser obstáculo ao diálogo ecumênico, por isso a clareza na exposição, de forma correta, leal e compreensível, favorece o caminhar da verdade. Esse é um ponto valoroso, pois uma das vantagens do Ecumenismo, segundo João Paulo II, é que as comunidades cristãs são ajudadas a descobrir a insondável riqueza da verdade. “O Ecumenismo autêntico é uma graça de verdade” (JOÃO PAULO II, 1995, n. 38). Do percurso realizado pelo diálogo ecumênico encontram-se diversos frutos: o primeiro deles realça o avanço na fraternidade entre os cristãos, superando a concepção de inimigo ou estranho e vendo-os como irmão e irmã. A fraternidade universal entre os cristãos permite ajudas mútuas no campo social e educacional, evidenciando o processo de conversão a uma caridade fraterna que envolve todos os discípulos de Cristo. A caridade, juntamente com a solidariedade a humanidade, é expressão do movimento ecumênico.

    O diálogo ecumênico convergiu também a traduções ecumênicas da Bíblia, sendo estas “uma base segura para a oração e a atividade pastoral de todos os discípulos de Cristo” (JOÃO PAULO II, 1995, n. 44). E a uma renovação litúrgica, não só no seio da Igreja Católica, mas da mesma forma nas diversas Igrejas cristãs, evidenciando o desejo de celebrar em maior unidade, preparando o caminho para a celebração da única Eucaristia. 

    O reconhecimento do bem, presente nos outros cristãos, é reflexo do diálogo de amor, da conversão do coração que o Ecumenismo proporcionou no interior da Igreja. Reconhecer a presença e a ação de Deus nas outras Igrejas também é fruto do diálogo. E essa concepção permite o avanço da comunhão, pois a consciência dos cristãos em possuir elementos de fé em comum acarreta o aumento do empenho pela unidade plena. 

    O diálogo com as Igrejas Orientais desenvolveu-se prodigiosamente após o Concílio Ecumênico Vaticano II. Durante este, os representantes das Igrejas manifestaram a vontade de buscar a comunhão. Possibilitando o restabelecimento do contato com o Patriarcado Ecumênico de Constantinopla, e assim abrindo para a realização de encontros entre o Papa e o Patriarca. Encontros iniciados por Paulo VI e sucedidos pelos Papas João Paulo II, Bento XVI e atualmente Francisco, aumentam cada vez mais o diálogo da caridade, da fraternidade, e rezam juntos no desejo de pôr em prática a vontade do Senhor para sua Igreja. Dessa forma, as relações foram fortalecidas com as antigas Igrejas do Oriente nos diversos Patriarcados: Ortodoxa Copta, Ortodoxa Síria de Antioquia, Ortodoxa Etíope, Assíria do Oriente, viabilizando a assinatura de Declarações conjuntas.

    O diálogo com as Igrejas cristãs do Ocidente caminha de forma prudente diante das consideráveis discrepâncias existentes entre as Igrejas. Pois as divergências não se encontram somente no cunho histórico, psicológico, sociológico ou cultural, mas principalmente na interpretação da verdade revelada (DECRETO..., 1964, n. 19). Mesmo com tantas dificuldades o diálogo acontece e Documentos foram assinados entre as Igrejas. 

    A profundidade nas relações eclesiais entre as Igrejas cristãs demonstra grande fraternidade, caridade e proximidade: frutos do diálogo. Além de diversas iniciativas em prol da unidade dos cristãos, e os momentos de oração em comum, há a colaboração ecumênica na vida social e cultural, e 

    Com uma frequência sempre maior, os cristãos aparecem juntos a defender a dignidade humana, a promover o bem da paz, a aplicação social do Evangelho, a tornar presente o espírito cristão nas ciências e nas artes. Eles encontram-se cada vez mais unidos, quando se trata de ir ao encontro das carências e misérias do nosso tempo: a fome, as calamidades, a injustiça social (JOÃO PAULO II, 1995, n. 74).

    Esta cooperação entre os cristãos evidencia um grau de comunhão já existente, e abre espaço para a reflexão acerca das divergências doutrinais. Os diálogos teológicos bilaterais realizados com as Igrejas cristãs começam de um reconhecimento da comunhão já existente, e depois, gradualmente, partem para as divergências existentes. Percebe-se assim a existência de uma comunhão de fé que possibilita a busca pela unidade.

    Em 2020, o Pontifício Conselho para a Promoção da Unidade dos Cristãos disponibilizou o documento O Bispo e a unidade dos cristãos: Vademecum ecumênico; para ajudar os bispos a melhor compreender e levar a cabo a sua responsabilidade ecumênica. Através de uma melhor relação da Igreja Católica com as outras Igrejas, por meio do Ecumenismo espiritual e do diálogo de amor, verdade e vida.

    O diálogo de amor tem sua base no Batismo, pois “todo Ecumenismo é Ecumenismo batismal” (PONTIFÍCIO..., 2020, n. 25). O reconhecer a todos como irmãos em razão de ser criado pelo mesmo Deus fortalece a geração de uma relação profunda entre os cristãos batizados, pois são irmãos em Cristo. Nasce assim um diálogo de amor/caridade que não fala somente de fraternidade humana, mas de profundo vínculo de comunhão forjado no Batismo. O Documento apresenta cinco recomendações práticas acerca desse diálogo:

    Dar o primeiro passo para encontrar os outros líderes cristãos; Rezar, pessoalmente e publicamente, pelos outros líderes cristãos; Participar, tanto quanto possível e adequado, nas celebrações de Ordenação, instalação ou entrada de outros líderes cristãos na diocese; Convidar, se for conveniente, outros líderes cristãos para as celebrações litúrgicas significativas e acontecimentos importantes na diocese; Colaborar com os Conselhos das Igrejas e dos organismos ecumênicos implantados na diocese e participar, na medida do possível, em ações conjuntas; Informar os outros líderes cristãos de acontecimentos e notícias importantes na diocese (PONTIFÍCIO..., 2020, n. 26).

    O diálogo da verdade brota da partilha dos dons, prestando atenção nos dons dos outros cristãos e acolhendo-os. Entretanto o diálogo precisa levar à verdade, pois é através dela que será possível a unidade da fé. E essa realidade acontece através dos diálogos teológicos nos âmbitos internacional, nacional e diocesano que em muitos casos produzem Declarações e Documentos, mas nem sempre são acolhidos na vida da comunidade. O Vademecum recomenda identificar os Documentos bilaterais publicados; formar uma comissão de diálogo nacional, regional ou diocesano; e convidar a comissão para propor ações concretas (PONTIFÍCIO..., 2020, n. 30).

    O diálogo da vida é a ação concreta dos cristãos no cuidado pastoral, no âmbito cultural e no serviço ao mundo. Através de um Ecumenismo pastoral em que a partilha dos desafios pastorais são oportunidades para a união de esforços; e o ministério partilhado, juntamente com a partilha de dons, onde forem oportunos, pode construir confiança e aprofundar a mútua compreensão entre os cristãos. Algumas recomendações práticas:

    Identificar as necessidades pastorais comuns com os outros líderes cristãos; Escutar e aprender com as iniciativas pastorais dos outros; Agir com generosidade ajudando o trabalho pastoral das outras comunidades cristãs; Conhecer e ouvir as experiências das famílias constituídas por membros de diferentes igrejas existentes na diocese; Apresentar ao clero da diocese as orientações dadas pelo Diretório Ecumênico no que diz respeito à administração dos sacramentos [...]; e se na sua diocese [...] não tem orientações sobre as disposições canônicas para uma excepcional partilha sacramental, [...] entrar em contato com a Comissão Ecumênica da Conferência Episcopal (PONTIFÍCIO..., 2020, n. 37).

    O Ecumenismo prático visa a cooperação no serviço ao mundo, por meio da defesa da dignidade humana, nos desastres naturais, no alívio das aflições da fome, da pobreza, do alfabetismo, na falta da distribuição da riqueza e habitação. Além do cuidado com os migrantes e os povos deslocados, na luta contra o tráfico de pessoas, escravidão, e discriminação, no cuidado com a criação, com a construção da paz e na defesa da santidade da vida. O Vademecum recomenda o diálogo com os outros líderes cristãos com o desejo de aumentar a ajuda mútua nesse serviço. Por fim, o Ecumenismo cultural, torna-se “o conjunto de todos os esforços para compreender melhor a cultura dos outros cristãos e, realizando-o, faz compreender que, para além da diferença cultural, a diversos níveis, compartilhamos a mesma fé embora expressa de diversas maneiras” (PONTIFÍCIO..., 2020, n. 41). Promovendo projetos culturais, reunindo as diferentes comunidades e anunciando o Evangelho. 


    No próximo artigo continuaremos a parte Pastoral do Ecumenismo:
    2. Semana de Oração pela Unidade Dos Cristãos
    3. Declarações e Convergências após o Concílio Ecumênico Vaticano II


    Acompanhe a série de artigos:
    Que todos sejam um: uma conversa sobre o Ecumenismo.
    Que todos sejam um: uma conversa sobre o Ecumenismo - HISTÓRIA.
    História: precedentes do Concílio Ecumênico Vaticano II.
    História: Decreto Unitatis Redintegratio do Concílio Ecumênico Vaticano II.
    História: período Pós-Conciliar: Carta Encíclica Ut Unum Sint.
    Que todos sejam um: uma conversa sobre o Ecumenismo – TEOLOGIA.
    Teologia: Ministério Ordenado.
    Teologia: Eucaristia.
    Teologia: Virgem Maria.


    Referências bibliográficas
    JOÃO PAULO II (Papa). Carta encíclica “UT UNUM SINT”: sobre o empenho ecuménico. Roma: Libreria Editrice Vaticana, 1995. 
    PONTIFÍCIO CONSELHO PARA A PROMOÇÃO DA UNIDADE DOS CRISTÃOS. Diretório para a aplicação dos princípios e normas sobre o ecumenismo. Petrópolis: Vozes, 1994. 143 p.
    PONTIFÍCIO CONSELHO PARA A PROMOÇÃO DA UNIDADE DOS CRISTÃOS. O bispo e a unidade dos cristãos: Vademecum Ecumênico. 4. ed. Brasília: Edições CNBB, 2020. 65 p.

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