Missa de Ação de Graças celebra 65 anos da presença dos Pobres Servos da Divina Providência no Brasil
Presidida pelo Cardeal Dom Jaime Spengler, celebração reuniu a Família Calabriana em Porto Alegre para agradecer pela história iniciada em 30 de agosto de 1961 e renovar o compromisso de cuidar da vida, defender os mais frágeis e ser presença transformadora na sociedade
65 anos
31.08.2026 09:21:05 | 8 minutos de leitura

A Família Calabriana celebrou, neste domingo, 30 de agosto, os 65 anos da presença dos Pobres Servos da Divina Providência no Brasil. A Missa de Ação de Graças, realizada na Capela São João Calábria, em Porto Alegre (RS), foi presidida pelo Cardeal Dom Jaime Spengler, Arcebispo de Porto Alegre, e reuniu religiosos, religiosas, leigos, colaboradores, amigos e integrantes das diferentes expressões da Família Calabriana.
A celebração marcou uma data profundamente significativa para a Congregação. Foi justamente em 30 de agosto de 1961 que os Pobres Servos chegaram em Porto Alegre, dando início a uma presença missionária que, ao longo das décadas, se expandiu por diferentes regiões do Brasil.
Mais do que recordar uma trajetória histórica, a Eucaristia tornou-se expressão de gratidão a Deus Pai Providente por tudo aquilo que foi semeado e construído durante esses 65 anos e, ao mesmo tempo, um convite à renovação da missão Calabriana diante dos desafios do presente.
“Todos nós celebramos juntos”
Em sua homilia, Dom Jaime chamou a atenção inicialmente para a própria disposição da assembleia reunida em torno do altar. Recordou que a liturgia não pertence somente àquele que preside, mas a todo o povo de Deus que celebra reunido.
“Todos nós somos celebrantes”, afirmou o Cardeal, recordando que, na Sagrada Liturgia, a comunidade se encontra “aos pés da cruz e ao redor da mesa da Palavra do Senhor e do Corpo do Senhor”.
Nesse espírito de comunhão, a assembleia celebrava não apenas uma data, mas uma caminhada: 65 anos de presença, serviço, consagração e missão da Família Calabriana no Brasil.
Retomando a oração inicial da Missa, Dom Jaime destacou duas atitudes fundamentais: fazer crescer aquilo que é bom e guardar, com amorosa solicitude, os dons recebidos de Deus. Esse “guardar”, explicou, não significa conservar algo de maneira passiva, mas prestar atenção, cuidar, reconhecer e promover aquilo que foi confiado às nossas mãos.
Entre esses dons está, antes de tudo, a própria vida.
“Esta vida precisa ser cuidada e promovida”, destacou.
Para Dom Jaime, esse compromisso encontra uma expressão particular na missão desenvolvida segundo o carisma de São João Calábria. Guardar, conservar, cuidar e promover a vida constituem um grande desafio para a humanidade e também uma responsabilidade concreta para aqueles que receberam uma missão na Igreja e na sociedade.
Uma missão sustentada por uma espiritualidade
Ao refletir sobre a caminhada da Congregação, o Cardeal destacou que nenhuma obra ou projeto consegue permanecer verdadeiramente no tempo sem uma espiritualidade que lhe dê sustentação.
Recorrendo a uma expressão popular, afirmou que “saco vazio não para em pé” e aplicou a imagem aos diferentes âmbitos da existência humana: projetos pessoais, sociais, políticos, econômicos e empresariais necessitam de fundamentos capazes de lhes dar sentido e direção.
“Sem uma mística, sem uma espiritualidade consistente, não permanece por muito tempo”, ressaltou.
A reflexão encontra especial significado na história dos Pobres Servos. Ao longo de 65 anos, diferentes pessoas, comunidades e atividades deram continuidade à missão iniciada pelos primeiros religiosos, procurando manter viva a inspiração recebida de São João Calábria: a confiança e o abandono em Deus Pai Providente, traduzidos concretamente no cuidado com as pessoas, especialmente aquelas que mais necessitam.
Profetas capazes de ler os sinais dos tempos
A partir da figura do profeta Jeremias, apresentada na primeira leitura, Dom Jaime recordou que o profeta não é simplesmente alguém que prevê o futuro. Sua missão é saber interpretar o presente.
“O profeta é aquele que sabe ler os sinais dos tempos”, explicou.
Essa capacidade permite compreender os desafios de cada época e buscar respostas coerentes com a fé. Por isso, segundo o Cardeal, a sociedade continua necessitando de homens e mulheres capazes de olhar com profundidade para a realidade e discernir os caminhos necessários.
Jeremias também revela que essa missão não está isenta de dificuldades. O profeta experimenta o cansaço, a incompreensão e o limite das próprias forças. Contudo, a presença de Deus transforma sua fragilidade em um “fogo ardente” que o impele a continuar.
A imagem recorda também a própria dinâmica da missão cristã: uma obra não se sustenta somente pelas capacidades humanas, mas pela força de uma espiritualidade que continuamente a reconduz à sua origem e finalidade.
Renovar a maneira de pensar e julgar
Refletindo sobre a Carta de São Paulo aos Romanos, Dom Jaime apresentou outro desafio para os cristãos: não se conformar com a mentalidade do mundo, mas renovar a maneira de pensar e de julgar.
O Cardeal chamou a atenção para uma cultura muitas vezes orientada prioritariamente pelo lucro, pela satisfação e pelos resultados, contrapondo a essa lógica a responsabilidade dos cristãos de serem presença transformadora na sociedade.
“Somos chamados a ser sal da terra, luz do mundo, fermento de transformação”, afirmou.
Essa transformação, explicou, precisa alcançar também as estruturas sociais. A fé cristã não pode permanecer indiferente às desigualdades, às injustiças e às situações que atingem a dignidade humana.
Dom Jaime recordou, nesse contexto, o contraste entre a força econômica do Brasil e a persistência das desigualdades sociais, questionando as estruturas que permitem a convivência entre riqueza e exclusão.
Para o Cardeal, ser cristão implica assumir responsabilidades concretas na construção de uma sociedade mais justa, fraterna e coerente com o Evangelho.
Defender os mais frágeis
Nesse ponto, a homilia encontrou uma ligação direta com a missão desenvolvida pelos Pobres Servos da Divina Providência.
Dom Jaime sintetizou três atitudes que devem caracterizar a presença cristã na sociedade: a lisura dos comportamentos, a defesa dos mais frágeis e a oposição a tudo aquilo que diminui o ser humano.
Ao mencionar a defesa dos mais vulneráveis, reconheceu também o serviço realizado pela Obra Calabriana.
A afirmação toca um elemento central da presença iniciada em 1961. Ao longo das décadas, o carisma de São João Calábria foi se concretizando no Brasil por meio da evangelização e de diferentes iniciativas voltadas ao cuidado e à promoção integral da pessoa.
Assim, a celebração dos 65 anos não se limitou à memória do passado. A história tornou-se uma interpelação para o presente: continuar colocando a pessoa e sua dignidade no centro da missão.
A liberdade de seguir Jesus
Ao comentar o Evangelho, Dom Jaime voltou sua atenção para as palavras de Jesus: “Se alguém quiser me seguir...”.
Para o Cardeal, há uma palavra particularmente importante nessa afirmação: “quiser”.
Jesus reconhece a liberdade humana. O seguimento não é imposto. É uma resposta livre que, uma vez assumida, conduz à renúncia de si mesmo, à acolhida da própria cruz e ao caminho do discipulado.
A renúncia cristã, porém, não significa simplesmente perder. Quando nasce do amor, transforma-se em dom.
“O que é dado por amor, nós encontramos na relação”, explicou Dom Jaime.
A dinâmica do Evangelho torna-se, assim, também uma chave para compreender a consagração, o serviço e a missão: doar a própria vida para que outras vidas possam ser acolhidas, cuidadas e promovidas.
“Que a Obra Calabriana possa crescer sempre mais”
Ao concluir sua reflexão, Dom Jaime formulou um desejo que se tornou também uma bênção para o futuro da missão Calabriana no Brasil.
“Que a Obra Calabriana possa crescer sempre mais”, afirmou.
O Cardeal pediu que os dons recebidos sejam guardados com solicitude e que os cristãos continuem sendo, no mundo, sal, luz e fermento de transformação, confiando a caminhada também à intercessão de São João Calábria e de Maria, apresentada como Mãe e primeira discípula.
Gratidão por uma história conduzida pela Providência
Ao final da celebração, o Delegado dos Pobres Servos da Divina Providência no Brasil, Pe. Jaime Bernardi, dirigiu sua palavra à assembleia, expressando a gratidão pela caminhada celebrada e por todos aqueles que, de diferentes maneiras, fizeram e continuam fazendo parte da missão Calabriana no país.
O momento foi também de reconhecimento pela presença do Cardeal Dom Jaime Spengler e de agradecimento aos religiosos, religiosas, leigos, colaboradores, benfeitores, comunidades e amigos que participam da história da Congregação no Brasil.
Celebrar 65 anos significou, assim, reconhecer uma história construída por muitas mãos, mas contemplada, à luz do carisma Calabriano, como uma história conduzida pela Divina Providência.
A memória de 30 de agosto de 1961 permanece como ponto de partida. Aquilo que começou com a chegada dos primeiros Pobres Servos a Porto Alegre tornou-se uma caminhada de décadas de evangelização, serviço e cuidado com a vida.
Depois de 65 anos, a missão continua.
E a celebração presidida por Dom Jaime deixou um horizonte particularmente significativo para os próximos passos: guardar com solicitude o dom recebido, cuidar e promover a vida, defender os mais frágeis e continuar sendo sal, luz e fermento de transformação na sociedade.
É dessa maneira que a melhor homenagem à história se transforma em compromisso com o futuro: permanecendo fiéis ao Evangelho e ao carisma de São João Calábria, com renovada confiança e abandono em Deus Pai Providente.


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