Dar de comer a quem tem fome: um dever da humanidade
“A fome não é o destino do homem, mas a sua perdição. Cada pão partilhado é um ato de justiça que faz florescer a paz.” — Papa Leão XIV
Igreja
16.10.2025 11:26:29 | 12 minutos de leitura

Na sede da FAO, em Roma, o Papa Leão XIV participou, nesta quinta-feira, 16 de outubro, das celebrações pelo Dia Mundial da Alimentação, por ocasião dos 80 anos da instituição. Em seu discurso, o Santo Padre dirigiu um forte apelo à comunidade internacional para unir esforços no combate à fome e à desigualdade, destacando que “vencer a fome é o primeiro passo para construir a paz”. Diante das injustiças que marcam o mundo atual, o Papa convidou os líderes e os povos a uma solidariedade concreta e eficaz, recordando que “quem padece fome não é um estranho, é meu irmão”.
VISITA À ASSEMBLEIA DA FAOPOR OCASIÃO DO DIA MUNDIAL DA ALIMENTAÇÃO
DISCURSO DO SANTO PADRE LEÃO XIV
Sede da FAO, RomaQuinta-feira, 16 de outubro de 2025
Senhor Diretor-Geral,Distintas Autoridades,Excelências,Senhoras e senhores:
1. Permitam-me, antes de tudo, expressar o meu mais cordial agradecimento pelo convite para compartilhar esta memorável jornada com todos vocês. Visito esta prestigiosa Sede seguindo o exemplo dos meus Predecessores na Cátedra de Pedro, que demonstraram à FAO especial estima e proximidade, conscientes da relevância da missão desta organização internacional.
Saúdo todos os presentes com grande respeito e deferência e, por meio de vocês, como servo do Evangelho, expresso a todos os povos da terra o meu mais fervoroso desejo de que a paz reine em toda parte. O coração do Papa, que não pertence a si mesmo, mas à Igreja e, de certo modo, à humanidade inteira, mantém viva a confiança de que, se vencermos a fome, a paz será o terreno fértil onde nascerá o bem comum de todas as nações.
Oitenta anos após a fundação da FAO, a nossa consciência deve mais uma vez ser interpelada diante do drama — sempre atual — da fome e da desnutrição. Pôr fim a esses males não é dever apenas de empresários, funcionários ou responsáveis políticos. É um problema cuja solução exige a contribuição de todos: agências internacionais, governos, instituições públicas, ONGs, entidades acadêmicas e a sociedade civil, sem esquecer cada pessoa em particular, que deve reconhecer no sofrimento alheio algo que lhe pertence. Quem padece fome não é um estranho. É meu irmão, e devo ajudá-lo sem demora.
2. O objetivo que agora nos reúne é tão nobre quanto inadiável: mobilizar todas as energias disponíveis, num espírito de solidariedade, para que em todo o mundo ninguém careça do alimento necessário — tanto em quantidade quanto em qualidade. Assim, será possível pôr fim a uma situação que nega a dignidade humana, compromete o desenvolvimento desejável, obriga multidões a abandonar seus lares e dificulta o entendimento entre os povos.
Desde sua fundação, a FAO tem orientado incansavelmente seu serviço para que o desenvolvimento da agricultura e a segurança alimentar sejam prioridades da política internacional. A cinco anos do cumprimento da Agenda 2030, devemos recordar com vigor que alcançar o Fome Zero só será possível se houver uma vontade real para isso, e não apenas declarações solenes. Por isso mesmo, hoje somos chamados, com renovado senso de urgência, a responder a uma pergunta fundamental: onde estamos na luta contra o flagelo da fome, que continua a castigar cruelmente uma parte significativa da humanidade?
3. É preciso, e é profundamente triste, reconhecer que, apesar dos avanços tecnológicos, científicos e produtivos, seiscentos e setenta e três milhões de pessoas no mundo vão dormir sem comer. E outros dois bilhões e trezentos milhões não conseguem ter uma alimentação adequada do ponto de vista nutricional. Estes números não são meras estatísticas: por trás de cada um deles há uma vida interrompida, uma comunidade vulnerável; há mães incapazes de alimentar seus filhos.
Talvez o dado mais comovente seja o das crianças que sofrem desnutrição, com as consequentes doenças e atrasos no desenvolvimento físico e cognitivo. Isso não é casualidade, mas sinal evidente de uma insensibilidade dominante, de uma economia sem alma, de um modelo de desenvolvimento questionável e de um sistema injusto e insustentável de distribuição de recursos. Num tempo em que a ciência prolongou a expectativa de vida, a tecnologia aproximou continentes e o conhecimento abriu horizontes outrora inimagináveis, permitir que milhões de seres humanos vivam — e morram — vítimas da fome é um fracasso coletivo, um desvio ético, uma culpa histórica.
4. Os atuais cenários de conflito reacenderam o uso dos alimentos como arma de guerra, contrariando todo o trabalho de sensibilização promovido pela FAO ao longo destas oito décadas. Parece cada vez mais distante o consenso entre os Estados que reconhece a fome deliberada como crime de guerra, assim como o bloqueio intencional do acesso a alimentos de comunidades inteiras.
O direito internacional humanitário proíbe, sem exceções, ataques a civis e a bens essenciais à sobrevivência das populações. Há alguns anos, o Conselho de Segurança das Nações Unidas condenou unanimemente essa prática, reconhecendo a ligação entre conflitos armados e insegurança alimentar, e classificando o uso da fome como método de guerra como uma atrocidade[1].
Infelizmente, parece que isso foi esquecido, pois, com dor, somos testemunhas do uso contínuo dessa estratégia cruel, que condena homens, mulheres e crianças à fome, negando-lhes o direito mais elementar: o direito à vida. Contudo, o silêncio daqueles que morrem de fome clama à consciência de todos, mesmo quando é ignorado, abafado ou distorcido.
Não podemos continuar assim, pois a fome não é o destino do homem, mas a sua perdição. Fortaleçamos, portanto, nosso entusiasmo para remediar este escândalo! Não pensemos na fome apenas como um problema a resolver. É mais do que isso: é um clamor que sobe ao céu e exige resposta rápida de cada nação, de cada organismo internacional, de cada instância regional, local ou privada. Ninguém pode ficar de fora desta luta. Esta batalha é de todos.
5. Excelências, hoje somos testemunhas de paradoxos ultrajantes. Como podemos tolerar que se desperdicem toneladas de alimentos enquanto multidões buscam algo com que saciar a fome no lixo? Como explicar desigualdades que permitem a uns poucos ter tudo, enquanto muitos nada têm? Como é possível que não cessem imediatamente as guerras que destroem os campos antes das cidades, provocando cenas indignas da condição humana — onde a vida, especialmente a das crianças, em vez de ser protegida, se extingue enquanto buscam comida com a pele colada aos ossos?
Diante do cenário mundial atual, tão doloroso e desolador por causa dos conflitos, parece que nos tornamos espectadores apáticos de uma violência dilacerante, quando, na verdade, as tragédias humanitárias conhecidas por todos deveriam nos mover a ser artesãos da paz, portadores do bálsamo curador que as feridas da humanidade exigem.
O mundo não pode continuar a assistir a espetáculos tão macabros quanto os que ocorrem em várias regiões da Terra. É preciso pôr-lhes fim o quanto antes.
Chegou a hora, pois, de nos perguntarmos com lucidez e coragem: as gerações futuras merecem um mundo incapaz de erradicar de uma vez por todas a fome e a miséria? É possível aceitar tantas arbitrariedades que ferem a família humana? Podem os responsáveis políticos e sociais continuar divididos, desperdiçando tempo e recursos em disputas inúteis, enquanto os que deveriam servir permanecem esquecidos e usados para interesses partidários?
Não basta proclamar valores. É preciso encarná-los. Slogans não tiram ninguém da miséria. Urge superar o paradigma político polarizado e adotar uma visão ética que coloque a pessoa acima do lucro. Não basta invocar solidariedade: devemos garantir segurança alimentar, acesso a recursos e desenvolvimento rural sustentável.
6. Nesse sentido, considero um verdadeiro acerto que o Dia Mundial da Alimentação deste ano se celebre sob o lema: *“Mão a mão por uma alimentação e um futuro melhores.”*
Num tempo marcado por profundas divisões e contradições, sentir-se unido pelo vínculo da colaboração não é apenas um belo ideal, mas um chamado firme à ação. Não nos contentemos com cartazes e discursos: chegou o tempo de assumir um compromisso renovado, capaz de incidir positivamente na vida daqueles que têm o estômago vazio e esperam de nós gestos concretos que os libertem de sua miséria.
Esse objetivo só pode ser alcançado pela convergência de políticas eficazes e pela coordenação sinérgica das intervenções. Caminhar juntos, em harmonia fraterna, deve ser o princípio orientador das políticas e investimentos, pois somente por meio de uma cooperação sincera e constante poderemos construir uma segurança alimentar justa e acessível para todos.
Unindo nossas mãos, construiremos um futuro digno, no qual a segurança alimentar será reafirmada como direito, e não privilégio.
Com essa convicção, quero destacar que, na luta contra a fome e na promoção de um desenvolvimento integral, o papel da mulher é indispensável, ainda que nem sempre seja suficientemente valorizado. As mulheres são as primeiras a velar pelo pão que falta, a semear esperança, a amassar o futuro com mãos calejadas pelo esforço. Em cada canto do mundo, a mulher é silenciosa arquiteta da sobrevivência, guardiã metódica da criação. Reconhecer e valorizar seu papel não é apenas questão de justiça — é garantia de uma alimentação mais humana e duradoura.
7. Excelências, conhecendo o alcance deste fórum internacional, permitam-me sublinhar, sem rodeios, a importância do multilateralismo diante de tentações nocivas que buscam se impor de modo autocrático num mundo multipolar e interconectado.
Mais do que nunca, é necessário repensar, com coragem, as formas de cooperação internacional. Não se trata apenas de identificar estratégias ou elaborar diagnósticos minuciosos. O que os países mais pobres esperam é que suas vozes sejam realmente ouvidas, que suas carências sejam conhecidas e que lhes sejam dadas oportunidades — que sejam incluídos na busca de soluções, e não meros receptores de projetos elaborados em gabinetes distantes, onde prevalecem ideologias que ignoram culturas ancestrais, tradições religiosas e a sabedoria dos mais velhos.
É imperioso construir uma visão que permita a cada ator da cena internacional responder com maior eficácia e prontidão às genuínas necessidades daqueles a quem somos chamados a servir com nosso compromisso cotidiano.
8. Hoje, já não podemos nos iludir pensando que as consequências de nossos fracassos afetam apenas os que estão fora do nosso campo de visão. Os rostos famintos de tantos que ainda sofrem nos desafiam a reexaminar nossos estilos de vida, prioridades e modos de viver no mundo atual.
Por isso, quero chamar a atenção deste fórum internacional para as multidões que não têm acesso à água potável, aos alimentos, à saúde básica, à moradia digna, à educação elementar ou ao trabalho decente — para que compartilhemos a dor daqueles que só se alimentam de desespero, lágrimas e miséria.
Como não recordar os que são condenados à fome e à morte em lugares como Ucrânia, Gaza, Haiti, Afeganistão, Mali, República Centro-Africana, Iêmen e Sudão do Sul, para citar apenas alguns dos pontos do planeta onde a pobreza se tornou o pão de cada dia de tantos irmãos e irmãs? A comunidade internacional não pode desviar o olhar. Devemos fazer do sofrimento deles o nosso próprio.
Não podemos aspirar a uma vida social mais justa se não estivermos dispostos a nos livrar da apatia que justifica a fome como se fosse um ruído de fundo, um problema insolúvel ou responsabilidade alheia. Não podemos exigir ação dos outros se não honrarmos os nossos próprios compromissos. Pela omissão, tornamo-nos cúmplices da injustiça.
Não podemos esperar um mundo melhor, um futuro luminoso e pacífico, se não estivermos dispostos a partilhar o que recebemos. Só assim poderemos afirmar — com verdade e coragem — que ninguém foi deixado para trás.
9. Invoco sobre todos vocês aqui reunidos — a FAO e seus colaboradores, que se esforçam diariamente para cumprir suas responsabilidades com virtude e exemplo — as bênçãos de Deus, que cuida dos pobres, dos famintos e dos desamparados.
Que Deus renove em cada um de nós aquela esperança que não decepciona (cf. Rm 5,5). Os desafios diante de nós são imensos, mas também o são as possibilidades de ação! A fome tem muitos nomes e pesa sobre toda a família humana. Cada pessoa tem fome não só de pão, mas de tudo aquilo que a faz crescer em direção à felicidade para a qual foi criada.
Há uma fome de fé, de esperança e de amor que precisa ser acolhida numa resposta integral que somos chamados a realizar juntos. O que Jesus disse aos discípulos diante da multidão faminta continua a ser um desafio premente para a comunidade internacional: “Dai-lhes vós mesmos de comer” (Mc 6,37).
Com a pequena oferta dos discípulos, Jesus realizou um grande milagre. Portanto, não nos cansemos de pedir a Deus coragem e energia para trabalhar por uma justiça que produza frutos duradouros e benéficos.
Enquanto prosseguem em seus esforços, vocês sempre poderão contar com a solidariedade e o compromisso da Santa Sé e das instituições da Igreja Católica, dispostas a servir os mais pobres e os mais vulneráveis em todo o mundo.
Muito obrigado.
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[1] Cf. Conselho de Segurança das Nações Unidas, Resolução 2417, aprovada na 8267ª Sessão, em 24 de maio de 2018. Texto disponível em: [https://docs.un.org/es/S/RES/2417(2018)](https://docs.un.org/es/S/RES/2417%282018%29)
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Tradução: IA
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Tradução: IA
Fonte: Discurso e foto: © Dicastério para a Comunicação - Libreria Editrice Vaticana - https://www.vatican.va/content/leo-xiv/es/speeches/2025/october/documents/20251016-fao.html
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