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    A discípula de Emaús e a pedagogia de Jesus

    Colocar-se no lugar do anônimo é um bom exercício para poder fazer esta caminhada com Jesus.

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    03.04.2024 07:00:00 | 6 minutos de leitura

    A discípula de Emaús e a pedagogia de Jesus

    Ir. Jairo Melo, psdp

    O Evangelho que relata a caminhada dos discípulos de Emaús é, de certo modo, conhecido por todos. Mas, muitas vezes, nos passa despercebido sua riqueza de detalhes e significados. É interessante notar o fato de apenas um dos discípulos ser nomeado. Em muitos casos, os autores sagrados fazem questão de indicar o nome dos personagens, bem como, brevemente, os parentes ou o que fazem. No entanto, neste relato, alguém fica no anonimato. A partir disso surge a possibilidade de se levantar hipóteses acerca de quem se trata. Ressalta-se aqui de que se versa meramente sobre uma hipótese, já que não se encontra comprovações acerca da discussão. A presente reflexão deve por base o artigo do Professor José Edmilson Schinelo Teólogo leigo, biblista popular e professor da UCDB, intitulado Catequese Sempre a Caminho... A Caminho De Emaús.

    Colocar-se no lugar do anônimo é um bom exercício para poder fazer esta caminhada com Jesus. Todavia, a partir do discípulo nomeado, Cléofas, podemos levantar a suposição de que a outra pessoa se trata de sua companheira. Uma vez que as mulheres, em muitos casos, não eram denominadas por seu nome, mas em relação ao marido – a mãe dos filhos de Zebedeu (Mt 27,56) –, ou o lugar, como a mulher samaritana. Alguns relatos mostram a presença das mulheres junto à comunidade dos Apóstolos, acompanhando Jesus no ministério; Maria Madalena, Joana, a mulher de Cuza, Susana e várias outras, que o serviam com seus bens. (Cf. Lc 8,1-3). Pode-se pensar também, na possibilidade de a anônima em questão fazer parte desse grupo. 

    Para sustentar a tese, recorre-se ao evangelho de João, o qual narra que dentre as mulheres presentes aos pés da cruz, estava uma certa Maria de Cléofas (Jo 19,25). Uma vez que ela seria de um grupo íntimo das mulheres que seguiam Jesus. Ora, se Maria de Cléofas estava presente no momento da morte de Jesus, e se Cléofas está retornando de Jerusalém para Emaús, no primeiro dia da semana que corresponde ao dia da ressurreição de Jesus; logo, é quase que incontestável a possibilidade de ser o casal retornando para o vilarejo. Em um caminhar cabisbaixo, aparece-lhes um andarilho, que não se apresenta, mas quer ser reconhecido; e usa de uma pedagogia fundamental na evangelização.

    Com as expectativas frustradas, a esperança ofuscada, uma série de sentimentos e decepções, após apostarem tudo – assim como todo o povo –, na espera de um Messias que viria libertá-los da dominação Romana. Mas, do contrário, foi condenado e morto. Com este acontecimento, toda percepção dos discípulos acerca de Jesus é mudada. Eis que no retorno para Emaús, um peregrino desconhecido se junta a eles. Aqui está um passo fundamental na atitude de Jesus. É Ele quem vai ao encontro e caminha junto. Nos mostrando o caminho para a missão de evangelizar. É, antes de qualquer coisa, caminhar junto com as pessoas, ser próximo delas.

    Num segundo momento, Jesus pergunta sobre o ocorrido. Toda pergunta requer uma resposta. Jesus, na verdade, quer escutar os discípulos, primeiro para ajudá-los a desabafar tudo quanto trazem desta experiência vivenciada nos últimos dias. Em seguida, para ter uma noção da visão das pessoas que presenciaram a sua Paixão e Morte.

    Em seguida vem um passo elementar na história e na vida de qualquer lugar ou pessoa. Recordar o passado nos faz entender o momento presente e projetar o futuro. Então, Jesus começa a explicar toda a Escritura, desde Moisés, passando pelos Profetas, trazendo ao conhecimento dos discípulos, o que lhe dizia respeito. Ressalta-se que a História da Salvação tem como objetivo preparar os caminhos e conduzir o povo a experiência com o próprio Deus Encarnado. Tudo converge para o Cristo. Portanto, era preciso que ele passasse por tudo isso, para se cumprir as profecias da Palavra de Deus.

    O forasteiro então é convidado para permanecer com eles, pois o dia já declina. Os discípulos, com os corações ardentes por terem escutado as Escrituras no caminho, diretamente com a Palavra que se fez carne, o convidam para adentrar em sua casa. Aqui aparece mais uma evidência de que muito provavelmente os viandantes era um casal: a casa é a mesma. Impressiona a hospitalidade para com o desconhecido. Convidar para dentro de casa é ao mesmo tempo, levar para a intimidade. Justamente por isso, em nossos dias não é qualquer pessoa (desconhecida) que convidamos para entrar. Mas os discípulos assim o fazem, dando o primeiro passo para o reconhecer, pela experiência de um acontecimento já presenciado por eles: o partir do pão. Pode-se levantar uma suspeita, a mulher teria presenciado Jesus ao partir o pão? Se de fato, ela acompanhou Jesus mais de perto, certamente em algum momento presenciara o partir o pão, seja diante das multidões, ou mesmo de forma privada entre os discípulos mais íntimos. Do mesmo modo com Cléofas. É nesse gesto tão simples, que os olhos dos discípulos se abrem e reconhecem Jesus. 

    Sem dúvidas, este é um grande ensinamento prático de uma pastoral efetiva para os nossos dias. Aproveitar de cada momento e encontro com as pessoas, seja nas casas, seja onde convir; tornar o momento da partilha, também o momento da evangelização; na convivência, tocar os corações; na escuta da dor, se fazer solícito etc.

    Por fim, mas talvez o passo mais difícil de se fazer, saber desaparecer. Jesus, após ser reconhecido – e talvez essa era a real intenção de caminhar junto –, desaparece para que os discípulos pudessem prosseguir na missão. Assim, eles voltam, mesmo já sendo tarde, correndo todos os riscos para anunciar aos Onze e aos outros o fato ocorrido. Porém, o caminho da volta é o mesmo da ida, o que muda é a disposição, o ânimo, o vigor, a alegria irradiada em seus corações, a esperança que brota mais uma vez: Jesus Ressuscitou verdadeiramente!

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