65 anos de Providência no Brasil: gratidão por uma história que Deus continua escrevendo
Neste 30 de agosto, os Pobres Servos da Divina Providência celebram 65 anos de presença no Brasil. Mais do que recordar datas, obras e lugares, o jubileu é ocasião para reconhecer uma história conduzida por Deus, agradecer por tantas vidas que se tornaram instrumentos de sua Providência e renovar a confiança diante dos caminhos que ainda serão percorridos.
65 anos
30.08.2026 07:00:00 | 9 minutos de leitura

Há datas que permanecem na memória porque assinalam acontecimentos importantes. Outras, porém, tornam-se ainda maiores porque, vistas à distância, permitem perceber a ação silenciosa de Deus atravessando o tempo. Para os Pobres Servos da Divina Providência, 30 de agosto de 1961 é uma dessas datas.
Naquele dia, chegavam a Porto Alegre os primeiros Pobres Servos destinados à missão no Brasil: Pe. Gino Gatto, Ir. Aldo Farina e Pe. Antonio Leso. Vinham de Salto, no Uruguai, trazendo consigo o espírito da Obra fundada por São João Calábria e uma convicção que acompanharia todos os passos seguintes: Deus é Pai, pensa em seus filhos e nunca abandona aqueles que nele confiam e buscam, antes de tudo, o seu Reino.
Sessenta e cinco anos depois, contemplamos o caminho percorrido e podemos dizer: a semente vingou.
Uma pequena semente confiada à Providência
Os primeiros tempos não apresentavam aos missionários um caminho pronto. Era necessário conhecer uma nova realidade, estabelecer relações, discernir as necessidades e compreender onde e como o Carisma Calabriano poderia servir melhor à Igreja e aos mais necessitados.
A resposta começou a ganhar forma rapidamente. Em 1962, nascia em Porto Alegre o Centro Social Padre João Calábria, primeira atividade da Congregação no país. Era o início concreto de uma missão que, ao longo das décadas seguintes, alcançaria novas cidades, comunidades e regiões.
Depois vieram outros passos.
A formação dos futuros religiosos. A presença nas paróquias. O trabalho social. A educação. A qualificação profissional. O cuidado com a saúde. A acolhida de crianças, adolescentes, jovens, famílias e pessoas em situação de vulnerabilidade. A animação vocacional. A evangelização. A presença junto aos pobres.
Do Rio Grande do Sul, a missão atravessou fronteiras geográficas e culturais e chegou a outras regiões do Brasil. Cada nova presença nasceu em circunstâncias próprias, respondeu às necessidades de seu tempo e escreveu um capítulo particular desta história.
Durante este mês de agosto, ao resgatarmos muitas dessas trajetórias, reencontramos nomes, lugares, fotografias, acontecimentos, dificuldades, alegrias e realizações. Histórias diferentes, mas unidas por um mesmo fio: a confiança em Deus Pai Providente e o desejo de servir onde a vida mais necessita de cuidado.
Uma história feita de pessoas
Entretanto, 65 anos não podem ser contados somente por datas, casas, paróquias ou instituições.
A verdadeira história foi escrita nas vidas.
Foi escrita pelos religiosos que deixaram sua terra e suas famílias para servir em lugares que muitas vezes sequer conheciam. Pelos que chegaram depois e deram continuidade ao caminho iniciado pelos pioneiros. Pelos sacerdotes e irmãos que gastaram suas forças no anúncio do Evangelho, na formação, na administração, no trabalho pastoral e no serviço cotidiano.
Foi escrita também por incontáveis colaboradores, leigos, benfeitores, voluntários, famílias, jovens, vocacionados, ex-seminaristas, profissionais, comunidades e amigos da Obra.
Muitos nomes ficaram registrados nos documentos e fotografias. Outros talvez permaneçam conhecidos somente por aqueles que compartilharam com eles determinado momento da missão. Alguns já concluíram sua peregrinação terrena. Outros continuam servindo silenciosamente.
Todos fazem parte desta história.
Porque a Providência de Deus quase sempre tem um rosto humano. Ela se manifesta em mãos que trabalham, pessoas que acolhem, comunidades que partilham, benfeitores que ajudam, religiosos que se entregam, colaboradores que assumem uma missão e pobres que, tantas vezes, também nos evangelizam.
Por isso, celebrar 65 anos é dizer obrigado.
Obrigado aos pioneiros.Obrigado a cada religioso que passou pelo Brasil e ofereceu aqui uma parte de sua vida.Obrigado aos que permaneceram durante décadas e aos que estiveram conosco por períodos mais breves.Obrigado às comunidades eclesiais que nos acolheram.Obrigado aos bispos, sacerdotes, religiosos e religiosas que caminharam conosco.Obrigado aos colaboradores e voluntários.Obrigado aos benfeitores que acreditaram e continuam acreditando nesta missão.Obrigado às famílias.Obrigado aos jovens e às crianças.Obrigado aos pobres, que ocupam um lugar privilegiado no coração da Obra.Obrigado a todos aqueles que, conhecidos ou anônimos, ajudaram a transformar uma pequena semente em uma história que atravessou gerações.
Mais do que obras, uma missão
Ao contemplarmos tudo aquilo que nasceu ao longo dessas décadas, corremos o risco de olhar somente para aquilo que pode ser contado: instituições, comunidades, projetos, atendimentos, estruturas e realizações.
Mas São João Calábria nos recordaria que tudo isso somente encontra seu verdadeiro sentido quando permanece a serviço do Evangelho.
A Obra existe para buscar o Reino de Deus e testemunhar ao mundo que Deus é Pai.
É esse o coração da missão Calabriana.Educar é anunciar que cada pessoa possui dignidade.Acolher é tornar concreta a misericórdia.Cuidar da saúde é defender e servir a vida.Evangelizar é ajudar homens e mulheres a descobrirem que são filhos e filhas amados de Deus.Formar novas gerações é preparar pessoas capazes de continuar servindo.Estar entre os pobres é encontrar Cristo e reconhecer neles uma presença que interpela nossa própria fé.
Por isso, a história dos Pobres Servos no Brasil não pode ser medida apenas pelo tamanho das obras realizadas, mas pela fidelidade ao carisma recebido de São João Calábria.
Ele insistia que o carisma da Obra consiste em mostrar ao mundo que a Divina Providência existe de verdade, que Deus não é estrangeiro, mas Pai e pensa em nós. Essa certeza continua sendo o centro da nossa identidade e a razão profunda de nossa presença.
A memória nos devolve ao essencial
Celebrar um jubileu não significa permanecer olhando para o passado.
A memória cristã é sempre fecunda. Recordamos para agradecer, mas também para compreender novamente quem somos e para onde somos chamados a caminhar.
Ao revisitar estes 65 anos, percebemos mudanças profundas. Mudaram as cidades. Mudaram as necessidades sociais. Mudaram as formas de evangelizar. Mudaram as estruturas, as linguagens e os desafios. Algumas atividades nasceram, cresceram e cumpriram sua missão. Outras continuam. Novas frentes surgiram.
Mas existe algo que não pode mudar: a confiança e o abandono em Deus Pai Providente.
São João Calábria desejava que seus filhos fossem instrumentos humildes e dóceis em favor do Reino de Deus. Para ele, instituições e estruturas somente encontrariam sentido quando sustentadas por uma vida verdadeiramente evangélica.
É uma palavra particularmente importante quando celebramos uma longa história.
Não basta perguntar: “O que construímos nestes 65 anos?”
Precisamos também perguntar: “O que Deus espera de nós agora?”
Gratidão pelo passado, responsabilidade pelo presente
O jubileu é, portanto, ação de graças, mas também compromisso.
Recebemos uma herança construída com fé, sacrifício, trabalho e generosidade. Cabe à geração presente cuidar dela não simplesmente conservando estruturas, mas mantendo vivo o espírito que lhes deu origem.
Os pobres continuam nos chamando.Os jovens continuam buscando sentido para suas vidas.As famílias continuam necessitando de acolhida e esperança.A Igreja continua necessitando de homens e mulheres disponíveis para o Evangelho.Novas formas de pobreza e vulnerabilidade surgem diante de nós.Novas fronteiras missionárias aparecem.
E o mundo continua necessitando daquilo que São João Calábria anunciava com tanta insistência: redescobrir Deus como Pai e aprender a viver como irmãos.
Por isso, os 65 anos não representam um ponto de chegada.
Representam uma responsabilidade.
Tudo aquilo que recebemos precisa continuar produzindo frutos.
Deus continua conduzindo a história
Quando os primeiros missionários chegaram ao Brasil, em 1961, não poderiam conhecer todos os capítulos que seriam escritos depois deles.
Não poderiam prever todas as pessoas que fariam parte dessa caminhada, as comunidades que nasceriam, os desafios que surgiriam ou os lugares aos quais a missão chegaria.
Deram simplesmente o primeiro passo. E confiaram.
Talvez esta seja uma das maiores lições que os 65 anos nos oferecem.
Não precisamos conhecer antecipadamente toda a estrada para confiar naquele que nos conduz.
A Providência que acompanhou os pioneiros não pertence ao passado.
É a mesma Providência que nos sustenta hoje.
É ela que nos convida a olhar o futuro não com ingenuidade, mas com fé; não ignorando as dificuldades, mas recusando permitir que elas sejam maiores do que nossa confiança em Deus.
São João Calábria ensinava: “Aceitemos sempre todas as coisas e acontecimentos da mão do Senhor; é Ele que guia as nossas coisas com Providência paterna.”
Essa certeza atravessou gerações e chega até nós.
65 anos: um grande “obrigado” a Deus
Neste 30 de agosto de 2026, nosso primeiro olhar se dirige ao Pai.Antes de celebrar nossas realizações, queremos celebrar sua fidelidade.
Obrigado, Senhor, pelos 65 anos de presença no Brasil.Obrigado pelos missionários que chegaram em 1961.Obrigado pelos religiosos que continuaram a missão.Obrigado pelas vocações que nasceram nesta terra.Obrigado pelas comunidades que nos acolheram.Obrigado pelos colaboradores, leigos, voluntários, amigos e benfeitores.Obrigado por cada criança acolhida, cada jovem acompanhado, cada família ajudada, cada pessoa cuidada, cada comunidade evangelizada e cada vida que se encontrou com outra vida por meio desta missão.Obrigado também pelos momentos difíceis, porque neles aprendemos novamente que a Obra não depende apenas das capacidades humanas.Obrigado pelos caminhos que se abriram e também por aqueles que precisaram ser encerrados.Obrigado por aquilo que compreendemos e por tudo aquilo que somente a fé nos ajudou a acolher.Sobretudo, obrigado porque, depois de 65 anos, podemos continuar proclamando aquilo que São João Calábria desejava testemunhar ao mundo:Deus é Pai. Deus cuida de seus filhos. A Divina Providência existe.E quem busca o Reino de Deus nunca caminha sozinho.
Hoje fazemos memória.Hoje agradecemos.Hoje celebramos.Mas, sobretudo, hoje renovamos nossa confiança.
A história iniciada em 30 de agosto de 1961 não terminou. Há páginas que ainda não conhecemos, pessoas que ainda encontraremos, necessidades às quais seremos chamados a responder e caminhos que Deus ainda haverá de abrir.
Seguiremos adiante com a mesma certeza que sustentou aqueles primeiros passos: a Obra é de Deus.
E, se é de Deus, cabe a nós permanecer disponíveis, humildes e fiéis, buscando em primeiro lugar o seu Reino e colocando nossas mãos, nossa inteligência, nossas comunidades e nossa própria vida a serviço dos seus desígnios.
Sessenta e cinco anos depois, a semente continua produzindo frutos.
E seguimos confiantes.
Porque a Providência que escreveu esta história até aqui continua escrevendo as próximas páginas.
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