65 anos de Providência no Brasil: Centro Social São João Calábria transforma vidas em Rio Grande
Nascido de um antigo sonho missionário dos Pobres Servos da Divina Providência, o Centro Social São João Calábria iniciou suas atividades em 2019. Sete anos depois, sua história revela uma presença construída pela acolhida, educação, proteção e promoção humana de crianças, adolescentes e famílias em situação de vulnerabilidade.
65 anos
05.09.2026 07:00:00 | 9 minutos de leitura

Ao celebrar os 65 anos da presença dos Pobres Servos da Divina Providência no Brasil, a memória agradecida percorre os diferentes lugares onde o carisma de São João Calábria criou raízes e encontrou novas formas de responder às necessidades das pessoas. Em Rio Grande (RS), uma dessas respostas tomou forma no Centro Social São João Calábria, atividade iniciada em 2019 e que hoje testemunha a continuidade de uma história marcada pela confiança na Divina Providência.
A presença Calabriana no município, porém, é anterior à criação do Centro Social. Quando os Pobres Servos assumiram a Paróquia Santa Teresa, em 1996, já existia o desejo de iniciar uma atividade social em Rio Grande. Naquele momento, por diferentes motivos, o projeto não pôde ser concretizado. O sonho permaneceu.
Da Providência, um espaço para servir
Conhecendo o desejo da Congregação, Dom Ricardo Hoepers, então bispo, ofereceu o espaço do Seminário Diocesano para a realização de uma atividade social. Depois das tratativas e da preparação necessárias, em 2018 foi fundada uma nova filial do Instituto Pobres Servos da Divina Providência, na Rua Peru, 201, bairro América.
No ano seguinte, o projeto começou efetivamente a ganhar vida. Em 13 de junho de 2019, com o apoio de voluntários e benfeitores, o Centro Social São João Calábria iniciou suas atividades atendendo 20 crianças em situação de vulnerabilidade social, inicialmente no turno da tarde. A Escola Cipriano Porto Alegre colaborou nesse primeiro momento, encaminhando crianças em maior situação de vulnerabilidade atendidas pela instituição de ensino.
A abertura daquela pequena atividade representava mais um passo da expansão da missão iniciada no Brasil em 1961. A cronologia da Congregação registra oficialmente 2019 como o ano de abertura do Centro Social São João Calábria em Rio Grande.
O documento histórico da própria atividade recorda um elemento fundamental daqueles primeiros passos: o trabalho começou em espírito de abandono e confiança na Divina Providência, buscando discernir os caminhos que Deus indicaria para aquela nova missão.
“Promover, valorizando potenciais”
Conhecido na cidade simplesmente como “Calábria”, o Centro Social foi se constituindo como espaço de acolhida, cuidado, proteção e promoção das relações humanas, especialmente junto a crianças, adolescentes e famílias em situação de vulnerabilidade social.
Sua proposta não se limita à resposta a necessidades imediatas. O trabalho possui uma dimensão educativa e formativa voltada ao desenvolvimento integral da pessoa. Sua missão institucional é oferecer novas perspectivas de vida fundamentadas nos valores humanos e cristãos, formando pessoas capazes de serem agentes de transformação na sociedade. Entre seus valores estão a centralidade da pessoa humana, a cultura da vida, a espiritualidade, a ética, a solidariedade e a confiança na Divina Providência. Tudo isso se sintetiza em uma expressão que orienta a atividade: “Promover, valorizando potenciais.”
Essa compreensão traduz, em uma realidade concreta do extremo sul do Brasil, a intuição que acompanha a Obra Calabriana desde suas origens: olhar para cada pessoa não apenas a partir de suas necessidades, mas também de sua dignidade, capacidades e possibilidades.
Sete anos, 417 crianças e adolescentes
O Relatório de Impacto Social dos sete anos do Centro Social, referente ao período de 2019 a 2026, permite compreender a dimensão alcançada pela atividade.
Ao longo desse período, foram atendidas diretamente 417 crianças e adolescentes, além de suas famílias. O relatório destaca que a instituição se consolidou como espaço de esperança, proteção e oportunidades em territórios marcados por situações de vulnerabilidade social.
Os dados reunidos pela atividade mostram ainda a amplitude dessa presença: entre 2019 e 2026, 277 famílias foram impactadas diretamente, aproximadamente 1.044 pessoas foram beneficiadas indiretamente, e as crianças e adolescentes atendidos vieram de 10 escolas e 22 bairros de Rio Grande.
Por trás dos números, entretanto, está o aspecto mais importante da missão: as histórias pessoais.
O relatório registra experiências de mães que descobriram possibilidades de geração de renda, mulheres que fortaleceram sua autoestima, famílias que encontraram escuta e orientação em situações difíceis e responsáveis que, motivados pelo acompanhamento recebido, retomaram os estudos e voltaram a acreditar em seus projetos de vida.
Educação, alimentação, convivência e proteção
Para as crianças e adolescentes, o Centro Social oferece um espaço seguro no contraturno escolar. O atendimento inclui duas refeições diárias — almoço e lanche —, apoio pedagógico e reforço escolar, oficinas de culinária, ecologia e informática, além de atividades culturais, esportivas e recreativas.
O cuidado também alcança diretamente as famílias.
As oficinas desenvolvidas com mulheres, por exemplo, não se restringiram à aprendizagem de técnicas. Segundo o relatório, as atividades de beleza favoreceram experiências de autocuidado, fortalecimento da autoestima, valorização pessoal e construção da autonomia. Outras iniciativas contribuíram para a geração de renda e melhoria da qualidade de vida.
Há ainda uma dimensão que dificilmente pode ser medida apenas por estatísticas: a escuta.
O relatório sintetiza essa experiência na expressão: “aqui as famílias têm sempre uma escuta”. Ao longo dos anos, o Centro acolheu mães em momentos de fragilidade, pais em situação de desemprego e adolescentes enfrentando conflitos e inseguranças. Foram momentos de orientação, acompanhamento e presença próxima diante das dificuldades concretas das famílias.
Uma equipe que cuida também das pequenas necessidades
A missão é construída diariamente por colaboradores e voluntários. Diretor, auxiliar administrativo, assistente social, educadores, cozinheiros, profissionais de higienização e voluntários compõem uma rede de cuidado que frequentemente ultrapassa as atribuições formais de cada função.
O relatório registra exemplos muito concretos desse acompanhamento: auxílio na busca por vagas em creches, mediação de conflitos familiares, procura por óculos, cadeira de rodas e medicamentos, inscrição em programas de transferência de renda, elaboração de currículos e preparação para entrevistas de emprego.
São ações aparentemente simples que expressam uma característica profundamente Calabriana: a pessoa vem antes do serviço. Cada necessidade encontrada torna-se oportunidade de acolher, acompanhar e ajudar alguém a recuperar possibilidades.
Tudo isso sustentado pela espiritualidade
Por trás das ações, projetos, atendimentos e números que expressam o alcance do Centro Social São João Calábria, existe uma força que sustenta e dá sentido à missão: a Espiritualidade Calabriana, alimentada pela fé e pela confiança em Deus Pai Providente.
Um sinal concreto dessa dimensão é o grupo de voluntários que acompanha e apoia o Centro Social. Além de promover inúmeras iniciativas para arrecadar recursos destinados à manutenção e à ampliação da atividade, o grupo cultiva uma experiência de comunhão que une serviço, fraternidade e oração.
Todas as quintas-feiras à noite, os voluntários se reúnem na sede do Centro Social com os religiosos que atuam em Rio Grande — Ir. Gilnei Rodolfo Bampi, Pe. Gilmar Fornasier e Pe. José Zanatta. O encontro contempla uma breve reunião para tratar da caminhada e das necessidades da missão, seguida pela Santa Missa e por um jantar fraterno.
É uma dinâmica simples, mas profundamente significativa. Antes de ser apenas uma organização de pessoas mobilizadas para conseguir recursos, o voluntariado encontra na espiritualidade a fonte que renova as motivações e recorda o sentido mais profundo de cada iniciativa realizada.
Assim, a chama da espiritualidade mantém vivo o desejo de continuar servindo e de fazer da própria vida um “Evangelho Vivo”, segundo o espírito de São João Calábria. O encontro semanal torna-se também um bonito testemunho de que a missão não depende somente das capacidades humanas: cada pessoa é chamada a reconhecer-se como instrumento nas mãos de Deus e a permitir que a Providência continue realizando o bem por meio de sua disponibilidade.
Em Rio Grande, portanto, a Providência também se manifesta nessa comunidade que reza, partilha, trabalha, mobiliza recursos e permanece unida em torno de uma mesma missão. As mãos realizam o trabalho, mas é a espiritualidade que mantém acesa a chama.
Uma missão que continua crescendo
Depois de sete anos, o Centro Social olha também para o futuro. Entre as perspectivas apresentadas pela própria atividade estão a replicação do Projeto Sementes do Amanhã, desenvolvido em parceria com o Fundo Municipal dos Direitos da Criança e do Adolescente/COMDICA; a conclusão das ampliações da estrutura física; a busca de novas parcerias para ampliar as atividades; a abertura a novas frentes de vulnerabilidade social; e a implementação de cursos em parceria com o FECA/RS.
O crescimento, portanto, não é compreendido apenas em termos de estrutura ou número de atendimentos. Significa ampliar a capacidade de estar próximo das pessoas e responder às novas situações de vulnerabilidade que surgem na comunidade.
65 anos: a mesma Providência, novas respostas
Quando os primeiros Pobres Servos chegaram ao Brasil, em 30 de agosto de 1961, não poderiam conhecer todas as estradas pelas quais o Carisma Calabriano caminharia nas décadas seguintes.
Rio Grande é uma dessas estradas.
Do desejo surgido quando a Congregação assumiu uma paróquia na cidade, passando pela oportunidade oferecida pela Diocese e pelo início modesto com apenas 20 crianças, até chegar às centenas de crianças, adolescentes e famílias alcançadas, o Centro Social São João Calábria tornou-se mais uma expressão concreta da missão iniciada no Brasil há 65 anos.
Celebrar essa história significa reconhecer que a Providência continua agindo por meio de religiosos, colaboradores, voluntários, benfeitores, parceiros, famílias e tantas pessoas que colocam seus dons a serviço da vida.Em 2019 eram 20 crianças. Sete anos depois, são 417 crianças e adolescentes atendidos, 277 famílias diretamente impactadas e cerca de 1.044 pessoas beneficiadas indiretamente.
Mais que uma expansão numérica, são vidas que se encontraram com uma missão.
E, assim, no extremo sul do Brasil, continua viva a semente plantada pelos Pobres Servos da Divina Providência: confiar em Deus Pai Providente e fazer dessa confiança um serviço concreto aos mais pobres, para que cada pessoa encontre acolhida, dignidade, oportunidades e esperança.
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