4º Domingo da Quaresma
A verdadeira alegria nasce quando Cristo abre os olhos do coração: quem se deixa iluminar por Ele já não caminha nas trevas, mas descobre o caminho da vida.
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12.03.2026 10:43:52 | 5 minutos de leitura

Pe. Rafael Pedro Susrina, psdp
A liturgia deste domingo nos coloca diante de uma pergunta: o que nos impede de ver?
O Evangelho narra a cura do cego de nascença. Diz a Palavra: “Enquanto estou no mundo, eu sou a luz do mundo.” (Jo 9,5) Jesus encontra um homem que nunca viu a luz. Faz um gesto simples, unge-lhe os olhos e o envia a lavar-se na piscina de Siloé. O homem obedece e volta vendo.
Mas, paradoxalmente, ao longo do Evangelho acontece algo: aquele que era cego começa a ver cada vez mais, enquanto aqueles que julgavam ver – os fariseus – ficam cada vez mais cegos.
No final, Jesus afirma uma frase que deve nos fazer tremer interiormente: “Eu vim a este mundo para exercer um julgamento, a fim de que os que não veem, vejam, e os que veem se tornem cegos.” (Jo 9,39) Portanto, o grande drama não é apenas não ver, mas pensar que se vê quando na verdade o coração está fechado.
A primeira cegueira que aparece no Evangelho é a soberba. Os fariseus não conseguem acolher o milagre porque já têm uma ideia fixa sobre Deus e sobre a lei. Eles acreditam que sabem tudo. Não conseguem admitir que Deus esteja agindo fora de seus esquemas. Por isso rejeitam o milagre.
Santo Agostinho comenta que o cego de nascença representa toda a humanidade ferida pelo pecado original: precisamos que Cristo toque nossos olhos para ver a verdade. Mas quem é soberbo não pede cura, porque acredita que já está são.
A 1ª leitura já prepara essa verdade. Quando Samuel vai ungir o novo rei, Deus lhe diz: “O homem vê as aparências, mas o Senhor olha o coração.” (1Sm 16,7) Davi é escolhido não por sua aparência, mas por seu coração.
A soberba nos cega porque nos faz confiar em nós mesmos mais do que em Deus. A virtude que abre os olhos é a humildade. O cego curado é humilde: ele aceita obedecer, aceita lavar-se, aceita testemunhar aquilo que viveu. A humildade nos coloca na verdade diante de Deus.
Outra cegueira presente é a indolência espiritual, a preguiça da alma. Os vizinhos discutem, questionam, analisam, interrogam… mas poucos parecem realmente interessados em encontrar a verdade. Quantas vezes também nós nos acostumamos com uma fé superficial. A oração perde o fervor, a vida espiritual começa a esfriar e o coração se torna menos atento à presença de Deus.
São Paulo nos adverte na 2ª leitura: “Outrora éreis trevas, mas agora sois luz no Senhor. Vivei como filhos da luz.” (Ef 5,8) E acrescenta um chamado que ecoa como um despertar da alma: “Desperta, tu que dormes, levanta-te dentre os mortos e Cristo te iluminará.” (Ef 5,14) A preguiça espiritual adormece o coração; já o zelo e o fervor reacendem em nós o desejo de buscar a Deus e caminhar novamente na sua luz.
Há ainda outro sentimento que aparece no Evangelho: o medo. Os pais do homem curado sabem que o milagre aconteceu, mas evitam falar claramente. O Evangelho explica: “Seus pais disseram isso, porque tinham medo das autoridades judaicas.” (Jo 9,22) O medo paralisa a fé.
Quantas vezes sabemos o que é verdade, sabemos o que é justo, sabemos o que Deus espera de nós… mas o medo do julgamento dos outros nos faz permanecer em silêncio. O cego curado, porém, não tem medo. Ele testemunha com coragem: “Eu era cego e agora vejo.” (Jo 9,25) Contra o medo, a virtude necessária é a confiança em Deus, a coragem que nasce da fé.
Ao longo do Evangelho acontece um crescimento interior extraordinário. No início, o homem fala de Jesus como “um homem”. Depois o chama de “profeta”. E no final, quando encontra Jesus novamente, ele declara: “Eu creio, Senhor!” E prostra-se diante Dele. (Jo 9,38)
A visão física levou à visão da fé. E é exatamente isso que a Quaresma quer realizar em nós: abrir nossos olhos para enxergar Deus, enxergar a verdade sobre nossa vida, enxergar o caminho da salvação.
Por isso a liturgia nos convida a perguntar: que cegueira ainda existe dentro de mim? Será a soberba que não aceita correção? Será a preguiça espiritual que enfraquece minha vida de oração? Será o medo que me impede de testemunhar a fé?
Este domingo da Quaresma tem um nome especial na tradição da Igreja: Domingo da Alegria. No meio do caminho penitencial, a Igreja nos convida a levantar os olhos e recordar que a Páscoa está próxima. Mas é importante compreender: a alegria cristã não é superficial. Ela não nasce simplesmente porque a liturgia diz que devemos estar alegres. Ela nasce quando os olhos se abrem.
Imaginem a alegria daquele homem que, pela primeira vez na vida, viu a luz do sol, viu o rosto das pessoas, viu o mundo que antes era apenas escuridão. Esse é o símbolo da alegria cristã.
A verdadeira alegria nasce quando Cristo ilumina nossa vida. Quando uma pessoa deixa a soberba e descobre a humildade. Quando vence a preguiça espiritual e reencontra o fervor da oração. Quando supera o medo e começa a confiar em Deus. Ali começa uma alegria nova. Não é a alegria passageira das emoções, mas a alegria de quem encontrou a verdade.
Quando Cristo abre nossos olhos, algo dentro de nós finalmente encontra o caminho. Por isso o cego curado termina o Evangelho prostrado diante de Jesus. Ele não recebeu apenas a visão física; ele encontrou o Senhor. E talvez seja esta a pergunta final deste domingo:
Se Cristo abrisse hoje os olhos do meu coração, Ele encontraria em mim o caminho da verdadeira alegria… ou ainda alguma escuridão que eu não quero enxergar?
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