3º Domingo da Quaresma
Cristo senta-se junto ao poço da nossa vida e pede de beber, para despertar em nós a sede da água viva que somente Deus pode saciar.
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05.03.2026 09:41:33 | 5 minutos de leitura

Pe. Rafael Pedro Susrina, psdp
A liturgia nos conduz ao poço de Sicar. Ali, sob o sol do meio-dia, encontramos uma mulher sedenta – e um Deus que tem sede. No Evangelho segundo São João (4,5-42), Jesus diz: “Dá-me de beber”. O Senhor pede água… mas, na verdade, vem saciar a sede mais profunda do coração humano. Ele se apresenta necessitado para revelar a nossa própria necessidade. Pede um pouco de água para oferecer a água viva do Espírito.
A 1ª leitura (Êx 17,3-7) mostra o povo murmurando no deserto: “O Senhor está no meio de nós ou não?” Eis a raiz de muitos pecados: a desconfiança. Quando o coração começa a suspeitar do amor de Deus, nasce a murmuração; o espírito se endurece; a pessoa começa a procurar outras fontes, cisternas rachadas que não podem saciar a sede. O Salmo nos adverte: “Não fecheis o coração” (Sl 94(95),8). Fechar o coração é o início da aridez espiritual.
A mulher samaritana vai ao poço ao meio-dia. Hora improvável. Hora de calor intenso, quando ninguém costuma ir buscar água. Talvez também a hora em que alguém procura evitar os olhares dos outros. A luz do meio-dia expõe aquilo que muitas vezes tentamos esconder. Quantas vezes também nós vamos aos nossos “poços” humanos quando pensamos estar sozinhos, quando acreditamos que ninguém vê as feridas do nosso coração.
Jesus, porém, não humilha; Ele a conduz com mansidão. Pouco a pouco, abre diante dela um caminho de verdade e de esperança. O orgulho – a soberba que se protege atrás de máscaras – impede o encontro. O orgulhoso não pede, não se reconhece necessitado. Por isso, a virtude que abre o poço do encontro com Deus é a humildade.
Santo Agostinho ensinava que o Senhor, ao pedir de beber, despertava na mulher o desejo da graça. Deus se faz pobre para enriquecer o homem. Cristo pede água para dar água viva. A humildade de Cristo cura a nossa soberba; sua sede revela a nossa.
Também em Massa e Meriba aparece a desconfiança do povo. Quando duvidamos da presença de Deus, nasce o medo, a insegurança espiritual e a fuga das responsabilidades. A virtude que cura essa ferida é a confiança. São Paulo afirma: “A esperança não decepciona, porque o amor de Deus foi derramado em nossos corações pelo Espírito Santo” (Rm 5,5). A fé não é ingenuidade; é a confiança filial naquele que provou o seu amor por nós na cruz: “Cristo morreu por nós quando éramos ainda pecadores” (Rm 5,8).
Onde tenho murmurado? Em que momentos digo, mesmo sem palavras: “O Senhor está no meio de nós ou não?”
Entre judeus e samaritanos havia uma antiga divisão. A mulher recorda essa barreira histórica. O pecado cria muros: a maledicência, os rótulos, as exclusões; o individualismo que prefere a própria bolha ao encontro. Jesus, porém, atravessa fronteiras e transforma uma simples conversa em caminho de salvação. A virtude aqui é a caridade, que bendiz e bem-pensa; é a solidariedade que constrói comunhão.
Minhas palavras constroem pontes ou levantam muros? Minha fé é intimista ou missionária?
Quando a mulher encontra verdadeiramente Cristo, acontece algo significativo: ela deixa o cântaro e corre à cidade. O cântaro representava sua antiga busca, aquilo com que tentava saciar a sede cotidiana. Agora ela encontrou uma fonte maior. Quem encontra Cristo descobre que certas coisas que pareciam indispensáveis já não ocupam o centro do coração. A alegria do encontro vence a preguiça espiritual e faz nascer o zelo missionário.
Assim também acontece conosco. A samaritana encontrou primeiro um homem cansado junto ao poço; depois reconheceu um profeta; e finalmente confessou o Messias. O caminho da fé muitas vezes começa com um encontro simples e vai amadurecendo até tornar-se adesão plena ao Senhor.
Na rocha ferida do deserto brotou água; no lado aberto de Cristo brotou a vida. A cruz é a resposta definitiva à desconfiança humana. Diante desse amor, a avareza – o apego que retém – transforma-se em generosidade; a ira aprende a ceder lugar à mansidão. Quem experimenta ser amado gratuitamente aprende também a amar gratuitamente.
Santo Agostinho dizia que o coração humano permanece inquieto até repousar em Deus. A água viva é o Espírito Santo derramado em nossos corações (cf. Rm 5,5). É Ele quem nos dá a verdadeira alegria evangélica, aquela alegria que vence a tristeza estéril e devolve ao coração a esperança.
Dentro de alguns instantes também nós nos aproximaremos da fonte. No altar, Cristo continua a oferecer a água viva do seu amor. Aquele que pediu de beber à samaritana agora se entrega como bebida de salvação. Na Eucaristia, Ele sacia a sede mais profunda da nossa vida.
Irmãos, o Senhor está sentado junto ao poço da nossa história. Ele conhece nossas feridas e não se escandaliza com elas. Ele nos pede: “Dá-me de beber”. É como se dissesse: entrega-me a tua sede, a tua pobreza, a tua história. E ao mesmo tempo promete: “Quem beber da água que eu lhe der nunca mais terá sede”.
A Quaresma é tempo de examinar as raízes do coração: orgulho ou humildade? desconfiança ou fé? maledicência ou caridade? dispersão ou vida interior? O poço é Cristo. A rocha é Cristo. A água é o Espírito.
Saíamos desta Eucaristia deixando o cântaro do passado. Tornemo-nos anunciadores como a samaritana: “Vinde ver!”. Porque quem encontrou verdadeiramente o Senhor não consegue guardar essa alegria apenas para si.
Se Cristo hoje se senta junto ao poço da minha vida e me pede de beber, o que eu lhe entrego: minhas justificativas… ou a minha sede verdadeira?
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