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“Rasgai o coração”: a Quaresma como guerra espiritual

A Quaresma não é simbólica: é tempo de guerra espiritual, ruptura interior e decisão concreta por Deus.

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17.02.2026 12:40:18 | 4 minutos de leitura

“Rasgai o coração”: a Quaresma como guerra espiritual

Pe. Rafael Pedro Susrina, psdp

A Igreja nos coloca em estado de combate. Por isso, nós rezamos na Coleta: “Concedei-nos iniciar com o santo jejum este tempo de conversão, para que, auxiliados pela penitência, sejamos fortalecidos no combate contra o espírito do mal.” A Quaresma não é simbólica. É guerra espiritual.

Na 1ª leitura, do Livro do Profeta Joel 2,12-18, o Senhor clama: “Voltai para mim com todo o vosso coração… rasgai o coração e não as vestes” (Jl 2,12-13). Rasgar as vestes era gesto exterior. Deus quer mais: quer ruptura interior. 

O coração precisa ser rasgado porque está endurecido. O pecado não é um detalhe moral; é uma ruptura com Deus. Ele nos torna superficiais, acomodados, espiritualmente anestesiados.

Quantas vezes mantemos práticas religiosas, mas não tocamos no orgulho? Quantas vezes confessamos faltas leves, mas preservamos pecados de estimação? Quantas vezes adiamos decisões radicais?

Rasgar o coração significa permitir que a Palavra fira aquilo que está errado em nós. Conversão não é conforto; é cirurgia espiritual.

O Salmo 50(51) coloca nos nossos lábios: “Criai em mim um coração que seja puro” (Sl 50[51],12). Não pedimos um ajuste; pedimos uma nova criação. E toda criação supõe ruptura com o que estava deformado. A penitência verdadeira dói. Ela fere o amor-próprio. Ela nos coloca diante da nossa incoerência. Mas é exatamente nessa dor que a graça opera. O santo não é o impecável; é aquele que leva a sério o combate.

Na 2ª leitura, 2Cor 5,20–6,2, São Paulo suplica: “Deixai-vos reconciliar com Deus” (2Cor 5,20). “Eis agora o tempo favorável” (2Cor 6,2). Agora. Não depois.  

E se esta for a última Quaresma que Deus nos concede? E se este for o último “tempo favorável” da nossa história? Quantas conversões adiadas? Quantas confissões postergadas? Quantas reconciliações nunca realizadas?

A indiferença espiritual é mais perigosa que a fraqueza. O pecador que chora pode converter-se; o morno dificilmente desperta.

No Evangelho, São Mateus 6,1-6.16-18, Jesus fala da esmola, da oração e do jejum. Ele não diz “se fizerdes”, mas “quando fizerdes”. Mas precisamos ser honestos: muitas vezes nossa penitência é simbólica. Tiramos algo pequeno, mas preservamos aquilo que realmente nos escraviza. Não basta deixar um doce se não combatemos o orgulho. Não basta reduzir algo supérfluo se continuamos alimentando a vaidade, a impureza, a crítica, a dureza de coração. O jejum cristão é mortificação. É contrariar-se. É dizer “não” à própria vontade. Quem nunca se contradiz nunca amadurece espiritualmente.

A esmola deve tocar o bolso e o egoísmo. A oração deve vencer a preguiça e a dispersão. O jejum deve atingir aquilo que mais custa. Se não há sacrifício, não há verdadeira penitência.

Recebemos hoje as cinzas e ouvimos: “Tu és pó…” (cf. Gn 3,19). Somos frágeis. Somos passageiros. A vida não é infinita. Mas o pó pode tornar-se santo quando passa pela cruz. Não há Ressurreição sem Calvário. Não há Páscoa sem renúncia. Se a nossa Quaresma não tem cruz concreta, ela será apenas calendário litúrgico. A mortificação cristã não é desprezo do corpo, mas ordenação dos desejos. É libertação. É disciplina do amor.

A Quaresma não pode terminar como começou. Hoje é dia de decisão. Decidir confessar-se com sinceridade. Decidir abandonar um pecado concreto. Decidir uma penitência que custe. Decidir rezar mesmo sem vontade. Decidir perdoar mesmo com dor.

A bênção final pedirá que Deus derrame “o espírito de arrependimento”. Mas o arrependimento verdadeiro se prova na mudança de vida. 
A verdadeira penitência não é confortável. Ela expõe nossas misérias. Ela exige sacrifício. Mas nela há esperança. O Pai está inclinado para nós. Ele não rejeita o coração contrito. Ele fortalece quem luta. Ele levanta quem cai. 

Que esta não seja mais uma Quaresma superficial. Que seja a Quaresma da ruptura. A Quaresma da decisão. A Quaresma da cruz assumida. E então, fortalecidos no combate contra o espírito do mal, poderemos chegar à Páscoa não apenas como espectadores, mas como homens e mulheres realmente convertidos. Amém.

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