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Carta de São João Calábria sobre a Unidade dos Cristãos

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São João Calábria sempre rezou e exortou pela Unidade dos Cristãos. Acompanhemos sua reflexão dirigida aos Religiosos e a todo o povo de Deus.

"Estou aqui diante do meu Crucifixo enquanto estou escrevendo estas minhas pobres palavras, assim como elas brotam espontaneamente do meu coração, e me parece que do sangrento e aberto Lado do Redentor divino saia, mais vivo e penetrante do que nunca, justamente por ser voz do sangue, um grito, um supremo brado: 'Ut omnes unum sint!'.

Em sua oração eminentemente sacerdotal depois da última ceia, Jesus havia dirigido esse pedido ao seu Pai, e sem dúvida tratava-se de uma das mais ardentes palpitações do seu coração, que se tornou um fogo bem aceso de caridade. Agora, porém, Ele parece dirigir-se especialmente a nós, e com razão, pois se o retorno dos irmãos separados será dom do Pai celeste à mística Esposa do seu divino Filho, a Igreja, cabe justamente a nós merecer que esse dom seja feito, e o quanto antes.

Eis, então, o momento oportuno para fazer presente esse grande problema, próximos como estamos da Semana de Orações de todos conhecida, a ser celebrada de 18 a 25 de janeiro, isto é, da festa da Cátedra de São Pedro até a festa da Conversão de São Paulo.

Considero uma graça toda particular do Senhor o fato de eu, pobre como sou, ter sentido sempre, desde os primeiros anos do meu sacerdócio, a importância e quase o sonho do retorno dos irmãos separados.

Por essa razão, aproximadamente uns trinta anos atrás, tendo visto por acaso no 'L’Osservatore Romano' uma pequena nota na qual pela primeira vez se falava dessa Semana de Orações, escrevi ao Mons. Caron, já falecido, pedindo-lhe que intercedesse junto ao Santo Padre para que essa prática tão providencial, com o impulso da Sé Apostólica, fosse estendida a toda a Igreja.

Ele, humildemente, respondeu-me que pouco poderia fazer, mas que mesmo assim iria sugerir isso ao Santo Padre numa das suas audiências particulares. O que aconteceu depois, eu não sei dizer a vocês. De qualquer modo, é sumamente confortante aquilo que agora todos podemos constatar com muita alegria.

Pode-se dizer que hoje não há um só seminário ou instituto religioso onde essa Semana não seja celebrada; aliás, em muitas cidades estão sendo sempre mais solenemente organizadas as celebrações dessa Semana, que deve envolver fortemente a todo o povo cristão. E para que esse santo contágio se intensifique sempre mais e se estenda até às mais humildes igrejas do campo, bem como às perdidas entre os montes, eu gostaria que pudesse servir e colaborar esse meu pobre mas insistente apelo.

Convidemos os fiéis a rezar pelo retorno dos irmãos separados. A oração é o meio para obter todas as graças de que a Igreja precisa e que o próprio Senhor quer conceder, bastando que nós rezemos a Ele com aquele ardor de caridade e com aquela fé e confidência que se inspiram no ensinamento de Jesus: 'Buscai em primeiro lugar o reino de Deus e a sua justiça'. (Mt 6,33).

A oração, de fato, é aquele incenso suave que sobe até o trono de Deus e de lá volta em forma de muitas bênçãos; além disso, em si mesma ela é um auxílio e um meio adequado para educar e formar o sentimento dos fiéis no sentido de compreender o problema da unidade, que é ao mesmo tempo um problema de justiça e de caridade.

De justiça, porque se nós nos sentimos privilegiados por possuirmos genuína e inteiramente o patrimônio da verdade, não devemos ser egoístas: o bem se difunde por si só. Precisamos tornar os outros participantes desse patrimônio sobrenatural, lembrando daquilo que o Senhor diz: 'Unicuique mandavit de proximo suo'.

É também dever de caridade. Esses irmãos separados devem ser vistos por nós com um amor e uma ternura toda particular, assim como uma mãe pensa com ardente solicitude e com mais insistente saudade nos filhos que se distanciaram do teto paterno e que hoje estão ausentes da mesa familiar. E como numa família atingida pela desgraça os filhos melhores procuram consolar a mãe não só com a sua conduta exemplar mas fazendo de tudo, com todas as suas forças, para que os irmãos transviados sintam a saudade do lar paterno e para reconduzi-los a gozar daquele saudável ar quentinho, da mesma forma nós devemos, com toda a nossa boa vontade, com todos os meios à nossa disposição, aproximar-nos desses nossos irmãos e facilitar o seu retorno.

Eles são sempre nossos irmãos, embora dissidentes e separados de nós. São lingotes de ouro, segundo a bela imagem usada por Pio XI, que se desprenderam do grande edifício da Igreja de Pedro, mas nem por isso deixam de ser de ouro. É preciso, pois, recuperá-los e reconduzi-los à unidade perfeita da Igreja, a fim de que façam parte formalmente do Corpo místico de Cristo e gozem da abundância dos carismas que Cristo derrama a mãos cheias no meio de nós.

O divino Mestre nos repetiu tantas vezes, por meio do seu Vigário, o convite a trabalhar pelo retorno dos irmãos separados, e ainda ressoam em nossos ouvidos as palavras ardentes pronunciadas por Pio XII em sua última mensagem natalina. Acolhamos com todo o empenho da nossa boa vontade o convite solene do Senhor. Especialmente nesta Semana de Orações, a nossa voz se eleve mais insistente, mais amorosa, mais confiante ao trono de Deus, e peça também um intenso e duradouro ardor para continuar depois da Semana, em todo o ano e para sempre, neste anseio, nesta santa paixão pela união dos irmãos cristãos.

Parece-me que Jesus reserva bênçãos especiais para todas aquelas dioceses, paróquias e institutos religiosos onde essa Semana de Orações é feita com mais solenidade e fervor. E a primeira bênção será uma maior santidade de vida, pois não se pode desejar ardentemente o retorno dos fiéis separados sem entender e sem sentir que o melhor meio para propiciar a misericórdia de Deus e para convencer ao retorno os dissidentes é o sacrifício e o exemplo de uma vida santa.

O espírito de pobreza, a simplicidade, a modéstia da vida, a perfeita caridade em nossos relacionamentos, a beleza e o esplendor das celebrações litúrgicas, são todos meios eficacíssimos para convencer através da vida prática, mais do que através de palavras. E a santidade irradia-se sempre longe, mesmo se não se faz barulho, mesmo sem o prestígio de obras grandes e clamorosas.

Estamos na véspera do Ano Santo, que a bondade paterna do Santo Padre anunciou e que com a graça do Senhor esperamos poder celebrar. Se nos dispusermos a essa celebração com o santo propósito de viver a vida cristã segundo o evangelho, seguindo o exemplo dos Apóstolos e dos primeiros cristãos, poderemos também apressar a hora do retorno dos irmãos separados.

Parece mesmo que esta seja a hora deles, os tempos se tornaram maduros. Eu também, na minha pequena experiência, tenho sinais claros de que o Senhor faz com que se volte para Roma o olhar de muitas almas materialmente distantes, mas que de fato estão muito mais perto do que pensamos. Por isso, possa a minha pobre voz ultrapassar os confins da nossa terra e ser ouvida e acolhida além dos montes e além dos mares pelos nossos irmãos separados, para que saibam que nós desejamos uma só coisa: que se realize o anseio do Coração de Jesus, 'Ut omnes unum sint'.

Oh, quanta glória teria Deus, quanto prestígio teria a Igreja, e quanto proveito teriam as almas, que se sentiriam reanimadas na fé e no propósito de uma vida verdadeiramente cristã! E como seria facilitada a própria conversão dos infiéis, para os quais estas infinitas divisões entre os cristãos constituem um gravíssimo obstáculo à sua conversão em massa.

Oh, como eu morreria feliz, com que alegria eu cantaria o meu 'Nunc dimittis', se me fosse permitido ver o cumprimento desses santos ideais, a realização desse grande retorno!

Satanás está furioso, põe em ação todos os meios à sua disposição e todas as artimanhas para vencer; esses, porém, creio eu, são os seus últimos esforços, depois dos quais veremos o pleno triunfo de Cristo e da sua Igreja e uma nova era de prosperidade e de paz.

Que o Senhor, enfim, nos conceda essa graça, por intercessão dAquela para cujo louvor canta a liturgia: 'Cunctas haereses sola interemisti in universo mundo'."

 

CALÁBRIA, São João. Carta aos Religiosos, p 348-535. Centro de Espiritualidade e Cultura Calabriana.