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Padre Josuel dos Santos Boaventura: Itinerário vocacional

Testemunhos

Entrevistamos Padre Josuel dos Santos Boaventura que no dia 1 de janeiro de 2021 celebrou 25 anos de Vida Religiosa Consagrada

Revista A Ponte: Padre Josuel descreva, nesse primeiro momento, um pouco sobre sua família, alguma lembrança deste período, para assim começarmos a lhe conhecer...

Padre Josuel: Venho de uma família simples (de baixa renda) e razoavelmente numerosa: os meus pais (D. Clementina dos Santos Boaventura e Martins Santos Boaventura), eu e mais seis irmãos e uma irmã. Sou natural da cidade de Cachoeira (pois na minha cidade não tinha maternidade), mas sempre morei em Conceição da Feira, diocese de Feira de Santana (BA). Gosto de ser chamado de Dega, pois o nome (Josué) foi modificado no cartório por ignorância de quem trabalhava lá. Porém, na minha família, desde criança, sempre fui chamado de Dega, que significa “uma pessoa boa”. A origem é africana e lá se trata de um sobrenome: Ndega.

São tantas as lembranças significativas que é até difícil começar a enumerá-las, pois não creio que tenha existido uma sequer que não tenha sido significativa. Desde a infância sempre estive envolvido com três atividades fundamentais: a música, a capoeira e o altar (além do trabalho, desde os sete anos de idade). Me lembro do esmero com que o meu pai me ensinava a jogar capoeira, a dedicação de mainha em me preparar para ir à missa, em preparar a minha veste para servir como coroinha e a sua felicidade quando começou a desabrochar em mim a vocação para o sacerdócio. Na área musical, recebi herança tanto da parte de mainha como de painho. Eu comecei a tocar meus primeiros instrumentos antes dos dez anos, e com essa idade já cantava nos shows de calouros promovidos na cidade, marcando assim muito minha vida.

A Ponte: Como surgiu o chamado vocacional? Desde criança o senhor já queria ser padre?

Padre Dega: Sou muito agradecido a Deus pelo dom do chamado e posso até dizer que sou uma pessoa privilegiada. A vocação à Vida Religiosa não era a única alternativa para dar um rumo à minha vida, pois como eu disse antes, desde criança, sempre fui envolvido com muitas atividades. Penso que Deus se aproveitou muito da minha espontaneidade e disposição para fazer as coisas: quando o pároco (padre Áureo) perguntou na missa das crianças se tinha alguém que queria ser coroinha, eu fui o único que levantei a mão, dizendo: “eu quero!”. Depois de um certo tempo, quando o grupo de coroinhas já estava consolidado, o mesmo padre perguntou se tinha alguém entre os coroinhas que queria ser padre, eu estava lá de novo com a mão levantada com uma exclamação entusiástica: “Eu quero!”. E tudo isso aconteceu quando ainda tinha mais ou menos 10 anos. Penso que Deus foi se servindo dessas minhas participações para forjar no meu coração o zelo pela sua causa, como aconteceu com o menino Samuel no templo (1Sm 3,3b-10).

A Ponte: Como foi a resposta ao chamado de Deus?

Padre Dega: Quando a gente é criança, a curiosidade e o espírito de aventura nos fazem desejar muitas coisas e eu não sei se as pessoas levaram realmente a sério aquele “eu quero” dito com tanta espontaneidade e inocência. Aquilo que eu sei é que Deus levou a sério e foi conduzindo minha vida naquilo que Ele queria. Eu podia escolher outras coisas como prioridade, mas no topo estava sempre a igreja, o serviço ao altar, as saídas com o padre para ajudar nas comunidades, colocando a serviço também os dons musicais...

A Ponte: Houve alguma barreira, dificuldade para responder ao chamado de Deus?

Padre Dega: Quando a gente é criança/adolescente a gente sonha muito, mas quando se dá conta das exigências para a realização do sonho a gente pensa em desistir. Confesso que a situação de pobreza da minha família foi a primeira dificuldade para uma resposta, mas isso não me abalou. Deus veio logo em socorro através do pároco e da Comunidade. Uma outra dificuldade foi o fato de deixar a própria família, as diversas experiências locais e ter que ir morar em uma cidade diferente (Feira de Santana) com 15 anos de idade, sem conhecer ninguém a não ser os amigos que ao longo dos encontros vocacionais Deus foi me concedendo. Era toda uma vida para recomeçar. Se não fosse a voz divina que ecoava a partir do meu interior a insistir, eu não teria conseguido me desapegar. O que me atraía era mais forte do que aquilo que eu estava deixando.

A Ponte: No processo de discernimento vocacional sempre quis ser religioso padre?

Padre Dega: Essa foi uma outra dificuldade e parecia que iria me vencer: quando entrei no Centro de Orientação Vocacional queria ser padre diocesano, pois não conhecia um outro estilo de vida, mas depois de dois anos no seminário e a leitura do livro Ele acreditou no Pai dos pobres (padre Gaetano Gecchele), já no terceiro ano de COV, mudei completamente o meu modo de pensar e frustrei muita gente que me conhecia na Paróquia e já me esperava com a veste pronta para o propedêutico. Em síntese, foi difícil enfrentar com serenidade a situação; senti dúvidas e vontade de voltar atrás só para agradar a Comunidade. Mas as palavras de encorajamento e ajuda econômica de tantos outros me motivaram muito, mesmo sem conhecer muito bem a particularidade da Vida Religiosa.

A Ponte: De que forma o Padre conheceu a Congregação Pobres Servos da Divina Providência?

Padre Dega: O primeiro contato com alguém da Congregação foi através dos seminaristas do COV que vinham ajudar na Paróquia de Conceição da Feira durante a Semana Santa. Além disso, tive a oportunidade de participar de encontros vocacionais em Feira de Santana onde me encontrava também com os Pobres Servos. Mas eu ainda não tinha ideia de quem eram eles, até que um dia fomos convidados para fazer um “estágio” no COV. E a partir desta experiência, no ano seguinte, fui integrado ao grupo de seminaristas. Conduzido pelo pároco padre Áureo, entrei oficialmente no COV no dia 25 de fevereiro de 1989. Neste ano éramos 13 seminaristas.

A Ponte: Existe alguma frase bíblica que lhe acompanhou nesse itinerário vocacional?

Padre Dega: A frase bíblica motivacional que sempre me acompanhou no meu discernimento vocacional é “Vem e segue-me!”. Essa frase sempre me tocou profundamente, pois Jesus não está explicando quem deve segui-lo; Ele deixa em aberto, isto é, o convite é feito a todos e a qualquer um. Com o tempo outras frases também passaram a se tornar significativas na minha vida. Atualmente, uma que se tornou um verdadeiro projeto de vida vem justamente da profecia de Isaias: “Eu sou com os oprimidos e humilhados para reavivar o espírito dos humilhados e reanimar o coração dos oprimidos” (Is 57, 15b). Esse é o lema da minha ordenação presbiteral.

A Ponte: Partilhe conosco alguma das experiências mais significativas da sua vida.

Padre Dega: Entre as experiências mais significativas, estão a própria entrada no seminário e o esforço do meu pároco (padre Áureo), com toda a comunidade de Conceição para me ajudar com as coisas básicas para o físico, já que a situação financeira da minha família não permitia. Cada passo e todos os passos dados no COV para mim foram significativos. Aquilo que sou hoje devo em grande parte aos fundamentos recebidos durante o COV.

 

A Ponte: Qual foi o seu percurso missionário como Religioso Consagrado, Padre Dega?

Padre Dega: A primeira missão como religioso foi em Porto Alegre na comunidade do Calábria e também na atividade com os meninos da chamada “República”. Foi um período riquíssimo e de grande aprendizagem com adolescentes e jovens de diferentes idades, estilos e mentalidades. Depois do terceiro ano de teologia fui enviado para um período de missão em Bataguassu - MS. Durante este tempo fiz a Profissão Trienal e recebi a Ordenação Diaconal. De volta a Porto Alegre, desta vez com a comunidade da Restinga, retornei a cursar teologia (4º. Ano) e trabalhar com a pastoral afro, que contribuiu muito para o cultivo da minha própria identidade afro e para o envolvimento de muitos afrodescendentes nas atividades da Igreja resgatando os valores de suas culturas.

Como sacerdote a minha primeira missão foi na Paróquia em Campo Grande - MS, onde trabalhei por 9 anos. Após este período, minha missão foi com os aspirantes em Viamão – RS, onde permaneci por dois anos; e, em seguida, fui enviado para compor a missão no Quênia, onde trabalhei de 18 de janeiro de 2013 a 17 de fevereiro de 2017. Atualmente sou capelão no nosso Hospital, na Itália, onde, também, faço um tratamento para artrite reumatoide.

A Ponte: O que significa ser religioso Pobre Servo da Divina Providência?

Padre Dega: Ser religioso PSDP para mim, antes de tudo, é pertencer à Obra de São João Calábria como consagrado. É ser apaixonado pelo seu carisma e procurar encarná-lo na minha vida, aceitando o desafio de viver abandonado à Divina Providência. Como um religioso PSDP, me sinto chamado a viver uma fé ardente e coerente na Providência de Deus Pai e a anunciar às pessoas o seu amor e cuidado por cada um dos seus filhos e filhas. O modo como tento evidenciar este anúncio, penso que vem expresso através das escolhas que faço, a minha postura diante da vida, o meu relacionamento com as pessoas, o serviço alegre aos mais pobres. Tenho buscado fazer com que o meu ser religioso se torne um anúncio profético do cuidado de Deus. Devo crescer ainda muito.

A Ponte: Quais são os seus sentimentos, nesse momento, celebrando 25 anos de Vida Religiosa Consagrada?

Padre Dega: Diante de tudo isso, o meu sentimento é de gratidão a Deus pelo grande dom que é São João Calábria e sua espiritualidade para todos nós; gratidão e alegria também pelo dom de ser um Pobre Servo, de pertencer a esta Família na qual me sinto ajudado e motivado a viver com alegria e fidelidade o chamado do Senhor.

A Ponte: No seu ponto de vista padre, qual a importância do carisma para a Igreja e o mundo?

Padre Dega: O carisma calabriano é essencialmente evangélico e como tal é muito atual. Neste sentido contribui muito para que a Igreja cumpra a sua missão de continuadora da missão de Cristo. Não poucas vezes São João Calábria dizia que “a Obra é a Igreja” por sentir forte no seu coração o grito de Cristo: “A minha Igreja! A minha Igreja!”. Em um mundo que se esquece cada vez mais do seu Criador, e em que muitas pessoas vivem como se Deus não existisse, o carisma calabriano, em sintonia com a missão da Igreja, traz uma nova visão de mundo e de relação entre as pessoas, pois anunciando a paternidade de Deus motiva as pessoas a recuperarem o sentido da fé e da responsabilidade fraterna.

A Ponte: Deixe-nos uma mensagem final Padre Dega!

Padre Dega: A cada passo que dou nesta caminhada de consagrado, cresço na consciência de que a vida não tem sentido se não é para ser doada. Desde quando eu saí de casa para ir em busca da realização do ideal da minha vida nunca perdi nada, pelo contrário, só ganhei. Por isso, posso dizer que vale a pena seguir por este caminho. Vivendo a minha vocação como Pobre Servo busco cultivar a disponibilidade a serviço do Reino como discípulo, irmão e missionário. Como discípulo, sou chamado a viver com intensidade a experiência da escuta, da abertura, da aprendizagem. Como irmão, busco viver com gratidão e entusiasmo a experiência de ser parte, de estar com os outros e ser ajudado por eles, de ser membro da Família Calabriana. Como missionário, em qualquer lugar onde sou enviado, busco acolher o desafio de ser tudo para todos porque todos são de Deus. Como missionário, vivo a alegria de ser discípulo de Jesus Cristo e de ser irmão de todos e por todos ter o prazer de ‘gastar’ o melhor de mim.

 

              Histórico de Vocação

25/02/1989: Entrada no COV Mãe da Igreja – Feira de Santana - BA

1992: Aspirantado em Porto Alegre – Primeiro ano de filosofia em Viamão

1993/94: Postulantado em São Luís –MA (continuação e conclusão da filosofia)

1995: Noviciado em Farroupilha - RS

01/01/1996: Primeira Profissão Religiosa – Farroupilha - RS

1996-98: Missão com a comunidade do Calábria – POA - RS (três anos de teologia)

1999/00: Missão em Bataguassu - MS (estágio pastoral de 2 anos)

01/01/2000: Primeira Profissão Trienal – Farroupilha - RS

20/08/2000: Ordenação Diaconal – Bataguassu - MS

2001: Missão na Paróquia Nossa Senhora da Misericórdia – Porto Alegre - RS (4ª. ano de teologia)

26/01/2002: Ordenação Presbiteral - Conceição da Feira - BA

2002-2010: Missão na Paróquia São João Calábria – Campo Grande -MS

2011/12: Missão no Aspirantado São José – Viamão - RS (Mestrado em teologia)

18/01/2013-17/02/2017: Missão em Nairobi e Nakuru, Quênia

08/03/2017: Missão em Verona, Itália.

 

 Disponível: REVISTA PONTE, ED. 2, 2021